You are here

Vítimas: os três músicos mais populares do MPLA

As mortes na chacina desencadeada após o 27 de maio foram muito além dos simpatizantes de Nito Alves, atingindo até os mais famosos músicos da área do MPLA. David Zé, que até então cumprira o papel de embaixador cultural de Angola, foi um deles. Já José da Piedade Agostinho salvou-se por ser asmático.
David Zé: enviado por Agostinho Neto para assistir aos festejos das independências de Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, onde interpretou, em cada uma delas, a canção "Quem matou Amílcar Cabral".

A vaga de repressão desencadeada pelo governo de Agostinho Neto a seguir ao 27 de maio vitimou dezenas de milhares de pessoas, destruindo o poder popular, assassinando quadros com formação intelectual e atingindo também duramente a cultura.

A repressão foi muito além dos acusados de “fraccionismo”. Um exemplo flagrante é o de três dos mais importantes músicos angolanos mortos nas perseguições desencadeadas após aquela data fatídica: David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes. Não se conhecem os motivos. Eram os três músicos mais populares da área do MPLA. Simplesmente desapareceram e a sua música deixou de ser tocada nas rádios durante muito tempo.

David Zé, enviado de Agostinho Neto

As letras de David Zé eram muito politizadas, defendendo a política do MPLA

As letras de David Zé eram muito politizadas, defendendo a política do MPLA.

David Gabriel José Ferreira era um dos músicos míticos da revolução angolana. As suas letras habitualmente eram muito politizadas, defendendo a política do MPLA. Era coordenador do conjunto musical Aliança Fapla-Povo, que acompanhava o Agostinho Neto em todas as suas digressões, fosse no interior ou no estrangeiro, uma espécie de embaixada itinerante da cultura angolana. Foi enviado por Agostinho Neto para assistir aos festejos das independências de Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, onde interpretou, em cada uma delas, a canção "Quem matou Amílcar Cabral".

Iniciou a sua carreira artística em 1966. "Kadica Zé" foi o seu primeiro disco. Gravou um total de 14 singles e um LP em 1975, intitulado "Mutudi Ua Ufolo (Viúva da Liberdade). Tinha 32 anos quando foi morto.

Ouça aqui uma playlist das músicas de David Zé.

Urbano de Castro, autor de “Angola Liberté”

A canção “Angola liberté” teve um enorme efeito mobilizador nas bases das FAPLA.
A canção “Angola liberté” teve um enorme efeito mobilizador nas bases das FAPLA.

Serralheiro de profissão, trabalhou como operário na empresa União, tendo-se transformado num pequeno proprietário, no ramo da hotelaria, com os rendimentos provenientes da música.

Urbano de Castro fez parte do grupo coral da Igreja Tocoísta, em 1965, experiência que teve um papel importante na afirmação da sua carreira musical.

Foi preso pela PIDE em 1970. Depois de uma primeira tentativa falhada, conseguiu evadir-se para se juntar à guerrilha do MPLA. A canção “Angola liberté”, editada em single, é desta época, e teve um enorme efeito mobilizador nas bases das FAPLA.

Após a independência, integrou, como um dos principais vocalistas, o conjunto musical Aliança FAPLA-POVO. Terá sido fuzilado depois do 27 de maio.

Ouça a música de Urbano de Castro

Kialumingo

Na Gajajeira

Fatimita

Artur Nunes, o mais jovem

Quando foi morto, tinha apenas 27 anos
Quando foi morto, Artur Nunes tinha apenas 27 anos

Era o mais jovem dos três: quando foi morto, tinha apenas 27 anos. Começou a carreira musical pelo ano de 1970 quando fundou os Luanda Show. Depois, lançou-se a solo e colaborou com algumas das melhores bandas da época, Merengues, Jovens do Prenda, Kiezos e África Ritmos. E com os Kissanguela, um grupo musical de intervenção política que passou a dominar o panorama musical do pós-independência.

