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Valemos mais com paz

O Governo Regional dos Açores e o Governo da República procuram alimentar o apetite belicista de Trump, ao pretenderem colocar deliberadamente os Açores no mapa da guerra.

É num contexto de perda gradual da importância do país, enquanto membro da NATO, mas sobretudo como aliado dos EUA, que a diplomacia nacional faz tudo para não problematizar o cumprimento dos desígnios da Administração norte-americana, ao teimar em cultivar uma relação de subserviência total.

A postura diplomática de subserviência face aos EUA não é inédita, nem mesmo se tal atitude obriga a colocar em causa a saúde pública dos terceirenses.

Durante as décadas de 60 e 70 do século passado, a Praia da Vitória foi polvilhada com DDT pelos militares norte-americanos estacionados na base das Lajes, sem que se conheçam, até aos dias de hoje, os resultados de tais ações.

No período da guerra fria silenciaram-se todos aqueles que lançaram suspeitas sobre a passagem e armazenamento de armas nucleares, enquanto os aquíferos da Praia da Vitória foram sendo poluídos gradualmente pelos tanques de armazenamento de combustível que serviam para abastecimento à atividade militar norte-americana na base das Lajes.

Com uma base das Lajes em pleno processo de preparação para a sua conversão em “base adormecida” pelos seus inquilinos, estala o escândalo da contaminação dos aquíferos da Praia da Vitória suportado num estudo encomendado pelos próprios norte-americanos a uma empresa alemã que deu conta da presença e hidrocarbonetos nos aquíferos.

O cônsul norte-americano nos Açores, em resposta, anuncia que os EUA contratualizariam trabalhos de descontaminação, que por pressão da oposição, na Região, foram acompanhados pelo LNEC, entidade responsável pela emissão de relatórios críticos sobre a evolução dos esforços realizados, ao ponto de, no último relatório publicado, dar conta da estagnação desses mesmos trabalhos.

Enquanto decorreram os trabalhos mínimos de descontaminação também foram desenvolvidas iniciativas diplomáticas para vender a importância geoestratégica dos Açores aos interesses militares norte-americanos, acompanhados por movimentações do Governo Regional, e do PSD/Açores, junto de congressistas norte-americanos luso-descendentes, com especial destaque para Devin Nunes – um fiel seguidor das políticas de Trump – que colocou em causa a decisão dos democratas do “downsizing” da base das Lajes.

O Governo Regional e o Governo da República procuram alimentar o apetite belicista de Trump, ao pretenderem colocar deliberadamente os Açores no mapa da guerra, como expediente para pagar a sua quota de membro da NATO, conhecidas que são as exigências da nova Administração norte-americana para que os seus aliados aumentem as suas responsabilidades financeiras.

A saúde pública dos terceirenses pode ser, se já não é, instrumentalizada para que Trump venha a demonstrar interesse em aumentar o contingente militar na base das Lajes, num quadro de subserviência total em que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não hesitou em assumir, publicamente, que os 160 milhões de euros, por ano, durante 15 anos a serem exigidos ao poluidor valem zero.

Se ficámos chocados com o recente recuo diplomático de Portugal face à Espanha, no caso de Almaraz, o recuo quanto à responsabilidade dos norte-americanos pela sua pegada ambiental na base das Lajes não é menos importante.

Os Açores não podem estar à venda, nem à disposição de Trump. Temos um enorme potencial, não só geoestratégico como também em recursos endógenos que devem ser aproveitados para fins civis, e com vista a um maior desenvolvimento da Região. Mas para cumprir esse desígnio, há que ter a determinação para rejeitar a nossa manutenção no mapa da guerra como uma inevitabilidade. Porque se é verdade que valemos muito mais do que zero, também valemos mais com paz do que pela guerra.

Sobre o/a autor(a)

Deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Membro do Bloco de Esquerda Açores. Licenciado em Psicologia Social e das Organizações
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