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Fogos e linhas vermelhas

Os fogos florestais são um apêndice da terra queimada das políticas públicas de intervenção sobre a floresta, são o que nos resta para olhar quando tudo arde em inoperância.

As prioridades orçamentais não têm timing. Não são elas que aparecem nos últimos minutos a pedir boleia, sobrancelha alta de indicador espetado. As prioridades nem sequer são urgências. Urgências podem gerar prioridades mas nada têm a ver com raiz de pensamento e pré-definição estratégica. As urgências são o Deus nos acuda. E mesmo para crentes, rezar até pode ser prioritário mas nem sempre foi solução.

Escolher e atribuir em razão das prioridades é um misto de racionalidade e senso. Do bom e do que se recomende, preferencialmente. E são por isso desarmantes as notícias que nos chegam sobre um país que arde à vista desarmada e que, em simultâneo, rejeita - por falta de verbas da comparticipação nacional - projectos válidos financiados pela UE em sede de PDR 2020 para a gestão florestal e prevenção de incêndios, não se envergonhando de atribuir 9 milhões de euros desse mesmo PDR para a plantação de eucaliptos. Ainda se encontra em paradeiro incerto a razão pela qual o país mergulha tão frequentemente numa inexplicável e, neste caso, assassina bipolaridade. Mas não deveríamos ter apenas os "incendiários do fogo posto" como os condenados únicos a prisão ou internamento. Quem decide não pode lavar assim as mãos.

Anos e anos da mais previsível fatalidade anual e ainda discutimos as malditas comunicações. É o que se diz. Os fogos florestais são um apêndice da terra queimada das políticas públicas de intervenção sobre a floresta, são o que nos resta para olhar quando tudo arde em inoperância. As candidaturas recusadas pela falta de dotação orçamental no PDR 2020 - mais uma certidão de óbito à reforma florestal que tem andado encarregue de se abater por várias vezes sem dar sinal de vida - terão agora que reiniciar todo o processo, enquadrando os projectos em novos concursos e novas logísticas. Continuamos a ter especialistas a queimar, mesmo o tempo que seria precioso para que ardêssemos menos.

Delimitar a floresta pela presença das árvores. São as magnas escolhas as que se sentam à mesa nas opções do próximo Orçamento do Estado. Com ou sem atrasos negociais, não há negócio que passe ao lado da inversão do paradigma com que pensamos para a floresta, olhada quase como se fosse um inevitável mal e não como um bem maior. Esta é já uma linha vermelha a que ninguém perdoará atropelo. Agora que se provou que há vida para além do défice, seria incompreensível voltar atrás na recuperação dos rendimentos, na justiça social e melhoria dos serviços públicos. A floresta é mesmo a única linha vermelha que obriga a sair do baralho para dar de novo.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 23 de agosto de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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