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Programa Renda Acessível – PRA (aliás Privado com Rendimento Assegurado)
O município de Lisboa lançou o Programa Renda Acessível, visando dar resposta à procura de habitação na cidade e ao aumento de preços que se sentiu nos últimos 2 anos, quer no mercado de venda, quer no mercado de arrendamento. Este é um objectivo meritório e que apenas peca por tardio, considerando que o município de Lisboa é – ainda - o mais importante proprietário fundiário da cidade.
Ficando claro que este não é um programa de habitação social, face ao valor das rendas a praticar, este programa não deixa de apresentar rendas abaixo dos actuais valores do mercado de arrendamento.
O número de habitações a disponibilizar no âmbito do Programa Renda Acessível (PRA) é também considerável: “uma oferta total perto de 9.150 fogos, dos quais cerca de 70%, entre 6.000 a 6.400 fogos serão disponibilizados para arrendamento acessível”. A questão que se coloca agora é porquê apenas 70% dos fogos serão colocados a rendas acessíveis?
A resposta é clara, e resulta do modelo que a maioria PS na Câmara Municipal de Lisboa – com especial envolvimento de Fernando Medina e dos vereadores com os pelouros das finanças e da habitação, ambos indicados nas listas do PS pelo Movimento Cidadãos por Lisboa, historicamente liderado por Helena Roseta – encontrou para financiar a operação: o recurso a parcerias com privados.
Assim, o município de Lisboa disponibiliza os imóveis a reabilitar e os terrenos para construção, ficando o parceiro privado com o encargo de reabilitar ou construir o edificado, bem como de gerir os arrendamentos no Programa Renda Acessível.
Como remuneração do parceiro privado, que actua no quadro de uma concessão de obra pública, o município de Lisboa, em princípio após a conclusão das obras nos imóveis destinados ao Programa Renda Acessível, entrega ao parceiro privado, desde logo, a propriedade sobre os restantes edifícios ou terrenos, que o mesmo poderá transaccionar, onerar ou arrendar pelos valores que considere mais convenientes.
Por outro lado, e com o encargo da manutenção dos edifícios destinados ao PRA, o parceiro privado (ou concessionário) fica com o direito de exploração dos restantes cerca de 70% dos imóveis destinados ao PRA - que sendo propriedade do município não pagarão IMI - recebendo as rendas ao longo de 30 a 50 anos.
Se o negócio aqui em causa já representa uma privatização parcial de solos municipais, o que por si só se traduz numa má prática de gestão do imobiliário da cidade (na qual Fernando Medina e Manuel Salgado têm sido os máximos expoentes), como já tive oportunidade de referir em tempo, representa ainda um perigo para as finanças municipais. É que nas concessões (tal como nas parcerias público privadas) é suposto que haja uma efectiva transferência de risco entre a entidade pública (concedente) e a entidade privada (concessionário), nos termos do artigo 413.º do Código dos Contratos Públicos.
No entanto, os contratos públicos, onde se incluem as Parcerias Público Privadas e os contratos de concessão, estão sujeitos à reposição do reequilíbrio financeiro do contrato (artigo 282.º do Código dos Contratos Públicos). Ora, podendo o privado apresentar-se ao concurso com um “caso de base” que pressuponha o financiamento bancário num intervalo de taxas de juro, a superação do limiar máximo dessas taxas de juro pode determinar a reposição do reequilíbrio financeiro do contrato, fazendo o município arcar com tais custos.
Entretanto, foi já aprovado um concurso de concessão relativo a um conjunto de imóveis sitos na Rua de S. Lázaro, no âmbito do PRA. Nesse respectivo caderno de encargos, é garantido o reequilíbrio financeiro do contrato quando: “por facto não imputável ao Concessionário, por período superior a um ano de exploração não existir uma ocupação média efetiva dos alojamentos destinados a arrendamento acessível em percentagem superior a 90% da totalidade dessas unidades de alojamento e não tenha sido possível, supletivamente, o seu arrendamento diretamente junto do mercado”. Assim se garante a remuneração dos privados e se esvazia a transferência de risco do município de Lisboa para os privados.
