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A bela e o monstro viril

É grave que estereótipos de género, forçados e redutores, passem (sem nota negativa) para manuais escolares ou blocos de actividades, sejam eles públicos ou privados.

Ou a bela adormecida que só acorda quando o príncipe que a beija dá à cama. Ou a branca de neve, salva pelo príncipe que banaliza a tentadora maçã. Ou o sapo, condenado ao entulho da beleza, não fosse o batráquio beijado pela perfeição da princesa. Quase tudo aos beijos. Estas, como tantas outras histórias infantis, servem-se repletas de narrativas com desigualdades de género e concepções estereotipadas da vida. São lugares comuns, pontos de estacionamento de encontro ao senso corrente. Mas existem, são reproduzidos, serão provavelmente perenes. E sobrevivem sem que impeçam alguém de formular a sua identidade. São o que são, contos de fadas, portais do fantástico, alucinações delirantes num mundo pintado a cor-de-rosa e azul. Alegorias da maioria. Imaginário.

Educação. Independentemente dos conteúdos e cores, editar blocos de actividades diferenciados para rapazes e raparigas é simplesmente pateta. É grave que estereótipos de género, forçados e redutores, passem (sem nota negativa) para manuais escolares ou blocos de actividades, sejam eles públicos ou privados. Interessa-me zero que tenham ou não mercado, que estejam no top das vendas ou nos vãos de escada ou arrecadações das sobras. A escola é aquilo que aprendemos e também o que damos para a aprendizagem. Seria absurdo dividir a sala de aula a meio, diferenciar testes de aferição pelas cores ou diferentes graus de dificuldade, demarcar os recreios pela zona de relva ou da terra batida. Tolerar que este disparate aconteça sem que seja notado, denunciado e resolvido, seria permitir que a maçã envenenada dos contos se servisse em casa à boleia da escola, alva e gélida entre paninhos quentes. A "Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género" fez o óbvio, recomendando a retirada dos manuais. Como se tivéssemos dos 4 aos 6 anos e precisássemos de sair do mundo a preto e branco para ver as mesmas cores para todos.

Parte da histeria pode crescer pela amplificação da gravidade que as redes sociais permitem. Se manuais separados entre sexo não potenciam a segregação de género, se exercícios com diferentes graus de dificuldade não sibilam pelo teste de QI, se a justeza dos papéis sociais não se inverte com a menina a preparar o lanche com a mãe em contraponto com a destreza física do rapaz que executa actividades em campo aberto, então vamos todos cantar a marcha fúnebre de uma educação que referencie exemplos de igualdade. De resto, a intenção está clara no título dos blocos: as águas separam-se entre o "para meninas" e o "para rapazes". A virilidade não passa por "meninos". "Toda a gente sabe que os homens são feios", canta Miguel Araújo, canção-sequência da "Bela e o Monstro". Haja coragem para chamar as "raparigas" pelos nomes a não ser que vão já ali preparar-me um lanche.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 30 de agosto de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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