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Cronologia

Para além dos acontecimentos no dia 27 de maio de 1977 e dos seus antecedentes e consequências, optámos por ampliar um pouco a cronologia para oferecer ao leitor um enquadramento geral dos acontecimentos na história de Angola.
Agostinho Neto e Nito Alves
Agostinho Neto e Nito Alves

25 de abril de 1974 – A Revolução de 25 de abril de 1974 encontra os movimentos de libertação de Angola numa situação difícil do ponto de vista militar. A UNITA, no centro-sul, tinha chegado a um modus vivendi com o exército português, o MPLA estava fragilizado e divido, e a FNLA contida a norte.

13 de maio – Só nessa data ocorre a libertação dos presos políticos do campo de concentração de São Nicolau, no sul de Angola.

Maio – O general Silvino Silvério Marques, que tinha servido fielmente o colonialismo como governador-geral de Angola, volta a ocupar o mesmo cargo. Durante o seu segundo governo, até julho de 1974, a situação em Luanda deteriora-se de forma muito grave, com repetidos e insistentes ataques feitos contra os bairros populares da cidade (musseques) por parte de grupos de colonos extremistas, do que resultaram numerosos mortos e feridos.

Junho de 1974 – Militares angolanos do Exército português manifestam-se diante do Comando-Chefe das Forças Armadas portuguesas pedindo para fazerem patrulhas na cidade de Luanda, devido à tensão provocada pelas ações violentas de colonos, apoiados por alguns militares portugueses. Forma-se o Comando Operacional de Luanda, que tinha a seu cargo o Centro de Instrução Revolucionária, fundado por José Van Dunem para defender a população.

Multiplicam-se as Comissões Populares de Bairro, os comités de ação, associações de estudantes, comissões de trabalhadores e sindicatos, com uma forte influência do MPLA, cuja direção não estava presente nem fazia chegar orientação a milhares de pessoas que se identificavam com o Movimento e não esperaram para se organizar.

Julho de 1974 – Silvério Marques demite-se e o capitão de fragata António Rosa Coutinho é chamado a substituí-lo, na qualidade de Presidente da Junta Governativa de Angola. Confirmado membro da Junta de Salvação Nacional após os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974, passa a ter a função de Alto-Comissário em Angola a partir de outubro, permanecendo no território até à assinatura dos Acordos de Alvor (Janeiro de 1975).

Agosto de 1974 – Realiza-se em Lusaka o primeiro congresso do MPLA, num quadro de enorme crise e divisão do movimento: a direção de Agostinho Neto muito contestada pela chamada Revolta do Leste, de Daniel Chipenda, e pela Revolta Ativa, corrente marcada por importantes intelectuais, como Gentil Viana, Mário de Andrade, Adolfo Maria. Joaquim Pinto de Andrade, que atuou como mediador no congresso, acabaria posteriormente por se integrar também na Revolta Ativa. Um jovem militante vindo da Primeira Região Militar, Nito Alves, tem uma intervenção marcante ao lado de Agostinho Neto e contrário às duas outras tendências, fortalecendo a direção. A Primeira Região lutara contra o Exército português durante 13 anos praticamente isolada. O congresso, porém, não chega a terminar, tendo a ala de Agostinho Neto decidido abandoná-lo, seguida pela Revolta Ativa. Chipenda, que tentou proclamar-se novo presidente do MPLA, acabou por se integrar na FNLA. Neto ficou muito grato a Nito Alves pelo apoio e promoveu-o nas estruturas partidárias.

12 a 20 de setembro de 1974 – Reúne-se em Lundoje, na província do Moxico, Angola, a Conferência Inter-Regional de Militantes do MPLA com a participação apenas da ala de Agostinho Neto, com a presença de cerca de 250 militantes. A conferência acaba por ser o verdadeiro congresso do MPLA, elegendo um Bureau Político de dez nomes, e um Comité Central de 25 (incluídos os dez do Bureau). Agostinho Neto permanece presidente e Lúcio Lara passa a ser secretário do Bureau Político. Nito Alves é eleito para o Comité Central.

8 de novembro de 1974 – a primeira delegação do MPLA entra em Luanda, comandada por Lúcio Lara, e é recebida por cerca de 50 mil pessoas. Lúcio Lara comenta: “Foi uma loucura!”

Dezembro de 1974 – Um pequeno grupo de militantes da Revolta Ativa instala-se em Luanda e começa a negociar a reintegração no MPLA.

15 de janeiro de 1975 – O governo português e os três movimentos de libertação de Angola, o MPLA, a FNLA e a UNITA, assinam os Acordos de Alvor, estabelecendo um governo de transição para a independência de Angola, com representação dos três movimentos. A data da independência é marcada para o dia 11 de novembro do mesmo ano.

31 de Janeiro – Toma posse o Governo de Transição de Angola previsto pelos Acordos de Alvor.

21 de Março – Começam os confrontos entre MPLA e FNLA em Luanda e no norte de Angola.

