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O Miguel que eu conheci

Foi este o Miguel que eu conheci: passava das gargalhadas às fúrias imensas. Vivia tudo com alegria, otimismo e paixão. Ensinou-nos a coragem e o valor da coragem.

Tive o privilégio de conhecer o Miguel Portas no final dos anos 80, princípio dos 90. Era o tempo em que Reagan e Thatcher mandavam no mundo como se não houvesse amanhã e como se qualquer alternativa fosse impossível. Em Portugal, resistia-se à normalização imposta pela derrota da Revolução em 25 de Novembro de 1975.

O Miguel foi evidentemente daqueles que não se resignou. Contra a corrente, e para além da atividade partidária (no PCP), fundou revistas de debates de ideias, escrevia, fazia ativismo cultural. Era ativo, solidário, imaginativo e apaixonado.

Viajou muito, sobretudo pelo Mediterrâneo e no Médio Oriente, construindo pontes. Organizou várias viagens de visita ao Saara Ocidental onde foi dar apoio a Aminatou Haidar quando esta fazia greve de fome.

O Miguel trazia a Palestina no coração. Aliás transportava consigo toda/os a/os oprimida/os, qualquer que fosse a causa da sua opressão.

Em 1999, o Miguel foi uma das pessoas-chave da formação do Bloco de Esquerda, essa imensa esperança e ousadia de refundar a esquerda.

Nas legislativas de Outubro desse ano, o Miguel foi cabeça de lista pelo círculo eleitoral do Porto. Essa campanha marcou para sempre a forma de o Bloco fazer política.

Era também o momento das gigantescas mobilizações populares de solidariedade com o povo de Timor-Leste. Havia concentrações e manifestações todos os dias. Na Praça da Liberdade no Porto havia uma espécie de sit-in permanente, com cartazes, velas e gente. Sempre muita gente. O Miguel esteve presente horas a fio durante dias a fio. Fez um turno de 24h de greve da fome em que participaram umas 30 pessoas de cada vez. As pessoas conheciam-no, dirigiam-se a ele na rua e tratavam-no por tu, com uma familiaridade a que ele também correspondia.

Durante essa campanha, o Bloco “ocupou” literalmente os cafés da cidade do Porto, especialmente o “Piolho”, com debates abertos em que participaram como convidados personalidades como Maria de Lurdes Pintasilgo, Alexandre Quintanilha, Manuel António Pina (que era o mandatário distrital da campanha). O “Piolho” enchia e transbordava.

A preocupação do Miguel era o alargamento, era responder à pergunta: quem poderá ainda vir/ser chamada e que ainda não está? E sempre, sempre, não ceder à rotina, desafiar o impossível, fazer o que era mais difícil.

Relembro a história de Marco de Canavezes, cujo presidente da Câmara na altura era Avelino Ferreira Torres que, a par de muitas barbaridades, tinha feito um decreto municipal que proibia os munícipes de cantar ou fazer música na rua. A Associação de Amigos do Marco, gente cheia de coragem que se opunha visceralmente a Ferreira Torres, tinha convidado o Miguel para ir ao Marco, o que já tinha acontecido. Mas o Miguel não ficou por aí. Na tarde do último dia de campanha, fez o impossível acontecer: o Bloco organizou um enorme desfile de rua, com o Miguel na primeira fila, atrás de uma fanfarra. Gritaram-se palavras de ordem e cantou-se, num desafio ao poder de então e mostrando desobediência máxima. O Marco nunca mais foi o mesmo.

Foi este o Miguel que eu conheci: passava das gargalhadas às fúrias imensas. Vivia tudo com alegria, otimismo e paixão. Ensinou-nos a coragem e o valor da coragem.

Faz-nos muita, muita falta. Mas nós continuamos todos os seus combates. Até porque, como ele costumava dizer “os únicos realistas deste filme somos mesmo nós”.

Até já, Miguel, meu camarada, meu amigo.

Intervenção no Tributo "Building Bridges -- Construindo Pontes", que decorreu em Bruxelas no dia 2 de maio de 2017

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Sobre o/a autor(a)

Professora universitária. Ativista do Bloco de Esquerda.
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