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Nem a Selminho os separa!

De súbito, a vida política do Porto sofreu dois abanões: a zanga de Rui Moreira com o PS e as novas revelações sobre o caso Selminho. Ambos são politicamente devastadores quer para Rui Moreira quer para Manuel Pizarro.

Ao contrário do que desejava Rui Moreira, o caso Selminho saltou dos corredores da Câmara para a rua e ficou exposto aos olhos de todos. A cidade não exige apenas explicações, exige medidas que impeçam a família de Rui Moreira e o próprio de beneficiar de uma elevada indemnização, a pagar pela Câmara, por um terreno na Arrábida que, não podendo ser transacionado, nem sequer lhes podia pertencer quanto mais obter licença de construção como pretendem, sem êxito, há mais de dez anos.

Pizarro, que há uns dias garantia "não existir nenhum caso Selminho", agora faz-se desentendido e atira a bola para "os serviços da Câmara que devem fazer tudo o que tiver ao seu alcance para garantirem a proteção do interesse público da cidade". Mas, sejamos claros, não é aos serviços da Câmara que compete resolver o assunto. É a Rui Moreira e a todos os vereadores que se exige que façam a única coisa decente que lhes resta depois de, quase todos, terem andado quatro anos a assobiar para o lado: declarar nulos os atos e as decisões tomadas à revelia do Executivo, durante o atual mandato, sobre a Selminho.

Dá nas vistas o cuidado de Pizarro na abordagem do caso Selminho. Protege Moreira e protege-se a si próprio do silêncio e cobertura que deu a uma sucessão de decisões nada transparentes. Mas, sobretudo protege a relação futura entre eles: Pizarro não quer que a Selminho se intrometa entre ele e Moreira, não quer que este caso possa prejudicar um novo acordo entre os dois. Pizarro conta que, sem maioria absoluta, Moreira está obrigado a entender-se com ele e dar-lhe a vice-presidência da Câmara que agora lhe recusou. Para que este plano resulte, Pizarro precisa do máximo cuidado no que diz sobre Moreira. É isso que faz.

Quando interrogado sobre um novo acordo com Rui Moreira, no próximo mandato, Pizarro refugia-se numa resposta equívoca: "os atos dos últimos dias têm consequências para o futuro". Três vezes lhe perguntaram, três vezes a mesma resposta. Não é difícil perceber que essa consequência não será mais do que a garantia da vice-presidência para ele. Mesmo que não seja isso que os socialistas querem, é isso que Pizarro prepara.

De facto, a rutura de Moreira foi mais com o PS do que com Pizarro. Rui Moreira julgou que o PS suportava o mesmo que Pizarro e acabaria por ignorar o enxovalho da sua entrevista à SIC. Calculou mal. A Direção do PS impôs a Pizarro aquilo que ele nunca quis: a sua própria candidatura.

Este mandato é dececionante para muitos eleitores que em 2013 votaram Moreira. O presidente tem mais contas a prestar e alguns casos a esclarecer do que obra para mostrar. Rui Moreira sabe disso e reage à sua maneira: inventa uma guerra com Lisboa, mostra quem manda nas listas, retoca a sua abalada independência - comprometida nas arrastadas negociações com o PS e o CDS - e relança o seu moribundo movimento, hoje reduzido a uns poucos seguidores. Pelo meio, Moreira ameaça e ataca a Comunicação Social e os jornalistas que "ousam" expor factos e verdades, revelando as inúmeras fragilidades do seu mandato.

Rui Moreira deu um passo maior que a perna. O resultado não podia ser pior: ficou mais fragilizado e a tão desejada maioria absoluta é, agora, um resultado muito improvável. Sem ela, resta-lhe Pizarro. E este dá sinais que não lhe faltará. Entre Pizarro e Moreira a divergência não está no que querem para a cidade mas, sim, no que querem para as suas carreiras.

Depois das eleições, Pizarro e Moreira preparam-se para novo casamento. Querem continuar a política que ambos não se cansam de elogiar. Compreendo bem como vai ser difícil aos socialistas do Porto apadrinhar com o seu voto este segundo casamento que leva o CDS no dote.

Pela minha parte, estou empenhado numa alternativa com a Esquerda, que responda aos problemas da cidade e trave as maiorias absolutas a quem joga com o Porto.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 23 de maio de 2017

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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