4 de fevereiro de 1975 – Chegada de Agostinho Neto a Luanda, diante de uma multidão de cem mil pessoas. Impressionado com a organização que encontra, o presidente confidencia ao seu médico e antigo dirigente do MPLA: “Eduardo [Macedo dos Santos], estamos perante uma força estruturada e considerável. Temos de a conhecer por dentro e de a desmantelar.”

9 a 20 de julho – Forças do MPLA conseguem expulsar de Luanda a FNLA e a UNITA, passando a controlar a capital de Angola.

22 de agosto – Suspensão dos Acordos de Alvor por decreto assinado pelo presidente Costa Gomes, constatando a paralisia do Colégio Presidencial e do Governo de Transição, e também da Comissão Nacional de Defesa. O Alto-Comissário português passa a coordenar a ação dos ministérios.

17 de setembro – Tropas sul-africanas invadem Angola a partir do Sul do país e, junto com a Unita, dirigem-se a Luanda. Tropas do Zaire invadem pelo norte, dando apoio à FNLA. Os Estados Unidos apoiam secretamente as duas iniciativas.

4 de outubro – Chega a Luanda o primeiro de três navios que transportaram um contingente de 480 especialistas militares cubanos, com a missão de, num prazo de seis meses, preparar quatro centros de treino e organizar 16 batalhões de infantaria das tropas angolanas.

5 de novembro – Diante da iminente ameaça de a FNLA e a Unita, apoiadas pelo Zaire e a África do Sul, retomarem Luanda, Cuba desencadeia a Operação Carlota: tropas cubanas são enviadas de emergência, numa ponte aérea para ajudar o MPLA a manter Luanda e lá proclamar a independência de Angola na data prevista de 11 de Novembro de 1975. Essas tropas são decisivas para barrar o avanço das duas colunas às portas da capital.

11 de novembro de 1975 – O MPLA proclama em Luanda a independência da República Popular de Angola, presidida por Agostinho Neto. Em Nova Lisboa (atual Huambo), a FNLA e a UNITA também proclamam a República Democrática de Angola, que a comunidade internacional nunca virá a reconhecer. No mesmo dia, as tropas portuguesas, que “fecharam os olhos” ao desembarque dos cubanos e das armas soviéticas, abandonam o país.

O Brasil, presidido pelo general Ernesto Geisel, é o primeiro país a reconhecer o novo governo.

Janeiro de 1976 – A África do Sul opta por uma rápida retirada de Angola, depois de ter lutado pela primeira vez numa guerra africana, não conseguindo alcançar nenhum dos seus objetivos. As últimas tropas saem em 27 de março de 1976.

22 de fevereiro – Portugal reconhece o governo de Angola, depois de mais de 80 países o terem feito.

Antecedentes do 27 de maio

Fevereiro de 1976 – É apresentada a Lei do Poder Popular, elaborada por Nito Alves, então

Ministro da Administração Interna (cujas competências eram os assuntos de administração do território, não tinha a supervisão das polícias e segurança como acontece em Portugal). Com a intenção de enquadrar as organizações de base, prevê que para cada unidade da administração do Estado, seja constituído um órgão popular correspondente, mas subordinado, para controlar as atividades do Estado: as Comissões Comunais (nas respetivas Comunas), as Comissões Municipais (nos respetivos Concelhos), as Comissões Provinciais (nas respetivas Províncias) e a Assembleia do Povo. Através desses organismos, os habitantes mobilizados e organizados garantiriam “a defesa, consolidação e desenvolvimento das conquistas revolucionárias das massas populares, em especial dos operários e camponeses.” Nito Alves também tinha grande influência no DOM (Departamento de Organização de Massas), onde teve um papel importante a ex-militante do Partido Comunista Português (PCP) Sita Valles, que chegara a Angola, vinda de Portugal, em julho de 1975.

24 de fevereiro a 5 de março de 1976 – Realiza-se em Moscovo o XXV Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Nito Alves, ministro da Administração Interna do governo de Luanda e José Van Dunem, Comissário Político Nacional das FAPLA, vão a Moscovo representar o MPLA. No seu discurso, Nito Alves sublinha o papel decisivo da ajuda soviética para a vitória sobre o colonialismo português e afirma que a tarefa premente é transformar o MPLA em partido político, “armado com a teoria científica-revolucionária”. Nito regressa da viagem falando sobre o “milagre da URSS”.

Março de 1976 – Nito Alves discursa na Câmara Municipal de Luanda e, transmitindo orientações do Bureau Político do MPLA, apela à delação de todos os membros da Revolta Ativa e da Organização Comunista de Angola (OCA). “Esta operação, é uma operação urgente, para defender esta Revolução, para se consolidar posições políticas, para se avançar, porque eles são a base da reação.”

. Por decisão do Bureau Político do MPLA, José Van Dunem deixa de ser o Comissário Político nacional das FAPLA para ocupar o posto de Comissário Político da Frente Leste, longe de Luanda.

