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O Le Pen de Loures

Quem semeia populismo, xenofobia e racismo, não procura integração, procura segregação, dividir para reinar.

As campanhas populistas de extrema-direita que têm percorrido a Europa ainda não nos tinham batido à porta. Essa satisfação nacional, que tem sido repetidamente pro-palada, está agora em causa. Como diz o ditado, "não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe".

As eleições autárquicas, que têm sido o palco privilegiado de populistas no passado, são agora o palco escolhido para uma campanha extremista, baseada no racismo e na xenofobia. O candidato é André Ventura e a candidatura a do PSD ao município de Loures. Num concelho onde o PSD tem uma clara fragilidade eleitoral e nos últimos quatro anos tem andado a toque do CDS no executivo municipal, o desespero levou ao extremismo.

André Ventura deu uma entrevista onde disse ao que vinha, insinuando uma ameaça: "Temos tido uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas." E, para que não restassem dúvidas, insistiu nos dias seguintes: "Estamos aqui a falar particularmente da etnia cigana. É verdade que em Loures há mais, com uma multiculturalidade grande, mas em Portugal temos uma cultura com dois tipos de coisas preocupantes: uma é haver grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado, outra é acharem que estão acima das regras do Estado de direito."

Não é de estranhar que estas palavras tenham merecido o elogio do líder do PNR, que chamou André Ventura de "um dos seus".

O ataque foi a todas as minorias, em particular aos ciganos. É um ataque gratuito, apenas com a intenção de cavalgar o preconceito. André Ventura diz que não é racista, mas veste-lhe a pele. Também Marine Le Pen dizia que o seu partido não era xenófobo ou islamofóbico, mas seguia religiosamente essa cartilha. Aliás, a tática eleitoral é muito parecida: exagerar o sentimento de insegurança, propor o aumento da repres-são policial e das medidas penais punitivas. A extrema-direita tem repetido o guião pela Europa fora, umas vezes incorporando a retórica do nacionalismo reacionário, outras vezes com geometrias variáveis dos argumentos.

A realidade parece ser um pormenor para a extrema-direita, o que interessa é incentivar o ódio e a inveja social. A realidade em Loures é bem diferente da relatada: a criminalidade tem descido muitíssimo e a integração das minorias valorizada. A medalha de mérito municipal foi atribuída à Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos. Curiosamente, a entrega da medalha foi feita pelo vereador Nuno Miguel Botelho, do PSD.

Quem semeia populismo, xenofobia e racismo, não procura integração, procura segregação, dividir para reinar. Destrói projetos de inclusão e cria feridas nas comunidades que demoram muito a curar.

As declarações de André Ventura mereceram uma grande atenção do país, fruto da denúncia que o Bloco de Esquerda fez. O Fabian Figueiredo fez o apelo aos democratas, aos humanistas, aos que não toleram a instrumentalização do preconceito para alcançar dividendos eleitorais. Chamou a atenção a quem não pode virar as costas a estas atitudes racistas. Como disse Martin Luther King, "o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons."

E quando os bons se começaram a levantar, repudiando o racismo e a xenofobia, logo o CDS saltou do barco que se afundava e retirou o apoio a André Ventura. Só a teimosia do PSD é incompreensível. Seria aceitável que Pedro Passos Coelho, desconhecendo a figura em causa, fosse apresentar a candidatura do PSD a Loures cumprindo a sua função de presidente do partido. O que não é razoável é que mantenha o apoio ao candidato que mancha o nome da democracia e que tem como programa político o preconceito e o racismo. Como é possível ser candidato do PSD?

O desespero político não pode ser a desculpa para perder todos os princípios. É certo que a representatividade do PSD em Loures é diminuta e que o seu currículo é o de muleta da CDU nos últimos quatro anos. É, também, verdade que um líder acossado tem dificuldade em regatear apoios, particularmente para uma disputa interna que se assoma no horizonte. Contudo, há caminhos que depois de percorridos não têm retorno. Passos Coelho está avisado para o que o espera ao assumir ser o único amparo de André Ventura.

Artigo publicado no Diário de Notícias a 20/7/2017.

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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