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A lição de Vagos

Já foi dito, mas repito: bela a lição que deram os alunos e as alunas da escola de Vagos.

Perante o preconceito, exigiram respeito pela diversidade. Perante a repreensão conservadora, denunciaram e não aceitaram. Perante a tentativa de apontar o dedo a duas colegas, tiveram um extraordinário gesto de solidariedade e um exemplar exercício de cidadania.

Em face destes acontecimentos, o que teria feito uma direção da escola capaz de aprender? Pelo menos duas coisas. Primeiro, assumiria o erro e pediria desculpa às duas raparigas que foram censuradas por terem tido uma manifestação de afeto. Em segundo lugar, teria saudado que os estudantes sentissem a escola como um espaço seu, mobilizando-se pelos direitos humanos e contra a discriminação.

Pior que o silêncio da direção da escola, só mesmo as vozes que vieram tentar desqualificar a posição dos alunos. De entre todas, a mais reincidente: Margarida Cordo, a “terapeuta familiar” (que também se apresenta publicamente como “diretora de uma empresa” e “colaboradora da Diocese de Lisboa”) que já em 2007 defendia publicamente que "a homossexualidade é um transtorno da identidade sexual, uma doença e tem recuperação”. Com ciência e com fé, parece que a Senhora Cordo continua a ajudar as pobres vítimas de instintos homoafetivos a libertarem-se dessa doença perversa. Sobre a escola de Vagos, lá soltou mais algumas pérolas: que os comportamentos devem ser “adequados para que o funcionamento de todos não choque ninguém, não magoe ninguém, não fira ninguém” (o preconceito e a repressão são logicamente formas de garantir que ninguém “sai ferido” por ter de lidar com um mundo onde há gays e lésbicas, que ainda por cima andam aos beijos em público, imaginem que horror!), e que a manifestação dos alunos não merece aprovação porque “foi excessiva” e “foi violenta” (!). Ou seja, a psicóloga que não teve nenhuma palavra sobre a violência que constitui o preconceito e a discriminação, entende que cartazes feitos por adolescentes a dizer “homofobia não” ou “o amor não conhece géneros” são extremamente “violentos” e “duros”.

Que haja, em pleno século XXI, quem pense assim, não é novidade, infelizmente. Mas é grave que pessoas que têm este grau de desrespeito pelo amor dos outros (ao ponto de o patologizarem), que culpam as vítimas da discriminação pelo abuso exercido sobre elas (se se “libertarem” da doença, logo verão que não arranjam problemas...) e cujas práticas violam, entre muitos outros protocolos, um princípio basilar da Constituição, possam continuar a exercer “psicologia clínica” sem que nada aconteça e sejam quem a direção da SIC Notícias escolhe para comentar em horário nobre o que aconteceu em Vagos.

Felizmente, o mundo avança. E os jovens, muito mais inteligentes e muito melhores que a caricatura que tantas vezes se faz deles, mostram-nos isso mesmo. É também - e talvez sobretudo - o que aconteceu em Vagos que deve ser a escola: um espaço onde aprendemos a ser gente. Onde o conhecimento é uma arma contra o preconceito e a domesticação. Onde a cidadania, mais do que uma matéria que se aprende para espetar num teste, se exerce. Vagos é hoje, por isso, uma escola exemplar pela boa imagem que os alunos souberam dar de si enquanto comunidade atuante. Triste que haja adultos que não percebam que isso é o melhor que uma escola pode ter.

Artigo publicado em expresso.sapo.pt a 26 de maio de 2017

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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