. Lúcio Lara, Secretário do Bureau Político, ordena a expulsão do MPLA dos militantes que tenham pertencido a outras organizações políticas. A decisão atinge Sita Valles, ex-militante do PCP. Para o seu irmão, Edgar Valles, “a verdadeira razão de a terem expulso foi o protagonismo dos seus grupos de ação, que tinham adquirido grande projeção. (…) Começaram a surgir clivagens. A deliberação [de Lara] não tinha pés nem cabeça. Montes de gente tinha sido do PCP. A única pessoa visada, com mais duas ou três, foi a minha irmã”

22 a 30 de julho – Visita oficial de Agostinho Neto a Cuba.

Outubro – Assinatura do Tratado de Amizade entre Angola e URSS.

23 a 29 de outubro de 1976 – A 3ª Reunião Plenária do Comité Central do MPLA marca o início do conflito aberto entre o grupo reunido em torno de Nito Alves e a maioria da direção política do MPLA. O documento oficial aprovado apresenta a resolução de edificar um Estado de Democracia Popular e a construção de bases materiais e técnicas para o socialismo. Mas não faz qualquer menção direta ao acontecimento mais importante da reunião: a acusação formal contra Nito Alves e José Van Dunem de “fraccionismo”. Por proposta de Van Dunem, é formada uma comissão de inquérito, sob a presidência de José Eduardo dos Santos, para investigar a existência de fraccionismo no MPLA.

O comité decide ainda extinguir o Ministério da Administração Interna, afastando assim Nito Alves do governo. Resolve igualmente fechar o jornal Diário de Luanda e o programa radiofónico Kudibanguela, que seguiam a orientação nitista.

Outro documento aprovado na reunião, “Resolução sobre a unidade no seio do MPLA”, chama os militantes a agirem contra as “correntes desagregadoras”: “Tendo considerado a ação perniciosa de sectores ligados à reação interna e externa, e grupos esquerdistas que tentam, alimentando correntes desagregadoras e utilizando o nome de Dirigentes, provocar a confusão ideológica, perturbar a coesão das estruturas do Movimento e dividir os militantes, decide […] condenar energicamente esses atos; [...] exortar os Militantes do MPLA para que, sob a direção incontestável do camarada Presidente, combatam o divisionismo, o sectarismo e o oportunismo […] sancionar com firmeza todos os membros do MPLA que contribuam para a divulgação de noticias tendenciosas que atentem contra a unidade no seio do MPLA”.

15 de maio de 1977 – Sob o título “O racismo das lagartixas”, editorial do Jornal de Angola, não assinado mas atribuído ao seu diretor, Costa Andrade (Ndunduma), afirma: “Uma das características evidentes do pequeno grupo de lagartixas que jogam no fraccionismo é o seu inegável racismo (…) A República popular de Angola e as autoridades revolucionárias têm sido muito tolerantes com o pequeno grupo que se sente forte por essa tolerância.”

20 e 21 de maio de 1977 – Reunião do Comité Central do MPLA decide afastar do seu seio Nito Alves e José Van Dunem. As conclusões do inquérito sobre a existência de fraccionismo no seio do MPLA terão sido apresentadas nessa reunião. Sobre estas, que nunca foram tornadas públicas, há duas versões. A de que o inquérito concluiu pela “existência, de facto, do fraccionismo” que “apresentando-se com uma capa aparentemente revolucionária visa[va] realmente dividir o MPLA”, como consta da resolução do Comité Central. Sobreviventes do 27 de maio, porém, citados por Dalila e Álvaro Mateus no livro “Purga em Angola – o 27de Maio de 1977” sustentam que o relatório final da comissão de inquérito era inconclusivo, reconhecendo que os acusados tinham demonstrado não existir qualquer desvio político-organizativo. Durante a reunião, Nito Alves terá contra-atacado e acusado, entre outros, Iko Carreira, ministro da Defesa, pela situação caótica das Forças Armadas e por desviar fundos destinados ao reequipamento militar para contas na Suíça.

21 de maio – Logo a seguir ao encerramento da reunião, Agostinho Neto preside uma assembleia de militantes na Cidadela Desportiva, em Luanda, onde anuncia a decisão do Comité Central e defende os dirigentes atacados por Nito Alves, particularmente Lúcio Lara, e conclama a uma verdadeira “caçada” aos nitistas: “Peço aos camaradas, ativistas do Movimento, membros dos Comités e Grupos de Ação que, de acordo com as decisões tomadas, façam um combate verdadeiro e sério contra todos os fraccionistas que encontrem pelo caminho.” Alguns protestos são reprimidos ainda dentro do estádio: “Pessoas que se manifestaram no recinto, que puseram a mão no ar, porque também queriam falar, fazer perguntas sobre a decisão” são presas no local, de acordo com o testemunho de José Reis, um dos sobreviventes do 27 de maio.

22 de maio – O Jornal de Angola informa a decisão de expulsar do CC do MPLA Nito Alves e José Van Dunem com uma manchete a toda a largura da primeira página: “Liquidar o fraccionismo!” O editorial dessa edição afirma: “Saberemos dizer e demonstrar que o fraccionismo não passará, vindo que seja de qualquer horizonte.”

23 de maio – Um plenário da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada pede a reintegração de Nito Alves e José Van Dunem no Comité Central. A 9ª Brigada era constituída por 600 homens, incluindo comandos treinados na URSS e ficou célebre pela participação na batalha de Quifandongo, que derrotou a ofensiva da FNLA e dos zairenses em 1975. Outras manifestações de apoio das bases começam a surgir, nomeadamente dos bairros.

