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Nem piratas, nem princesas. Libertem as crianças!

Como é possível uma publicação com fins pedagógicos/didáticos, pensada para um público-alvo na faixa etária dos 4 aos 6 anos de idade, ser tão má?
Imagem da Porto Editora

“Haja o bom senso de se pensar primeiro no desenvolvimento dos nossos alunos.” assim termina um artigo assinado por Vasco Teixeira, administrador da Porto Editora. Bom senso seria não editar publicações sexistas e que reproduzem estereótipos de género que são negativos para todas as pessoas a começar pelos alunos e pelas alunas e respetivas comunidades educativas.

Não é exatamente sobre manuais escolares que hoje vou escrever mas sobre uma publicação da Porto Editora exibida num post que gerou grande indignação nas redes sociais. Como é possível uma publicação com fins pedagógicos/didáticos, pensada para um público-alvo na faixa etária dos 4 aos 6 anos de idade, ser tão má?

Um caderno de atividades para crianças dos 4 aos 6 anos de idade não devia ser diferente para meninos nem para meninas. A escolha do nome Rapazes por oposição a Meninas, da cor azul e ilustração de Piratas e bolas para uns e da cor rosa, desenhos de Princesas e bolos para as outras é uma opção ideológica, sexista que contraria qualquer noção de desenvolvimento infantil saudável. Mais, a opção por níveis de dificuldade diferentes, para além de ofensiva e ignorante, é prejudicial para o desenvolvimento das meninas/raparigas a quem a Porto Editora nega o direito a receber os mesmos estímulos ao desenvolvimento que os meninos/rapazes. E é prejudicial para todas as crianças porque lhes impõe gostos e comportamentos que nada têm de natural forçando uma normatividade e um guião de género machista e conservador.

Cabe-nos a nós consumidores não cair na armadilha das editoras e não comprar este tipo de produtos. Mas ao Estado cabe outro papel e em primeiro lugar o papel de pensar regras para quem produz manuais escolares e outras materiais de aprendizagem.

Antes de discutir o melhor veículo para transmitir conteúdos, devíamos parar e pensar nas mensagens que queremos transmitir. A cidadania e a Igualdade de Género são valores que levamos a sério. No trabalho e no emprego, na publicidade e na comunicação não aceitámos o sexismo. A lei proíbe a discriminação entre mulheres e homens. Não terão as crianças o direito à mesma proteção? Até quando vamos deixar que se desvalorizem as meninas e se recuse a ternura a que os meninos têm direito?

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Relações Internacionais. Ativista social. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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