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França: a extrema direita em socorro do neoliberalismo

O crescimento da extrema-direita na Europa é uma consequência direta das políticas neoliberais que começaram a ser promovidas no início da década de 80.

Da mesma forma que os atentados terroristas e as suas vítimas no Ocidente constituem um dano colateral da política externa ocidental, também a extrema-direita constitui um dano colateral do neoliberalismo. Mais, para além de dano colateral, a extrema direita é, como força ancorada e em expansão, indispensável à sobrevivência do sistema enquanto este quiser conservar a aparência de democracia.

O caso da França é sintomático a este respeito. Desde as eleições presidenciais de 2002, que apuraram para a segunda volta um candidato da direita e outro da extrema-direita, a França tem vindo, de forma recorrente a votar útil, sendo levada não poucas vezes a constituir as chamadas frentes republicanas, em que um ou vários candidatos desistem a favor de outro, mais bem posicionado, para “fazer barragem à extrema-direita”.

O crescimento da extrema-direita na Europa é uma consequência direta das políticas neoliberais que começaram a ser promovidas no início da década de 80 e se têm prosseguido de maneira crescente ao longo das últimas quatro décadas, com particular ímpeto após a crise financeira. Se atentarmos ao caso da França, o mapa da implantação da extrema-direita é, em grande parte, o do desemprego, da precariedade e do seu corolário, a exclusão.

Assim sendo, e as políticas prosseguindo, de forma cada vez mais intensa, o seu neoliberal curso, podemos deduzir que o crescimento da extrema-direita que as acompanha, é compatível com o sistema que as produz e implementa: os gritos de alarme (que, cada vez mais, se assemelham a gemidos), sobre o crescimento da extrema-direita, por parte de responsáveis políticos, particularmente europeus, não passam de figuras de retórica.

Mas trata-se de figuras de retórica que é necessário cultivar, pois que se vão tornar preciosas em certos momentos: é delas que se terá de lançar mão quando se quiser impor o candidato do sistema, aquele por quem a população terá de votar para fazer barragem à extrema-direita se não quiser ser estigmatizada porque confundida com ela.

A violência dos propósitos atingindo aqueles que não se submetem ao diktat do voto pré-escolhido, é sintomática a este respeito: é daquela violência que é, hoje, alvo Jean-Luc Mélenchon e o Movimento da França insubmissa. Ei-los já crucificados no altar do neoliberalismo, acusados do futuro cataclismo, do regresso à França de Pétain, de conivência com o fascismo e o nazismo...

Como sucede, às vezes, de uma cajadada matam-se dois coelhos. Ao diabolizar a extrema-direita, através daqueles que recusando o diktat do voto pré-selecionado, são acusados “de jogar o seu jogo”, diaboliza-se a oposição ao neoliberalismo: ora, é essa oposição que é perigosa. E, o perigo é grande, na hora de fazer contas. Um em cada cinco eleitores franceses tendo exprimido o seu voto a favor de um candidato, são hoje insubmissos, ou seja, põem em causa as instituições e os privilégios da casta, as políticas económicas de austeridade, o produtivismo exacerbado e ecologicamente insustentável , a geopolítica da guerra e da dominação. Querem estender as fronteiras do possível até aos limites do humano. É este o projeto de emancipação humana que, em França se opõe ao neoliberalismo e que, por isso, importa descredibilizar, para poder esmagar.

A extrema-direita vem ao socorro deste objetivo de esmagamento, sendo usada de forma perversa pelos neoliberais: ao opor-se àquela, estes fazem, com efeito, figura de anti-fascistas, contrariamente aos seus opositores acusados de colaboração.

Na realidade, o que é perigoso para o neoliberalismo é tudo o que se opõe à sua dominação e arrisca de pôr em causa o seu livre curso e a sua perpetuação.

A extrema direita, surge assim, não como uma inimiga, mas como uma aliada incontornável do neoliberalismo. A que lhe permite manter a dominação sob um regime de aparente democracia. Mas a democracia é, de facto, apenas aparente e não resiste à expansão do neoliberalismo. Quanto mais este se expande mais a democracia constitui um obstáculo. E, neste caso, como em todos em que o neoliberalismo se encontra ameaçado, ele não tem a mínima hesitação em sacrificar a democracia, como no-lo tem provado sobejamente o exemplo da França1.

Eis porque, transpondo para o tempo (e contexto) presente G. Orwell - que escrevia em Setembro de 1937, “é vão querer ser antifascista, tentando ao mesmo tempo preservar o capitalismo”- diríamos que a luta contra a extrema-direita é vã, se for indissociada da luta contra o capitalismo neoliberal que a cria, a alimenta e lhe dá asas para voar. Conduzir uma luta autónoma contra a extrema direita, e, a fortiori, a cavalo do neoliberalismo, é cair na ratoeira que este nos ergueu, para perpetuar um sistema de dominação a que a extrema-direita permite dar a cor da democracia.


1 O uso e abuso em França da repressão neste quinquénio socialista (passagem em força de leis, como a lei de desregulamentação do trabalho; carga policial contra manifestantes e ativistas; condenação de responsáveis sindicais, são ilustrativos deste cerceamento da democracia para a realização do qual o neoliberalismo não hesita em usar a violência.

Sobre o/a autor(a)

Economista; assistente de Economia na Universidade de Paris III-Sorbonne Nouvelle; autarca na região de Paris; dirigente do Bloco de Esquerda.
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