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Só 47?

Em memória de Alípio de Freitas. O texto que se segue foi escrito no final de 2016 e incluído na coletânea “Palavras de Amigos”, a surpresa que reservámos ao Alípio e desvendada no almoço que comemorou os seus 88 anos, em 18 de Fevereiro.

Em memória de Alípio de Freitas

O título, assumidamente irónico, pode parecer despropositado neste dia. Mas a frase é tua e, mesmo na hora da partida, o que sobressai é o sorriso e a bonomia de quem viveu plenamente.

Nasci no ano em que foste ordenado padre e reconheci-te ainda antes de te conhecer. No “Verão morno” de 1976, após o triste 25 de Novembro e no rescaldo da grande campanha presidencial de Otelo, Zeca Afonso lançou o álbum “Com as Minhas Tamanquinhas”. A letra da última canção da segunda faixa rezava assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ Está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza// Em Maio de mil setenta/ Numa casa clandestina/ Co’a companheira e a filha/ Caiu nas garras da CIA”.

Desse Brasil irmão, estrangulado pela ditadura militar, chegavam ao Portugal de Abril ecos da guerrilha do Araguaia e do massacre da Lapa. Mas um português de Trás-os-Montes, ex-padre e exemplo de resistência às torturas selváticas nas masmorras dos generais, era (mais) uma novidade absoluta descoberta nas canções do Zeca. Participei em campanhas pela libertação de Alípio de Freitas e José Duarte, dirigente comunista e também português de origem. Saíste da prisão em 1979, como apátrida! De facto, não pertencias à “pátria” dos generais fascistas, lacaios da CIA. E assim continuaste em Angola e Moçambique, até ao regresso a Portugal.

Em finais dos anos 80, vizinhos na margem sul do Tejo, os nossos caminhos cruzaram-se a bordo de cacilheiros em conversas soltas e intensas sobre o Brasil pós-ditadura e Portugal sob o cavaquismo, com o verniz prestes a estalar no buzinão da Ponte 25 de Abril.

No 20.º aniversário da UDP exibimos no mercado de Alcântara o documentário histórico “À procura do socialismo”, centrado no PREC – uma peça fabulosa que produziste para a RTP, presa nos arquivos da censura cavaquista. A primeira de várias exibições piratas, em especial no nosso Alentejo.

Nas noitadas em Alvito, na companhia do Mário Tomé e de um saco-cama, ouvimos estórias das Ligas Camponesas e do treino político-militar em Cuba, onde conheceste o “Che”. E o teu desabafo: “estávamos fartos de rezar missas por alma de camponeses mortos a mando de coronéis e latifundiários”, era a hora de virar o jogo. ”Trabalhadores, ontem vos ensinei a rezar, hoje estou aqui para ensiná-los a pegar em armas e lutar”. Estórias de jagunços acordados com uma pistola encostada à cabeça e postos perante a opção: o bilhete pago para S. Paulo, Rio ou Belo Horizonte ou uma bala; e o reencontro emocionado, anos mais tarde, com alguns que te agradeceram a oportunidade para começar uma vida nova. Razões fortes duma cidadania partilhada dos dois lados do Atlântico, continuada nos Fóruns Sociais e na militância no MST – Movimento dos Sem Terra.

Os nossos caminhos voltaram a cruzar-se, naturalmente, no “começar de novo” à esquerda. Quando o pântano político sucedeu ao cavaquismo, recordo as tuas palavras na mesa do comício de Beja que partilhámos com Francisco Louçã e Miguel Portas: “precisamos de um Bloco capaz de partir a loiça toda”…

Passados os testes eleitorais de 1999 (europeias e legislativas), a tua casa de Alvito foi sede do verdadeiro ato fundador do Bloco distrital de Beja, no memorável fim de semana “sabático” para uma dúzia de bloquistas alentejanos: falámos de tudo, convivemos, sonhámos e, entre outros mitos, derrubámos umas quantas garrafas de Vidigueira, Borba, Reguengos e de uma marca branca da Amareleja…

O problema, como alguém fez notar, eram os copos de taberna, pequeninos e gulosos, quase sempre vazios… A coisa passou-se bem, mas logo correu em Lisboa o boato de que, entre as vítimas colaterais da “cimeira de Alvito”, se contavam 47 garrafas de vinho e um número indeterminado de queijos, linguiças, torresmos e outros petiscos. No regresso, quando fiz o relatório sobre tão vis calúnias, tinhas a resposta na ponta da língua: foram só 47???

Durante anos a Feira dos Santos (1 de Novembro) foi pretexto obrigatório para feijoadas, cachupas e muambas na casa de Alvito, local mítico do tal Bloco capaz de “partir a loiça toda” que sempre foi o teu, mesmo quando andaste de candeias às avessas com algumas opções políticas nacionais. E que orgulho saber que encontraste na “pátria alentejana” solo fértil para os teus sonhos solidários que continuam a abarcar a humanidade e a dar voltas ao mundo!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda
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