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Ao cabo de 40 anos

Os quarenta anos que separam a data dos acontecimentos violentos e armados vividos em Luanda no dia 27 de maio de 1977 dos dias de hoje não chegam para explicar o sucedido, nem para apaziguar a memória. Por Domingos Lopes.
Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos.
Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos.

Quarenta anos são uma meia vida e ao cabo deste tempo todo ainda não se sabe o número de vidas ceifadas a quente e as que se foram ceifando nos esconderijos da pura maldade.

No conflito não havia anjos e demónios; eram humanos os que se enfrentaram até à morte, por sinal ancorados num progressismo que as suas vidas testemunharam.

O enfrentamento militar de 27 de maio minou também o futuro de uma Angola já livre do colonialismo, apontando o seu rumo para o progresso social.

Aliás os quadros dirigentes que pegaram em armas para combater o colonialismo português eram, em geral, mulheres e homens que beberam as suas convicções nas correntes marxistas que então impregnavam as elites africanas e de outros países do chamado terceiro mundo.

Quando as divergências passam para as armas normalmente os que vencem acabam mais tarde vencidos.

Chegados aqui não há justificação para persistir na ideia que o desaparecimento de milhares de jovens e militantes da causa angolana morreria com o passar do tempo. Foi um grave erro como comprova o que sucedeu no interior do Partido Socialista Iemenita, no Partido Popular do Afeganistão nos anos setenta do século passado. Quando as divergências passam para as armas normalmente os que vencem acabam mais tarde vencidos.

A ideia dos vencedores de então (invocando uma ideologia que apresentavam como libertadora) de que fariam esquecer com o tempo o que se passou, não funcionou. O erro foi gigantesco.

É dolorosamente insuportável que os vencedores não se dignem sequer dar conta do que aconteceu aos mortos, dos locais onde se encontram os cadáveres e que motivos levaram a que o desvario fosse solto muito para além da defesa; e a vingança e o ajuste de contas não tivessem fim durante tempos sem fim.

Quantos foram os mortos? Onde estão? Como morreram? Quanto tempo estiveram vivos até à hora e ao dia da morte?

Fazer de conta que feridas tão profundas se fecham para todo o sempre só porque o poder constituído assim o determinou é um mal que não cessa de crescer.

Para que a verdade venha ao cimo da vida justificar-se-ia a criação de uma comissão de apuramento da verdade que integrasse cidadãos acima de qualquer suspeita

Nem os angolanos, nem os povos amigos de Angola sabem o que se passou para além das várias versões que vão correndo.

Para que a verdade venha ao cimo da vida justificar-se-ia, como aconteceu em tantas latitudes, a criação de uma comissão de apuramento da verdade que integrasse cidadãos que estivessem acima de qualquer suspeita e que trabalhassem no sentido de erguer um novo tempo entre angolanos e que permitisse que todos se encarassem como compatriotas, independentemente do lugar nas barricadas em que cada um e familiares estiveram.

Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos. Se as pedras se limitarem a tapar o vazio, não taparão mais que esse vazio.

A vida, por mais dura que tenha sido ou que seja, não permite a pacificação se os que perderam forem considerados como párias, como se não tivessem existido.

O mais elementar dos direitos humanos integra o direito a não ser executado e viola de modo grosseiro e bárbaro a execução sem que o Estado dê conhecimento dessa execução e esconda os restos mortais dos executados, o que constitui uma prova de maldade a raiar a prepotência mais cruel.

Angola precisa de paz e que as suas vozes diversas se oiçam. Quarenta anos passaram muito depressa, ao contrário da dor de todos os que perderam os seus filhos amados, pois a imensa maioria dos milhares de mortos eram jovens.

O respeito pelos mortos é o mínimo que se pode pedir ao Estado angolano. O primado dos mais elementares direitos humanos impõe-no.

Uma comissão que se debruce de modo insuspeito sobre o que se passou e preste a todos os mortos o enterro condigno permitiria apaziguar a memória e o presente também inquieto com o passado. O respeito pelos mortos é o mínimo que se pode pedir ao Estado angolano. O primado dos mais elementares direitos humanos impõe-no.

O respeito pela verdade é o modo mais adequado e justo de se poder olhar para o passado e encará-lo nas suas mais cruéis circunstâncias.

São os que detêm o poder os que mais podem fazer e dar os passos necessários. Uma coisa será certa: há acontecimentos que o tempo não resolve porque a memória dorida esconde-se dentro do próprio tempo. Só rasgando o véu que caiu sobre o que passou naquele tempo pacificará as consciências doridas. Só a coragem.


Domingos Lopes é advogado, escritor e Presidente do Fórum Português para a Paz e Direitos Humanos.

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Resto dossier

Tanque cubano barra o acesso à Rádio Nacional de Angola. Foto publicada na 1ª página de O Jornal da época

O 27 de Maio de 1977 em Angola

Há 40 anos, Agostinho Neto, vencedor da disputa entre duas alas do MPLA, deu luz verde a uma chacina que terá chegado às 30 mil vítimas. Neste dossier, o Esquerda.net ouve sobreviventes, relembra os acontecimentos, apresenta documentos praticamente inéditos, discute a urgência de resolver uma grave questão de direitos humanos. Dossier coordenado por Luis Leiria.

