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A curiosíssima teoria do sequestro

Na imprensa e na política, esta direita tem o que merece.

Numa das curiosas coincidências cósmicas que povoam o nosso firmamento, a mudança de agulha da direita sobre a forma de atacar a “geringonça” inspirou-se em vários comentários e análises que antecipavam uma maioria absoluta para o PS, a haver eleições. A partir dessa iluminação, a “geringonça”, que era demonizada por ser esquerdista, passou a ser condenada por ser situacionista.

Essa contorção esclarece a difícil posição da direita. Os mesmos arautos que fustigavam António Costa por estar manietado pelas exigências dos partidos de esquerda e que anunciavam o consequente apocalipse, registada a perda de tino do PS, que merecia justo castigo europeu, convenceram-se agora de que o contrário é que se aplica, os tais partidos de esquerda é que, coitados, se arrastam sob a vergasta do PS, que lhes ensina razão e obediência. É difícil de perceber o que pensam Passos e Cristas no meio deste labirinto intelectual: quando acusavam o PS de se esquerdizar, percebia-se a sua indignação pelo fim do consenso da austeridade; quando acusam o PS de subordinar os recalcitrantes, percebe-se menos o que os indigna nesse putativo regresso do consenso.

Gráfico 1 - Dados da Eurosondagem (Expresso e SIC) desde o momento da sua última sondagem antes das eleições legislativas)

Gráfico 1 - Dados da Eurosondagem (Expresso e SIC) desde o momento da sua última sondagem antes das eleições legislativas)

É portanto constrangedor ver o acabrunhamento parlamentar do PSD e do CDS, reduzidos a pedir ao Bloco e ao PCP que se oponham a medidas que são o santo e a senha das suas própria regras orçamentais e a recusarem apoiar as iniciativas destes partidos quando o fazem, como na nacionalização do Novo Banco. Afinal, não gostar do PS por se afastar e gostar menos ainda por se aproximar constitui uma bússola alucinada. A não ser que, simplesmente, Passos e Cristas estejam em transe pela queda nas sondagens e por temerem realmente que Costa possa ambicionar a maioria absoluta.

Vejamos então os números. O primeiro gráfico mostra o que há de realidade e fantasia nessa hipótese, registando os dados da Eurosondagem (Expresso e SIC) desde o momento da sua última sondagem antes das eleições legislativas).

Gráfico 2 - Regista os dados da Aximagem (divulgada pelo Correio da Manhã e Jornal de Negócios)

Gráfico 2 - Regista os dados da Aximagem (divulgada pelo Correio da Manhã e Jornal de Negócios)

O segundo regista os dados da Aximagem (divulgada pelo Correio da Manhã e Jornal de Negócios).

O terceiro gráfico resume os dados da Aximage, mas desta vez comparando somente os resultados da soma BE+PCP com a do PSD+CDS. Percebe-se o problema, não se percebe? A direita, que não consegue enfrentar o governo, usa a estratégia de disparar sobre a esquerda, dado que a diferença entre os dois blocos é cada vez mais reduzida. De facto, está simplesmente a reconhecer que não tem energia nem resposta ao problema da governação e que agora já só teme esta rápida redução da diferença eleitoral em relação à esquerda.

Gráfico 3 - Resume os dados da Aximage, comparando os resultados da soma BE+PCP com a do PSD+CDS

Gráfico 3 - Resume os dados da Aximage, comparando os resultados da soma BE+PCP com a do PSD+CDS

Os dois centros de sondagens, que são os que analisam mensalmente a evolução de uma amostra de eleitores, concluem portanto o mesmo: a subida do PS é o resultado da queda do PSD e CDS, mas está ainda longe da maioria absoluta, enquanto os partidos de esquerda mantêm a sua posição ou conseguem mesmo um ligeiro reforço. Como aliás se compreende imediatamente, este mapa eleitoral é o que decorre do sucesso do governo e da confiança que ele criou; se o governo procurasse um incidente ou criasse uma crise para disputar eleições, é mais do que duvidoso que os seus resultados não fossem fortemente penalizados. Consequência: continuidade, mesmo com negociações difíceis, como se notou no salário mínimo ou nas pensões, ou agora nos escalões do IRS. Então, a teoria do sequestro, seja do PS pela esquerda, seja desses partidos pelo governo, é só uma curiosíssima brincadeira e mais vale tranquilizá-los: saibam que Costa é o primeiro a saber que não tem maioria absoluta e, se o tentar, ficará ainda mais longe de o conseguir.

Se o problema de Costa é não se mexer parecendo que se mexe, o da direita é mexer-se parecendo que não fica no mesmo sítio. Ora, toda a conversa prova que a direita sofre as sondagens mas ainda não se conseguiu organizar para responder ao governo. Por isso, dispara em todas as direções - António Costa, Catarina e Jerónimo de Sousa deviam enviar ramos de flores aos líderes das direitas todas as semanas.

Em todo o caso, a teoria do sequestro tem ainda outras entoações. Ou no anúncio do gesticular desesperado de greves salvíficas, ou na análise de uma normalização que aplane as diferenças numa banalidade social-democrata, diversos comentários bebem desta presunção de fim da história, pelo menos a eleitoral.

No entanto, quem lê estas linhas perdoará que destaque outros comentários mais vibrantes, por exibirem a angústia dos jornalistas-militantes entre os quais, à direita, se destaca o homem do CDS que anuncia simultaneamente que vivemos num Estado Novo de terror ideológico mas que os seus agentes fazem o que deviam fazer, tão sensatos que eles agora são, ou o que entende insultar o PCP com a comparação com Le Pen, um must destas lides, ou Henrique Raposo, o mais confiável de todos os misóginos, que volta ao seu tema de sempre, nunca nos deixa ficar mal, ou ainda o editor do Correio da Manhã que, assim como assim, revela que Catarina é só “mais daeshista do que o Daesh”. Como é que não haviam de andar perdidos?

Na imprensa e na política, esta direita tem o que merece.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 21 de abril de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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