Leia mais sobre Artur Nunes neste artigo do Buala.

Ouça uma playlist de músicas de Artur Nunes

Um sobrevivente: José da Piedade Agostinho

José Agostinho compôs uma das mais famosas músicas de sua autoria, “Regresso”, com letra de Amílcar Cabral, num campo de trabalhos forçados

José Agostinho compôs uma das mais famosas músicas de sua autoria, “Regresso”, com letra de Amílcar Cabral, num campo de trabalhos forçados

O secretário-geral da Juventude do MPLA e músico José da Piedade Agostinho teve mais sorte: foi preso, mas escapou da morte.

Salvou-se por ser asmático. “Meteram-no dentro de um saco para depois ser atirado de um avião. Mas como ele tinha aquela asma, estrebuchou tanto, devido à sensação de falta de ar, que tiveram de abrir o saco. E assim se safou, porque já não foi naquela leva”, recorda José Reis, que ouviu a história do próprio. Reis conviveu com o músico no campo de trabalhos forçados do Tari (Quibala, Kuanza do Sul) e, depois de ambos serem libertados, em Lisboa. Foi nesse campo que José Agostinho compôs uma das mais famosas músicas de sua autoria, que seria gravada mais tarde por Cesária Évora a solo e em dueto com Caetano Veloso: “Regresso”, que tem como letra um poema de Amílcar Cabral. (A música é mais conhecida como “Mãe Velha”, pode ouvi-la aqui na versão gravada por Alcione).

Libertado, José da Piedade Agostinho mudou-se para Portugal, onde morreu, nos anos 80, devido à mesma doença que o salvara antes. Estava num bar a tocar, quando comeu um pastel que tinha camarão e lhe provocou um choque alérgico fulminante.

Parceiro de José Agostinho no Duo Misoso, formado por ambos em 1973, Filipe Mukenga homenageou o amigo com a canção “Blues pala nguxi’’. Numa entrevista, Mukenga disse: “É um tema que muito me sensibiliza e que gosto muito. Quando oiço esta canção recordo-me e presto homenagem a um grande amigo e músico com quem tive a felicidade de privar e de trabalhar durante anos, tendo como motivo essencial a nossa música’’. (L.L.)

Comentários (2)

Resto dossier

Tanque cubano barra o acesso à Rádio Nacional de Angola. Foto publicada na 1ª página de O Jornal da época

O 27 de Maio de 1977 em Angola

Há 40 anos, Agostinho Neto, vencedor da disputa entre duas alas do MPLA, deu luz verde a uma chacina que terá chegado às 30 mil vítimas. Neste dossier, o Esquerda.net ouve sobreviventes, relembra os acontecimentos, apresenta documentos praticamente inéditos, discute a urgência de resolver uma grave questão de direitos humanos. Dossier coordenado por Luis Leiria.

 

Jorge Fernandes

“Nito Alves foi uma vítima do maquiavélico Agostinho Neto”

Num depoimento ao Esquerda.net, o engenheiro Jorge Fernandes, sobrevivente do 27 de Maio, relata como viveu os tempos da independência, da organização do MPLA em Angola, e os dois anos e meio de prisão e campo de trabalhos forçados sem acusação nem julgamento. E partilha as conclusões políticas a que chegou após 40 anos. Por Luis Leiria.

Rui Coelho

Será demasiado querer saber porque morreu, e como morreu, o meu irmão?

Depoimento de Maria da Conceição Coelho – irmã de Rui Coelho, um dos desaparecidos no período de repressão que se seguiu ao 27 de Maio em Angola – na audição pública promovida pelo Bloco de Esquerda.

27 de Maio: Lembrar para não esquecer

Depoimento de José Reis, autor de "Memórias de um sobrevivente" na audição pública organizada pelo Bloco de Esquerda sobre os acontecimentos do 27 de Maio em Angola e a repressão que se seguiu.

