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Cuidar dos vivos

"Cuidar dos vivos" é garantir que os erros não se podem repetir.

A dimensão do incêndio que começou em Pedrógão Grande permanece desconhecida. As chamas ainda vão alastrando pela floresta e o rasto de destruição alcançou já os concelhos de Castanheira de Pera, Alvaiázere, Sertã, Pampilhosa da Serra, Penela e Góis. Mas o vazio que sentimos no peito é insuportável. Como foi possível ter lugar esta tragédia? É a pergunta que tantas vezes se vê repetida e que ainda não tem resposta.

Diz a história que, quando confrontado com a destruição causada pelo devastador terramoto que atingiu a cidade de Lisboa em 1755, o marquês de Pombal terá dito que a hora era de "Sepultar os mortos e cuidar dos vivos". Palavras adequadas para momentos difíceis, em que somos confrontados com as nossas limitações, a nossa mortalidade, a incapacidade de desfazer os acontecimentos fatídicos que tiram a vida a tantas pessoas.

No incêndio de Pedrógão Grande foram 64 as pessoas que perderam a vida, várias das quais crianças. Os feridos já se contam em mais de duas centenas, alguns ainda a lutar pela sua vida. São os números avassaladores desta tragédia e que demonstram a gravidade do que aconteceu.

As chamas ainda estão a ser combatidas no momento em que escrevo. Os heróis que há tantos dias enfrentam as chamas em condições muito adversas merecem a nossa solidariedade e louvor. Os bombeiros, GNR, proteção Civil, INEM e as próprias populações superam a sua humanidade na resistência à fadiga de tantas horas, de tantos dias, em que o fogo não os deixa descansar.

"Cuidar dos vivos" é garantir que o incêndio não faz mais vítimas, que o conseguimos finalmente vencer. Essa é a primeira tarefa e a mais urgente. Extinguir este incêndio, mesmo sabendo que nunca conseguiremos de volta aquilo que já nos tirou.

"Cuidar dos vivos" é também o significado da onda de solidariedade que correu o país. Foi emocionante essa união e a forma como a sociedade se organizou para apoiar bombeiros e populações, dar meios às instituições que acolhem quem teve de abandonar a sua casa, acudir aos animais. É certo que será preciso mais para reconstruir as vidas, as habitações e as economias. Aí é o Estado quem deve ter o papel fundamental e a urgência nessa tarefa.

A responsabilidade seguinte é a de garantir que nenhuma pergunta ficará sem resposta. A dimensão desta tragédia assim o exige, as vidas humanas que foram ceifadas não nos deixam descansar. Devemos respostas porque lhes devemos respeito. Ser consequentes. Honrar cada vítima deste incêndio e de tantos incêndios é garantir esse cabal esclarecimento.

O que falhou e não pode falhar no futuro? Com tantos incêndios que se repetem ao longo dos anos, a pergunta ficou gasta porque parece que nunca se aprendeu com os erros do passado. Agora não pode ser assim, impõe-se agir com determinação e lucidez corajosa para que não se repita a tragédia.

Este não é só um problema do tempo ou do clima. As alterações climáticas estão aí com condições climatéricas cada vez mais extremadas, mudanças mais bruscas e mais exigentes. É certo que o futuro nos confrontará cada vez mais com condições adversas. Mas a resposta não pode ser a da desistência perante a adversidade, a aceitação de inevitabilidades que deixarão as populações inseguras e indefesas. A resposta só pode ser de mais exigência na preparação.

As questões complicadas e que nos convocam a todos são as de escolha política: Continuaremos a confiar o ordenamento florestal à liberalização do eucaliptal? É aceitável a existência de manchas contínuas de eucaliptos e pinheiros ao longo de dezenas de quilómetros? Será que os interesses das celuloses continuarão a impor-se ao país e à segurança das populações? Teremos capacidade e vontade para combater a desertificação do interior e o abandono das terras? Estas são as perguntas chave para uma verdadeira política de prevenção e cuja resposta se coloca perante o paradigma fundamental: será que a defesa da propriedade privada deve ser feita até a um limite tal que coloca em causa vidas humanas?

O combate aos incêndios florestais não se faz só na altura dos fogos, é certo. Tem de ser preparado com uma visão integrada para o país e para a nossa floresta. Não podemos andar permanentemente a correr atrás do prejuízo. Nesta matéria, muitas das respostas já foram encontradas, só não foram implementadas porque há interesses económicos que o impedem. Esta tragédia convoca-nos para que a história não se repita.

A última pergunta é a de uma investigação que não está concluída: será que o modelo de proteção civil funciona? É mais uma pergunta que não pode ficar sem resposta no rescaldo deste incêndio. "Cuidar dos vivos" é garantir que os erros não se podem repetir.

Artigo publicado em “Diário de Notícias” a 22 de junho de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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