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Mudar é humano

A ideia de uma natureza humana fixa e imutável é muito questionável. As pessoas são formatadas de acordo com a sociedade em que vivem e moldadas pelas mensagens que recebem.

Ao longo da história, quando se debate a organização social e económica, surgem frequentemente argumentos que defendem que o sistema em vigor, é como é, porque os deuses ou livros sagrados assim o determinam ou porque é a natureza humana que o determina. Que não vale a pena tentar organizar a economia e a sociedade de forma diferente.

Em sociedades esclavagistas argumentava-se que a escravatura está de acordo com a natureza humana, que há indivíduos (pessoas) que nascem superiores destinados a uma vida de privilégios e outros inferiores (não pessoas), destinados a trabalhos forçados, para compra e venda no mercado. Em diversas sociedades argumentava-se (e ainda se argumenta) que as mulheres são inferiores, destinadas a trabalhos domésticos e a servir o homem. Nas sociedades actuais argumenta-se que o capitalismo expressa e está de acordo com a natureza humana. O ser humano é ganancioso, egoísta e competitivo. É uma realidade natural e não pode (ou deve) ser alterada.

Este tipo de argumentação sempre foi uma forma de justificar e legitimar o status quo e de incentivar o conformismo. Todas as formas de exploração e dominação foram feitas eternas e naturais. Até as pessoas e as sociedades mudarem. A ideia de uma natureza humana fixa e imutável é muito questionável. As pessoas são formatadas de acordo com a sociedade em que vivem e o seu cérebro é moldado pelas mensagens que recebe. E importa contar com um certo grau de autonomia e responsabilidade individual. O ser humano tem tendências contraditórias e desenvolve-se num ambiente contraditório, muda com o tempo e com o ambiente.

A humanidade vai mudando e muda a realidade. As sociedades podem evoluir, tornar-se mais conscientes, adoptar um novo quadro de valores, desenvolver formas mais justas e sustentáveis de organização, adaptar-se a novas realidades e desafios. Para isso, além da mudança individual, é importante que os modos de vida, as instituições, as relações sociais e económicas, promovam e sejam um reflexo das qualidades humanas (ex. responsabilidade, solidariedade, cooperação, empatia, honestidade) que consideramos as melhores para a vida e futuro da sociedade.

Artigo publicado em jornaleconomico.sapo.pt a 2 de agosto de 2017

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Investigador
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