25 de maio – O Jornal de Angola afirma em manchete que “de Cabinda ao Cunene” o povo está com a revolução, querendo dizer com isso que condena “as manobras fraccionistas que visavam interesses inconfessáveis”. Os supostos “fraccionistas” continuam a ser chamados de “lagartixas”.

26 de maio – O Comité Central reúne-se novamente para discutir o “fraccionismo”. Como resultado do encontro, é publicada uma longa declaração do Bureau Político lida à noite na rádio por Lúcio Lara. Os “nitistas” são apresentados como “grupelhos de ambiciosos e oportunistas, procurando contestar, sob pretextos diversos, a orientação dos organismos dirigentes, falsificar o conteúdo da linha política do MPLA e lutar pela hegemonia e pelo controlo de toda a organização.”

O dia 27 de maio

Madrugada

Partidários de Nito Alves prendem, ou tentam prender durante a noite alguns elementos importantes ligados a Agostinho Neto e Lúcio Lara. Há pelo menos um testemunho do ataque ao apartamento de um membro da DISA particularmente odiado, Carlos Jorge, mas é verosímil que tenham ocorrido mais operações como esta.

4 horas – O destacamento feminino da 9ª Brigada, liderado pela Comandante Elvira da Conceição (Virinha) e pela Comissária política Fernanda Delfino (Nandy), que estava grávida, ataca a cadeia de São Paulo usando um blindado soviético BRDM2. Há um duro combate que se prolonga por horas e no qual há baixas dos dois lados, até que as tropas atacantes saem vitoriosas. Como consequência do assalto, são libertados os presos “nitistas”, entre eles Pedro Santos, do Conselho da Revolução e Comissário Político, e Galiano da Silva, do Comissariado Político das FAPLA. Porém, há presos ligados à Organização Comunista de Angola (OCA) que, desconfiados, recusam-se a sair. Um dos mortos no ataque é Hélder Neto, responsável pela cadeia e pelo Departamento de Informação e Análise da DISA, uma morte que levanta controvérsias. A direção do MPLA sustenta que ele foi morto pelos “assassinos nitistas”; mas outra versão afirma que se suicidou para não ser capturado com vida.

Manhã

6 horas – A Rádio Nacional é tomada, com o apoio de militares da 9ª brigada, e volta a transmitir o programa radiofónico Kudibanguela, alternando músicas com pronunciamentos. O locutor informa que a emissora foi tomada e que os “camaradas revolucionários, injustamente acusados de traição e de fraccionismo, foram libertados por faplas e pelo povo”, e que “um novo processo revolucionário marxista-leninista se iniciou, que ministros corruptos foram presos, e que o conluio dos sociais-democratas e maoístas chegou ao fim”.

Agostinho Neto, do palácio presidencial, telefona para Fidel Castro pedindo a intervenção das tropas cubanas. A resposta não foi dada imediatamente, tendo Fidel demorado horas a ordenar às suas tropas que intervenham ao lado de Neto. Numa entrevista recente, o então embaixador de Portugal em Angola José Fernandes Fafe, atribui a demora à necessidade que Fidel teve de falar com Moscovo, até porque “corria que a embaixada soviética estava metida e era pró-Nito Alves.”

9h36 – O locutor da Rádio Nacional convoca uma manifestação para a frente do Palácio da Presidência. Mais tarde, a convocatória é mudada para diante da Rádio Nacional, provavelmente porque blindados cubanos do batalhão presidencial teriam bloqueado os acessos ao palácio. O locutor justifica assim a mudança: “Camaradas, evitemos as respostas dos agentes frustrados da DISA, evitemos os confrontos com os agentes da reação e da burguesia reacionária. A grande manifestação tem lugar à frente da Rádio Nacional de Angola”.

O locutor anuncia também que “a partir de agora, os pides camuflados e ilegítimos defensores da linha do MPLA já não terão mais voz”.

11h30 – Chegam à Rádio Nacional os blindados cubanos, que receberam ordens de Havana para esmagar a revolta e ficar ao lado de Agostinho Neto. No comando vêm o coronel cubano Rafael Moracén Limonta, e os angolanos Henrique Santos (Onambwé) e Delfim Castro, ambos membros da DISA (polícia política). Ao chegarem à praça em frente à rádio, disparam sobre a população com metralhadoras pesadas. É Moracén Limonta que entra no estúdio, e a antena emite os sons da retomada das instalações, da discussão do militar cubano com o locutor, vozes, tiros, confusão. Depois, em castelhano: “Al pueblo de Angola y a su máximo líder, presidente Neto, que nos encontramos ahora en la emisora del radio, combatiendo aquí, manteniendo esta posición. Que la emisora va a ser puesta en manos de los revolucionarios, con Agostinho Neto. Que se encuentra aquí pueblo confundido”. É o próprio Moracén Limonta que faz o anúncio.

