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A Turquia cada vez mais perto

A Turquia está cada vez mais perto, e a União Europeia é, hoje, cúmplice de Erdogan nos ataques que faz à sua população e aos refugiados.

Em setembro de 2016 escrevi um artigo intitulado “E a Turquia aqui tão longe”. Passavam-se, na altura, 6 meses da assinatura do acordo entre a União Europeia e a Turquia: em troca de 3 mil milhões de euros e a negociação da facilitação dos vistos para cidadãos turcos, a Turquia retinha refugiados e requerentes de asilo e musculava a sua ação militar contra os mesmos (esta última não está escrita, mas acontece na prática).

Hoje, em julho de 2017, a situação é insustentável. Os perigos para os quais o Bloco de Esquerda alertou apenas se provaram reais, os fluxos migratórios mantêm-se altos, apenas em rotas distintas, e a chantagem do regime de Ergodan aumenta a cada dia que passa.

No dia 5 de julho, confrontado com alguns dos factos sobre o regime turco e como é que isso era compatível com um acordo com uma União Europeia que se arroga de democrática e protetora dos direitos humanos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros não disse uma palavra. Respostas técnicas para problemas políticos não chegam, nem respondem aos ataques que Erdogan faz à democracia, liberdade de expressão e direitos humanos.

Olhemos para alguns desses factos: 120 jornalistas presos desde a suposta tentativa de golpe de estado, além do encerramento de cerca de 130 meios de comunicação turcos. Em maio de 2017, 85 funcionários públicos foram detidos por supostas ligações à tentativa de golpe de estado, sendo que outros 40 já tinham sido anteriormente detidos.

Em 2016, os números indicavam já o afastamento de cerca de 15 000 funcionários públicos dos seus serviços. Ataques reportados por várias ONG’s a refugiados e requerentes de asilo que tentavam entrar no país na fronteira da Turquia com a Síria, ataques esses que provocaram mortes. Reportes de fábricas na Turquia que tinham trabalhadores escravizados que eram refugiados e adolescentes, bem como redes de tráfico humano.

Mais recentemente, a prisão do presidente da Amnistia Internacional na Turquia e da sua presidente administrativa, num ataque aberto a uma organização que muito tem alertado para os sucessivos ataques a liberdades e direitos. Também outros 8 presidentes de organizações não governamentais foram detidos.

Se esta lista não é suficientemente aterradora e reveladora do total e absoluto desrespeito do regime de Erdogan por direitos humanos, liberdades e princípios que consideramos essenciais então a única conclusão que se pode tirar é que a União Europeia está, deliberadamente, a ignorar tudo isto apenas para manter um acordo que mais não faz do que reenviar pessoas para território turco, sendo que para os europeus não o consideram seguro.

Até quando é que as instituições europeias e seus líderes políticos vão continuar a ignorar todos estes factos não sabemos, mas que o sentimento de vergonha e repugnância por este acordo é crescente e a sua imoralidade é hoje tão evidente como era em setembro de 2016 ou quando ele foi assinado.

Podem tentar calar ou esconder o que por lá se passa, mas a Turquia está cada vez mais perto, e a União Europeia é, hoje, cúmplice de Erdogan nos ataques que faz à sua população e aos refugiados. Está na hora de acabar com este acordo que a todos envergonha!

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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