 

Jorge Fernandes

“Nito Alves foi uma vítima do maquiavélico Agostinho Neto”

Num depoimento ao Esquerda.net, o engenheiro Jorge Fernandes, sobrevivente do 27 de Maio, relata como viveu os tempos da independência, da organização do MPLA em Angola, e os dois anos e meio de prisão e campo de trabalhos forçados sem acusação nem julgamento. E partilha as conclusões políticas a que chegou após 40 anos. Por Luis Leiria.

Rui Coelho

Será demasiado querer saber porque morreu, e como morreu, o meu irmão?

Depoimento de Maria da Conceição Coelho – irmã de Rui Coelho, um dos desaparecidos no período de repressão que se seguiu ao 27 de Maio em Angola – na audição pública promovida pelo Bloco de Esquerda.

27 de Maio: Lembrar para não esquecer

Depoimento de José Reis, autor de "Memórias de um sobrevivente" na audição pública organizada pelo Bloco de Esquerda sobre os acontecimentos do 27 de Maio em Angola e a repressão que se seguiu.

João Ernesto Valles Van Dunem

Angola: 24 órfãos do 27 de Maio dirigem carta à Presidência

Primeiro signatário é João Ernesto Valles Van Dunem. Órfãos reivindicam a elaboração de uma lista de desaparecidos, exames de ADN para reconhecer as ossadas, a emissão de certidões de óbito, entre outras medidas.

As duas revoluções de Sita Valles

A sua curta vida apresenta todos os ingredientes de uma tragédia grega. A militante que se entregou sem rodeios às revoluções portuguesa e angolana foi devorada por esta última. Pior ainda, o seu nome tornou-se maldito em ambos países. Nenhum argumento pode justificar que se lhe retire o direito à memória. Recordemo-la, pois. Por Luis Leiria.

Capa do livro de Dalila e Álvaro Mateus

"Ainda hoje tenho pesadelos com este horror"

No dia 27 de maio de 1977, começou um dos períodos mais macabros de Angola. Neste dia houve manifestações em Luanda a favor de Nito Alves. A seguir, milhares de angolanos foram torturados e assassinados. Primeira parte da entrevista da Deutsche Welle a Dalila Mateus.

Artigos como este do Jornal de Angola incitavam à violência, à delação e ao ódio

"O MPLA sempre tratou os dissidentes da pior forma"

Vamos tentar perceber os contornos internos e externos da perseguição violenta dos chamados "fraccionistas" pelo MPLA de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola, durante a qual morreram milhares de pessoas. Segunda parte da entrevista da Deutsche Welle à historiadora Dalila Mateus.

Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos.

Ao cabo de 40 anos

Os quarenta anos que separam a data dos acontecimentos violentos e armados vividos em Luanda no dia 27 de maio de 1977 dos dias de hoje não chegam para explicar o sucedido, nem para apaziguar a memória. Por Domingos Lopes.

David Zé: enviado por Agostinho Neto para assistir aos festejos das independências de Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, onde interpretou, em cada uma delas, a canção "Quem matou Amílcar Cabral".

Vítimas: os três músicos mais populares do MPLA

As mortes na chacina desencadeada após o 27 de maio foram muito além dos simpatizantes de Nito Alves, atingindo até os mais famosos músicos da área do MPLA. David Zé, que até então cumprira o papel de embaixador cultural de Angola, foi um deles. Já José da Piedade Agostinho salvou-se por ser asmático.

Raúl Castro (à direita na foto) relatou a Fidel as desconfianças de Agostinho Neto em relação aos soviéticos

Memorando de Raúl a Fidel Castro relata desconfianças sobre papel da URSS

Documento até agora desconhecido revela preocupação da liderança cubana devido às suspeitas de Agostinho Neto de que a ação de Nito Alves tivera a simpatia dos soviéticos. Por Luis Leiria.

No primeiro plano, Raúl e Fidel Castro; Jorge Risquet aparece atrás, à esquerda.

Neto pôs Nito sob vigilância 10 meses antes do 27 de Maio

Relatório do chefe da Missão Civil de Cuba em Angola a Fidel Castro revela que dez meses antes dos acontecimentos fatídicos que marcaram para sempre a história de Angola as ações de Nito Alves já eram vigiadas. Por Luis Leiria.

Agostinho Neto e Nito Alves

Cronologia

Para além dos acontecimentos no dia 27 de maio de 1977 e dos seus antecedentes e consequências, optámos por ampliar um pouco a cronologia para oferecer ao leitor um enquadramento geral dos acontecimentos na história de Angola.

Protagonistas do 27 de maio

Veja aqui quem foram os principais protagonistas do golpe de 27 de maio, do lado dos vencedores e dos vencidos.

Angola - o 27 de Maio - Memórias de um Sobrevivente

Sobrevivente do 27 de Maio lança livro

Lançamento de “Angola – o 27 de Maio – Memórias de um Sobrevivente”, de José Reis, será no sábado, dia 27, na casa de Goa, às 17 horas.