Um telegrama enviado pela embaixada portuguesa em Luanda salienta que o assalto à Rádio Nacional ocupada pelos nitistas foi extremamente violento: “A grande massa de povo ali concentrada foi dispersa por coluna de tanques pesados causando mortos e feridos cujo número não foi divulgado”.

Tarde:

14 horas – Reconhecendo que os blindados BRDM não têm qualquer hipótese de enfrentar os tanques cubanos, a 9ª Brigada rende-se.

15 horas – O presidente Agostinho Neto vai à televisão e afirma que membros da direção política e das forças armadas tentaram pela força das armas manifestar o seu descontentamento pelas sanções disciplinares que lhes tinham sido aplicadas pelo Comité Central do MPLA. O tom é moderado: “eles foram expulsos e, na minha opinião, foram muito bem expulsos do Comité Central. E terão de fazer um grande trabalho de reabilitação para poderem regressar às fileiras do Movimento como dirigentes”, afirma.

.A Rádio Nacional anuncia o toque de recolher entre as 17 horas e as 6 horas da manhã do dia seguinte.

17 horas – Novo telegrama da embaixada portuguesa descreve: “A calma que reina em Luanda após a tomada da Rádio Nacional não significa paz e deixa prever novos incidentes pois receia-se que, após a derrota desta manhã as massas populares armadas tenham refluído para os musseques. No momento da redação deste telegrama (17:00) ouviu-se intenso tiroteio na zona do Bairro Operário. Receia-se escalada da violência pela noite”.

18 horas – Na sua segunda mensagem televisiva, Agostinho Neto informa que os nitistas detiveram alguns altos dirigentes civis e militares. E afirma: “Foram levados para lugares que nós ainda não conhecemos bem. Eles serão encontrados. Os seus corpos serão encontrados. Os seus corpos serão encontrados se estiverem mortos, eles serão encontrados se estiverem vivos.” Note-se que Neto primeiro diz: “os seus corpos serão encontrados” para logo se corrigir, o que segundo alguns denotaria que Neto já sabia das mortes. [a transcrição do discurso que usámos é a do telegrama da embaixada de Portugal em Angola]. O tom tranquilo da primeira intervenção desapareceu na segunda: Neto afirma que “não haverá para aqueles que se introduziram numa luta contra o MPLA qualquer espécie de contemplação, qualquer espécie de perdão. [...] Não há mais tolerância. Nós vamos proceder de uma maneira firme e dura”.

Depois do 27 de maio

28 de maio – Os tanques cubanos arrasam o bairro de Sambizanga, esmagando mais de cem casas, segundo o depoimento recolhido mais tarde pela jornalista Lara Pawson. Depois, começa a caça aos jogadores do clube de futebol local, muitos deles ligados a Nito Alves e aos ativistas do bairro.

Depoimento de uma moradora, publicado no jornal Folha 8: “Foi por essa altura que a tenebrosa DISA começou a entrar para o interior das casas, para ‘apanhar’ jovens intelectuais, artistas, desportistas e homens de pequenos negócios [...] Não davam explicações nenhumas aos pais dos jovens que, uma vez aprisionados, eram conduzidos por cerca de 30 a 40 militares, escoltados por blindados. Eram amarrados e espancados, o que originou a morte de muitos, ainda a caminho do local das execuções.”

. Agostinho Neto aparece de novo na televisão e anuncia que os responsáveis políticos e militares desaparecidos tinham sido mortos. Os cadáveres foram encontrados numa ambulância incendiada e estavam parcialmente carbonizados. “Hoje, cumpre-me o doloroso dever de comunicar ao país e ao povo angolano que os camaradas Dangereux, comandante Paulo da Silva Mugongo, membro do Comité Central do MPLA, membro do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução; o comandante Eugénio Veríssimo da Costa (Nzaji), membro do Comité Central do MPLA, do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução; o major Saidy Mingas, membro do Comité Central, ministro das Finanças da República Popular de Angola e membro do Conselho da Revolução; o comandante Eurico Manuel Correia Gonçalves, membro do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução; Hélder Ferreira Neto, membro da DISA, foram assassinados ontem. Os fraccionistas não hesitaram em matar os nossos camaradas, em matar os nossos compatriotas”. Em relação aos líderes da sublevação, Neto usa um tom agressivo e ameaçador: “Alguns daqueles que participaram neste crime já estão presos. Dentro de pouco tempo, nós diremos qual será o destino que será reservado a esses indivíduos. Certamente, não vamos perder muito tempo com julgamentos. Nós vamos ditar uma sentença. Não vamos utilizar o processo habitual, que não seria justo, quando de uma maneira tão evidentemente fascista elementos se comportam, aqui, como defensores da Revolução. Não pode ser. Seremos o mais breves possível, para podermos resolver esses problemas e, vamos tomar decisões segundo a lei revolucionária.”

29 de maio – A Rádio Nacional começa a emitir spots, repetidos com frequência, onde se diz: “Mataram os nossos camaradas, não há contemplações, agarrem-nos e amarrem-nos já!”.

No Jornal de Angola, Neto insiste: “Quero garantir que os criminosos não serão perdoados”.

