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Mais do que especialistas… Especiais! (Hora de Lutar)

A última semana mostrou um movimento ímpar de enfermeiros; não é uma revolta por problemas novos ou mudanças abruptas, mas uma exaustão sem retorno de promessas nunca cumpridas.

A última semana mostrou um movimento ímpar de enfermeiros; não é uma revolta por problemas novos ou mudanças abruptas, mas uma exaustão sem retorno de promessas nunca cumpridas, de perspetivas que nunca passaram de ilusões, de assimetrias impossíveis de ser ignoradas.

A novidade não são os problemas que corroem uma classe profissional há anos sem fim: a novidade e a união de uma classe que decidiu fazer por si o que faz incansavelmente pelos outros: cuidar.

Tem sido apanágio das lutas da Enfermagem a passividade e a desunião, com sindicatos inertes e anestesiados ou focados na defesa de uma figura já rara na classe: o enfermeiro funcionário público.

Dilacerados pela precariedade, pela clivagem entre funcionários públicos e contratados e pela emigração, anos de problemas arrastados levaram a profissionais amargurados, cansados, explorados ao limite das suas capacidades, sustentando um SNS em colapso.

Ainda assim, o desenvolvimento e diferenciação da classe tem sido galopante, e mais competências, mais diferenciação, mais qualidade, mais profissionais foram usados (e abusados) para suportar um Sistema de Saúde que sobrevive intimamente ligado a capacidade de superação e sacrifício dos seus profissionais.

O que começou por ser uma legitima reclamação de reconhecimento de trabalho especifico dos enfermeiros especialistas, alastrou para um clamor impossível de calar de reconhecimento do caráter especial que tem os enfermeiros e enfermeiros.

Produto primordial de exportação (sendo um importante suporte de serviços de saúde no estrangeiro, com Reino Unido, Alemanha, Suíça, entre outros como clientes preferenciais), não há memoria de um reconhecimento condigno da mais valia dos enfermeiros e enfermeiras, quer como pessoas, quer como ferramentas vitais na saúde.

Certo será que a Enfermagem nunca foi boa para si própria: a escolha de interlocutores e vozes representativas tem sido paupérrima, colocando agendas pessoais e sectárias como prioridade. A capacidade de união e mobilização tem sido escassa, tantas vezes agudizadas pela rotina extenuante, ou pela sobrevivência num Mercado de trabalho demasiado hostil.

Certo também que anos sem fim passaram de aceitação do inaceitável; de exercício de competências diferenciadas sem reconhecimento, de políticas de especialização aberrantes, de proliferação de licenciaturas sem qualidade, de falta de planeamento estratégico ou lóbi eficaz, mas erros não explicam atrocidades, e atrocidade e o mais suave dos adjetivos para classificar como são tratados os enfermeiros.

Os enfermeiros e enfermeiras empenham diariamente o melhor de si, o mais astuto dos seus conhecimentos, os mais extremos limites da sua capacidade física, seja para ajudar a nascer, para lutar na doença, para confortar na morte iminente. Deixam sós as suas famílias, faltam aos seus próprios compromissos para que alguém sorria enquanto recebe a sua medicação em tempo certo, para que alguém encontre aconselhamento e soluções que o permitam cuidar de si e dos seus, para que ninguém chore sozinho.

Abdicam das suas refeições e das suas necessidades básicas, para que ninguém se revolte sozinho ou chore na doença, para que as melhores decisões se tomem tendo em conta a abnegação destes incansáveis advogados dos utentes.

Tudo isto recompensado com a atrocidade de um contrato precário, de forças de trabalho que os diminuem, comparando anos de empenho e estudo a passar um pano pelo chão. Recompensado com uma discriminação violenta entre os restantes profissionais de saúde, entre próprios colegas, agudizado por um sindicato que sempre foi de alguns.

Recompensado com contratos precários, com incentivos à emigração, com condições de trabalho desumanas, exigindo mais e melhor com menos e por menos.

As lutas esporádicas da enfermagem têm existido, corajosas, condenadas no entanto ao sacrifício dos seus rostos. A precariedade não perdoa, os patrões perseguem sem vergonha, as autoridades tudo permitem e a solidariedade esfuma-se.

Mas hoje tudo muda: as vozes que permitiram despedimentos e injustiças acordam: o medo de perder tudo desvanece no medo de perder o mais importante: a dignidade.

Os atores continuam sem ser os desejáveis, as agendas permanecem suspeitas, mas os rostos que importam são os enfermeiros, todos, porque a luta é de todos, porque os ganhos têm de ser finalmente de todos sem exceção.

Recém licenciado, especialista, chefe, todos ostentam o titulo de enfermeiro, e hoje acordam para a necessidade de um bem comum, de uma classe que é ao mesmo tempo precária, flagelada pela emigração, desprezada pelo poder político, valorizada apenas por aqueles que cuida, de alma cheia pela vida daqueles que marca, mas as suas famílias também carecem de atenção e sustento, os seus sonhos e ambições merecem ser ouvidos.

Ao governo cabe agora a responsabilidade de fazer o que nenhum outro governo fez: de inverter o ataque criminoso da coligação PSD/CDS, a inércia de todos os governos anteriores, de reconhecer que não bastam promessas vazias e reuniões com sindicatos que há muito deixaram de representar a classe.

Ao governo cabe a oportunidade de escutar os enfermeiros e enfermeiras, ao invés de os hostilizar, de refletir na justiça necessária para uma classe que suporta o Sistema de saúde e que nunca negou dar o melhor de si. Cabe a oportunidade de entender a evidência da importância dos enfermeiros e enfermeiras no Sistema de saúde e os ganhos que representam.

Que se silenciem os comentaristas encomendados, as vozes discordantes, e que se faça pelos enfermeiros o que eles incansavelmente fazem pelos outros: cuidar com dignidade e respeito, e com uma mestria que tem de ser reconhecida. Que se silenciem as vozes institucionais, pois é a voz da enfermagem que se quer ouvir e não as quezílias entre sindicatos ou partidaristas.

Os rostos importantes são os de cada um que desiste do seu conforto para lutar, que agarra o seu orgulho em ser enfermeiro e luta por si e pelos utentes que cuida. Os rostos importantes são os que não toleram mais que a cegueira seja tal que não se veja que mais do que especialistas, a enfermagem é especial.

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Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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