A opção por este modelo de negócio foi ditada por alegadamente o município não dispor de capacidade de endividamento para, por si, levar a cabo este programa. Sucede que tal alegação é falsa:
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Em primeiro lugar, porque o município, através de uma entidade do sector empresarial local podia obter esse financiamento, apenas relevando para os limites de endividamento se a empresa não cumprir a regra de equilíbrio de contas (artigo 40.º da Lei n.º 50/2012, de 31 de Agosto, nos termos do artigo 54.º, n.º 1, alínea b) da Lei n.º 73/2013, de 3 de Setembro e do artigo 41.º, n.º 1 da Lei n.º 50/2012, de 31 de Agosto). Acresce que as vantagens apontadas à promoção directa pelo município, designadamente a rendibilidade elevada e a maior facilidade em obtenção de crédito (Proposta da Equipa de Missão do Programa de Renda Acessível, pág. 83).
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Em segundo lugar, algumas das obras em causa podem ser classificadas como operações de reabilitação urbana, caso em que, nos termos do artigo 76.º, n.º 1 do Decreto-Lei n.º 307/2009, de 21 de Outubro, não relevam para os limites de endividamento do município, execute o município esta medida directamente, quer indirectamente através de entidade do sector empresarial local.
A tomar por verdadeiras as vantagens apontadas à promoção directa pelo município, designadamente a rendibilidade elevada e a maior facilidade em obtenção de crédito (Proposta da Equipa de Missão do Programa de Renda Acessível, pág. 83), não se compreende que a solução de promoção directa pelo município ou através de entidade do sector empresarial local tenha sido afastada, resultando num acto lesivo para as finanças municipais e a entrega de elevados proventos a privados.
O município podia, e devia, ter procurado parcerias com o sector público. Afinal, o Programa do XXI Governo Constitucional, contém o desígnio de “Criação de bolsas de «habitação acessível», nomeadamente através da mobilização de verbas – em montante não superior a 10% – do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social para investimento em prédios de rendimento (aquisição e reabilitação de fogos devolutos com vista a arrendamento em regime de «habitação acessível»), que garantam não só uma taxa de retorno em linha com a rentabilidade média daquele fundo (eventualmente combinando as rendas acessíveis com rendas a preços de mercado) (…)” (pág. 137). Muito se estranha, pois, que esta medida não tenha sido ponderada.
Convocado o Programa do XXI Governo Constitucional a esta discussão, verifica-se uma outra grave contradição desta opção do PS no município com o PS no Governo, visto que o Programa de Governo, na sua página 133, refere que “(…) a aposta na reabilitação urbana não se cingirá a estas áreas, antes assumirá uma vocação universal, devendo passar de exceção a regra. Isto é, em vez de construção nova, precisamos sobretudo de renovar o património edificado.”.
Ora, verifica-se do PRA que o mesmo visa essencialmente nova construção, representando as operações de reabilitação uma percentagem ínfima do programa, que aponta para mais de 90% de nova construção. Aliás, mais de metade do programa está concentrado na urbanização do Vale de Santo António. Toda esta realidade é tanto mais incompreensível quando segundo dados estatísticos coligidos pelo próprio município apontam para que, em 2011, Lisboa tinha 243.892 agregados familiares para um total de 322.865 fogos…
A par desta realidade, o município continua a vender o seu património no casco velho da cidade, fortemente fustigado pela especulação imobiliária e pelos fenómenos da turistificação e gentrificação, estabelecendo com o PRA uma estratégia de empurrar a população para novas zonas de construção, acentuando a destruição do equilíbrio e diversidade da cidade.
As razões aqui apontadas demonstram de forma inequívoca que a maioria PS no município de Lisboa vê a cidade enquanto mero modelo de negócio, apostando essencialmente:
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Na privatização dos solos da cidade;
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Numa estratégia de convocação de privados para negócios com rendimento garantido assegurado pelo município;
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Na descaracterização de zonas nobres da cidade, compensando possíveis moradores com menos poder de compra com arrendamentos em novas zonas de construção;
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No abandono da reabilitação urbana como paradigma, regressando ao modelo da nova construção.
Toda esta realidade foi motivo, mais que suficiente, para o voto contra do Bloco de Esquerda relativamente ao PRA. Era possível fazer diferente e melhor. Perante esta realidade grave, importa perceber que o Bloco de Esquerda no município de Lisboa não será “uma roseta na lapela” do PS.
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