31 de maio – Agostinho Neto volta à televisão e informa que a sublevação revela um movimento mais vasto do que se imaginaria envolvendo “muitas pessoas colocadas em altos postos do MPLA e das FAPLA”. Entre as figuras envolvidas encontra-se o comissário político das FAPLA, Bakalov e o chefe do Estado-Maior, “Monstro Imortal” (Jacob João Caetano).

Segundo um telegrama da embaixada portuguesa em Luanda, “O presidente afirmou que só na cidade de Luanda há centenas de presos e anunciou novas prisões para os próximos dias.” De acordo com a embaixada, Agostinho Neto procurou negar a “participação cubana na repressão” e disse que os “camaradas soviéticos” estão fora da contenda. Mas afirmou: “É claro que há estrangeiros que estão implicados neste processo. Não os vou mencionar hoje. Vou falar deles mais tarde. Há estrangeiros que andaram a incitar. Andaram a ver se a desestabilização do nosso processo revolucionário se pode fazer o mais depressa possível, que andaram a provocar uma certa situação de insegurança psicológica no nosso povo, principalmente em Luanda onde estão as embaixadas”, diz Agostinho Neto.

São particularmente atingidas pela repressão as organizações de massas do MPLA (as mulheres, a juventude e os sindicatos), as Forças Armadas (especialmente a 9ª Brigada), a DISA, a Polícia Militar e a Polícia de segurança Pública, a administração pública, os ministérios. E, também, os estudantes e intelectuais: na Huíla, o principal dirigente político manda prender todos os que tinham concluído a 5ª classe do ensino oficial, considerando-os “inimigos de classe”.

O Bureau Político do MPLA afirma que todos os órgãos do Poder Popular, incluindo as Comissões de Bairro, estavam infiltrados pelos “fraccionistas”.

O Jornal de Angola, a rádio e a televisão instilam o ódio e a violência. O Jornal de Angola publica editoriais intitulados: “Não pode haver tolerância com os fraccionistas”, “Encontrá-los e prendê-los”, “Vingar os heróis, Fuzilar os fraccionistas”. Anuncia, ainda, que os presos começaram a “confessar” a sua ligação ao estrangeiro e o seu racismo.

Junho – Nos primeiros dias do mês são fuziladas centenas de pessoas acusadas de “fraccionismo” nas províncias. A repressão atinge níveis inimagináveis no Moxico, Kuanza do Sul, Malanje, Cabinda, Bié, Moçâmedes, Huambo, Benguela.

2 de junho – Um telegrama “urgente” da embaixada de Portugal diz ter sido contactada por “familiares e colegas” de alguns cidadãos portugueses que foram presos na sequência dos acontecimentos de 27 de maio. Na mesma comunicação, a embaixada refere que Agostinho Neto, na receção a uma delegação da FRELIMO de visita a Luanda, disse que há “implicações de extremistas portugueses no golpe de 27 de maio”: “Os radicais são apoiados por extremistas de Portugal. Têm relações muito íntimas com Portugal. São indivíduos que funcionaram sempre dentro das ideias de um esquema europeu e extremista em termos de organização. A confrontação aqui é que nós defendemos a unidade nacional. Eles não”, afirmou o presidente angolano.

6 de junho – Comunicado do Comissariado Político das FAPLA afirma que “a asquerosa Sita Valles em Portugal gabava-se de ser militante do Partido Comunista Português e até convidava os militantes do MPLA a militarem no PCP. Aparece em Luanda e liga-se ao grupo fraccionista de Nito Alves”.

19 de junho – O Jornal de Angola anuncia que foram detidos “os criminosos Zé Van-Dúnem e Sita Vales”. Segundo comunicado do Ministério da Defesa, “as FAPLA, com a colaboração popular, prenderam José Jacinto da Silva Vieira Dias Van-Dúnem (José Van-Dúnem) e Sita Valles.(...) “População cumprindo as palavras de ordem de vigilância, denunciou o esconderijo dos fraccionistas”, afirma o jornal.

22 de junho – A DISA em comunicado conclui que os acontecimentos de 27 de maio foram “uma tentativa de golpe de Estado” que envolveu pelo menos 10 portugueses, a maior parte jovens universitários e que “vão ser definitivamente expulsos do território nacional”.

7 de julho – Ministério da Defesa comunica a prisão de Nito Alves, na região de Piri.

8 de julho – Numa mensagem “confidencial” emitida às 14:00, o embaixador de Portugal em Luanda diz que “segundo informações de boa fonte” José Van-Dunem e Sita Valles, “principais dirigentes da intentona” foram fuzilados.

12 de julho – O Bureau Político do MPLA emite um longo comunicado sobre o 27 de maio. Nele, Sita Valles é apresentada com uma das principais articuladoras dos “fraccionistas”. “Sita Valles passou assim a controlar todo um conjunto de elementos, muitos dos quais se diziam ligados ao Partido Comunista Português, o que a seu tempo o PCP veio a desmentir”, afirma a declaração.

Setembro – O PCP publica, como pequeno livro, esse comunicado sem qualquer comentário, apesar das acusações implícitas de envolvimento do próprio partido no 27 de maio. No mesmo mês, Henrique Santos (Onambwé) chefia a delegação do MPLA presente na Festa do Avante.