João Ernesto Valles Van Dunem

Angola: 24 órfãos do 27 de Maio dirigem carta à Presidência

Primeiro signatário é João Ernesto Valles Van Dunem. Órfãos reivindicam a elaboração de uma lista de desaparecidos, exames de ADN para reconhecer as ossadas, a emissão de certidões de óbito, entre outras medidas.

As duas revoluções de Sita Valles

A sua curta vida apresenta todos os ingredientes de uma tragédia grega. A militante que se entregou sem rodeios às revoluções portuguesa e angolana foi devorada por esta última. Pior ainda, o seu nome tornou-se maldito em ambos países. Nenhum argumento pode justificar que se lhe retire o direito à memória. Recordemo-la, pois. Por Luis Leiria.

Capa do livro de Dalila e Álvaro Mateus

"Ainda hoje tenho pesadelos com este horror"

No dia 27 de maio de 1977, começou um dos períodos mais macabros de Angola. Neste dia houve manifestações em Luanda a favor de Nito Alves. A seguir, milhares de angolanos foram torturados e assassinados. Primeira parte da entrevista da Deutsche Welle a Dalila Mateus.

Artigos como este do Jornal de Angola incitavam à violência, à delação e ao ódio

"O MPLA sempre tratou os dissidentes da pior forma"

Vamos tentar perceber os contornos internos e externos da perseguição violenta dos chamados "fraccionistas" pelo MPLA de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola, durante a qual morreram milhares de pessoas. Segunda parte da entrevista da Deutsche Welle à historiadora Dalila Mateus.

Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos.

Ao cabo de 40 anos

Os quarenta anos que separam a data dos acontecimentos violentos e armados vividos em Luanda no dia 27 de maio de 1977 dos dias de hoje não chegam para explicar o sucedido, nem para apaziguar a memória. Por Domingos Lopes.

David Zé: enviado por Agostinho Neto para assistir aos festejos das independências de Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, onde interpretou, em cada uma delas, a canção "Quem matou Amílcar Cabral".

Vítimas: os três músicos mais populares do MPLA

As mortes na chacina desencadeada após o 27 de maio foram muito além dos simpatizantes de Nito Alves, atingindo até os mais famosos músicos da área do MPLA. David Zé, que até então cumprira o papel de embaixador cultural de Angola, foi um deles. Já José da Piedade Agostinho salvou-se por ser asmático.

Raúl Castro (à direita na foto) relatou a Fidel as desconfianças de Agostinho Neto em relação aos soviéticos

Memorando de Raúl a Fidel Castro relata desconfianças sobre papel da URSS

Documento até agora desconhecido revela preocupação da liderança cubana devido às suspeitas de Agostinho Neto de que a ação de Nito Alves tivera a simpatia dos soviéticos. Por Luis Leiria.

No primeiro plano, Raúl e Fidel Castro; Jorge Risquet aparece atrás, à esquerda.

Neto pôs Nito sob vigilância 10 meses antes do 27 de Maio

Relatório do chefe da Missão Civil de Cuba em Angola a Fidel Castro revela que dez meses antes dos acontecimentos fatídicos que marcaram para sempre a história de Angola as ações de Nito Alves já eram vigiadas. Por Luis Leiria.

Agostinho Neto e Nito Alves

Cronologia

Para além dos acontecimentos no dia 27 de maio de 1977 e dos seus antecedentes e consequências, optámos por ampliar um pouco a cronologia para oferecer ao leitor um enquadramento geral dos acontecimentos na história de Angola.

Protagonistas do 27 de maio

Veja aqui quem foram os principais protagonistas do golpe de 27 de maio, do lado dos vencedores e dos vencidos.

Angola - o 27 de Maio - Memórias de um Sobrevivente

Sobrevivente do 27 de Maio lança livro

Lançamento de “Angola – o 27 de Maio – Memórias de um Sobrevivente”, de José Reis, será no sábado, dia 27, na casa de Goa, às 17 horas.