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Agentes do défice

Há em Portugal uma enorme quantidade de gente estabelecida à sombra do défice e da sua narrativa que não parece ser capaz de mudar o "chip". São os agentes do défice.

Quando o céu encoberto anuncia os primeiros raios de sol de verão nada indica a matemática formalização do bom tempo. Até porque há quem sempre aprecie a beleza de chover no molhado. Se é a primeira brisa que instala o bom auspício premonitório, ainda assim, não nos permite deixar de folhear o "Mau tempo no canal" de Nemésio como obra de atualidade. Não que as tensões entre as famílias da Esquerda apontem tempos desavindos nas suas ilhas, não que se vislumbre que a geringonça perca peças, não que as eleições autárquicas possam vir a reformular completamente o mapa político e o equilíbrio de forças entre quem agonia na oposição ou cresce no poder. Mas há em Portugal uma enorme quantidade de gente estabelecida à sombra do défice e da sua narrativa que não parece ser capaz de mudar o "chip". São os agentes do défice.

Bastava passear a autodeterminação do nosso comando pela esmagadora maioria dos canais de informação televisivos de segunda-feira para perceber a tristeza incrédula de muitos face à proposta de Bruxelas para a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo. Antes, nunca tiveram outra palavra na boca: défice. É verdadeiramente notável como uma notícia mais do que anunciada ainda consegue revelar toda a imaturidade emocional dos comentadores do regime quando confrontados com o fracasso visível das políticas de austeridade que sempre defenderam como inevitáveis. A contenção de danos faz-se então à medida da atitude oposição-múmia que invadiu o PSD após as eleições: sem terem uma proposta alternativa, tudo o que agora acontece é apenas uma versão diminuída de tudo o que teria acontecido se tudo tivesse sucedido com eles. O crescimento é uma obra do acaso que só não seria produto da sorte pura se tivesse eclodido nas suas mãos. Os agentes do défice, narradores da fatalidade de Passos, arrastam-se em cortejo fúnebre saudando o único conto para crianças que lhes permite salvar a face.

Ao contrário de muitos, os agentes do défice não foram obrigados a emigrar ou convidados a fazê-lo. Continuam a passear-se pelo comentário político com a cartilha do antigamente, uns mais informados, outros com maior insídia. Limitam-se, agora, a tentar recolher os louros do que sempre apregoaram como uma impossibilidade. Incapazes de dar o braço a torcer pela dor, infelizes por não reconhecerem um pai ideológico interno e ativo. Incapazes, por alguma vergonha, de dizerem o que talvez já entendam como possibilidade: a reestruturação e renegociação da dívida pública (que aumentou quase 12 000 milhões de euros num ano) é a única forma de sustentar uma política de crescimento que não envergonhe a sua obsessão com as vírgulas. Suplicamos por ideias novas para os seus carros-vassoura.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 24 de maio de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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