19 de outubro – O embaixador de Portugal, João Sá Coutinho, num telegrama confidencial escreve que “subsistem tensões nos musseques de Luanda” e que de acordo com comentários populares, as condições de vida, “após a vitória sobre os fraccionistas melhoraram só na cidade do asfalto”, onde os quadros dirigentes habitam. “As carências e as dificuldades de toda a ordem permanecem nas zonas suburbanas” refere, acrescentando que as críticas que se faziam antes do 27 de maio voltaram a surgir em Luanda, entre a população mais carenciada. “A manutenção do recolher obrigatório é uma circunstância que faz com que as pessoas se reúnam frequentemente em casa umas das outras (especialmente aos fins-de-semana) permanecendo além das cinco da manhã (hora em que termia o recolher obrigatório) em que aproveitam para comentar de forma negativa não só a situação política mas também a presença e atuação dos cubanos, comentários esses que se traduzem depois em poesia e música que começa a alastrar ainda que de maneira velada através de diversos meios”, escreve o embaixador.

No mesmo dia, um outro telegrama da embaixada de Portugal sublinha a intensificação da presença soviética” em Angola: “Após a crise de 27 de maio, este governo sente necessidade de reafirmar o alinhamento e ortodoxia para não perder o apoio do poderoso aliado (URSS). Aliás, tal guinada não poderá entender-se desligada das conversações que o presidente Neto terá tido em Havana”, escreve o embaixador. “A evolução política angolana parece depender cada vez mais da análise das relações entre o triângulo Havana-Luanda-Moscovo. Em todo o caso, não pode deixar entender-se a intensificação da presença soviética como verdadeira guinada, após o ponto baixo nas relações entre Angola e União Soviética durante o 27 de maio.”

4 a 10 de dezembro – Realiza-se em Luanda o 1º Congresso Ordinário do MPLA, que se constitui em “Partido de Vanguarda da Classe Operária”, passando o seu nome a ser MPLA-Partido do Trabalho. Agostinho Neto é eleito o seu presidente e discursa diante de um busto de Lenine. Rosa Coutinho, Alto-Comissário de Portugal em Angola entre 1974 e janeiro de 1975, participa no Congresso, como convidado, bem como representantes dos partidos portugueses PS (Manuel Alegre) e do PCP (Sérgio Vilarigues). Uma mensagem do PCP ao Congresso afirma a disposição do partido de “combater firmemente quaisquer conspirações anti-angolanas que se desenvolvam a partir do território português e as campanhas de mentiras e calúnias dos inimigos do MPLA e da República Popular de Angola”.

23 de março de 1978 – Ademar Valles, engenheiro eletrotécnico e irmão de Sita Valles, que nunca tivera atividade política, é fuzilado. Terá sido neste dia a última leva de fuzilamentos, a partir da Cadeia de S.Paulo em Luanda.

10 de setembro de 1979 – Morre, em Moscovo, Agostinho Neto de complicações de uma cirurgia para tentar extirpar um tumor cancerígeno no fígado. No seu lugar assume José Eduardo dos Santos.

Fontes que serviram de base a esta cronologia:

“Purga em Angola – Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunem – o 27 de Maio de 1977”, Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus

“Sita Valles, Revolucionária, Comunista até à Morte (1951-1977)”, Leonor Figueiredo

“‘Golpe Nito Alves’ e Outros Momentos da História de Angola Vistos do Kremlin”, José Milhazes

“Angola: A Tentativa de Golpe de Estado de 27 de Maio de 77 – Informação do Bureau Político do MPLA”, edições Avante

“Estamos Juntos” – O MPLA e a Luta Anticolonial (1961-1974). Tese de doutoramento de Marcelo Bittencourt na Universidade Federal Fluminense

Memórias de um golpe: o 27 de maio de 1977 em Angola”, de Inácio Luiz Guimarães Marques, Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal Fluminense, como requisito para obtenção do grau de Mestre.

O 27 de Maio angolano visto de baixo”, Lara Pawson, Revista do Instituto Português de Relações Internacionais, junho de 2007

Post-Modern Patrimonialism in Africa: the Genesis and Development of the Angolan Political System (1961-1987)”, Nuno Carlos de Fragoso Vidal, dissertação apresentada à Universidade de Londres para obtenção de grau de doutor, 2002

Ascensão e queda violenta do Nitismo”, de Pedro Sousa Ferreira, dossier especial Dias da Independência – “Telegramas de Angola: Verdes anos, a guerra civil, a repressão e os milhares de retornados” da Agência Lusa.

(...)

Resto dossier

Tanque cubano barra o acesso à Rádio Nacional de Angola. Foto publicada na 1ª página de O Jornal da época

O 27 de Maio de 1977 em Angola

Há 40 anos, Agostinho Neto, vencedor da disputa entre duas alas do MPLA, deu luz verde a uma chacina que terá chegado às 30 mil vítimas. Neste dossier, o Esquerda.net ouve sobreviventes, relembra os acontecimentos, apresenta documentos praticamente inéditos, discute a urgência de resolver uma grave questão de direitos humanos. Dossier coordenado por Luis Leiria.

 

Jorge Fernandes

“Nito Alves foi uma vítima do maquiavélico Agostinho Neto”

Num depoimento ao Esquerda.net, o engenheiro Jorge Fernandes, sobrevivente do 27 de Maio, relata como viveu os tempos da independência, da organização do MPLA em Angola, e os dois anos e meio de prisão e campo de trabalhos forçados sem acusação nem julgamento. E partilha as conclusões políticas a que chegou após 40 anos. Por Luis Leiria.

Rui Coelho

Será demasiado querer saber porque morreu, e como morreu, o meu irmão?

Depoimento de Maria da Conceição Coelho – irmã de Rui Coelho, um dos desaparecidos no período de repressão que se seguiu ao 27 de Maio em Angola – na audição pública promovida pelo Bloco de Esquerda.

27 de Maio: Lembrar para não esquecer

Depoimento de José Reis, autor de "Memórias de um sobrevivente" na audição pública organizada pelo Bloco de Esquerda sobre os acontecimentos do 27 de Maio em Angola e a repressão que se seguiu.

João Ernesto Valles Van Dunem

Angola: 24 órfãos do 27 de Maio dirigem carta à Presidência

Primeiro signatário é João Ernesto Valles Van Dunem. Órfãos reivindicam a elaboração de uma lista de desaparecidos, exames de ADN para reconhecer as ossadas, a emissão de certidões de óbito, entre outras medidas.

As duas revoluções de Sita Valles

A sua curta vida apresenta todos os ingredientes de uma tragédia grega. A militante que se entregou sem rodeios às revoluções portuguesa e angolana foi devorada por esta última. Pior ainda, o seu nome tornou-se maldito em ambos países. Nenhum argumento pode justificar que se lhe retire o direito à memória. Recordemo-la, pois. Por Luis Leiria.

Capa do livro de Dalila e Álvaro Mateus

"Ainda hoje tenho pesadelos com este horror"

No dia 27 de maio de 1977, começou um dos períodos mais macabros de Angola. Neste dia houve manifestações em Luanda a favor de Nito Alves. A seguir, milhares de angolanos foram torturados e assassinados. Primeira parte da entrevista da Deutsche Welle a Dalila Mateus.

Artigos como este do Jornal de Angola incitavam à violência, à delação e ao ódio

"O MPLA sempre tratou os dissidentes da pior forma"

Vamos tentar perceber os contornos internos e externos da perseguição violenta dos chamados "fraccionistas" pelo MPLA de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola, durante a qual morreram milhares de pessoas. Segunda parte da entrevista da Deutsche Welle à historiadora Dalila Mateus.

Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos.

Ao cabo de 40 anos

Os quarenta anos que separam a data dos acontecimentos violentos e armados vividos em Luanda no dia 27 de maio de 1977 dos dias de hoje não chegam para explicar o sucedido, nem para apaziguar a memória. Por Domingos Lopes.

David Zé: enviado por Agostinho Neto para assistir aos festejos das independências de Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, onde interpretou, em cada uma delas, a canção "Quem matou Amílcar Cabral".

Vítimas: os três músicos mais populares do MPLA

As mortes na chacina desencadeada após o 27 de maio foram muito além dos simpatizantes de Nito Alves, atingindo até os mais famosos músicos da área do MPLA. David Zé, que até então cumprira o papel de embaixador cultural de Angola, foi um deles. Já José da Piedade Agostinho salvou-se por ser asmático.

Raúl Castro (à direita na foto) relatou a Fidel as desconfianças de Agostinho Neto em relação aos soviéticos

Memorando de Raúl a Fidel Castro relata desconfianças sobre papel da URSS

Documento até agora desconhecido revela preocupação da liderança cubana devido às suspeitas de Agostinho Neto de que a ação de Nito Alves tivera a simpatia dos soviéticos. Por Luis Leiria.

No primeiro plano, Raúl e Fidel Castro; Jorge Risquet aparece atrás, à esquerda.

Neto pôs Nito sob vigilância 10 meses antes do 27 de Maio

Relatório do chefe da Missão Civil de Cuba em Angola a Fidel Castro revela que dez meses antes dos acontecimentos fatídicos que marcaram para sempre a história de Angola as ações de Nito Alves já eram vigiadas. Por Luis Leiria.

Agostinho Neto e Nito Alves

Cronologia

Para além dos acontecimentos no dia 27 de maio de 1977 e dos seus antecedentes e consequências, optámos por ampliar um pouco a cronologia para oferecer ao leitor um enquadramento geral dos acontecimentos na história de Angola.

Protagonistas do 27 de maio

Veja aqui quem foram os principais protagonistas do golpe de 27 de maio, do lado dos vencedores e dos vencidos.

Angola - o 27 de Maio - Memórias de um Sobrevivente

Sobrevivente do 27 de Maio lança livro

Lançamento de “Angola – o 27 de Maio – Memórias de um Sobrevivente”, de José Reis, será no sábado, dia 27, na casa de Goa, às 17 horas.