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A reciclagem política de Trump em Portugal

Paulo Portas pretende desde já sinalizar que ele próprio e, eventualmente, o seu partido podem ser, em Portugal, o megafone do Trumpismo.

Em Portugal, o processo de reciclagem política e ideológica de Donald J. Trump, temo-lo visto desde o dia da sua eleição, tem estado, sobretudo, a cargo dos cronistas do Observador. Todas as semanas, quando não todos os dias, lá encontramos exercícios argumentativos peregrinos, ainda que esforçados, convém admiti-lo, muitas vezes a pisar a linha de fronteira do inusitado, mas que têm feito o seu caminho, plantando as sementes necessárias para legitimar, por via da "normalização", a retórica e a agenda de Trump.

Essa tentativa de legitimação, que visa, no essencial, colocar a xenofobia, o racismo, o negacionismo climático, o machismo e misoginia no leque de opções normais, naturais e aceitáveis à disposição das sociedades, "tão legítimas como outras quaisquer", tem assentado em duas estratégias distintas.

A primeira, mais elabora e de fundo, mas menos inteligível, é da hegemonia do “marxismo cultural”. Pressuposto fundamental desta tese é a assunção da hegemonia cultural do marxismo nas sociedades ocidentais, isto é, a consideração segundo a qual se verifica nestas sociedades um consenso, inspirado e promovido pelo marxismo, nos termos do qual a igualdade, nas suas múltiplas dimensões (racial, de cor, de origem étnica ou nacional, de religião, de sexo, de orientação sexual ou de identidade de género), viu o seu estatuto e dignidade elevada de tal forma que qualquer pequena manifestação de oposição a alguma das suas dimensões não pode deixar de ser considerada como politicamente inaceitável e indefensável. Ora, segundo os adversários do “marxismo cultural”, esse consenso deve ser derrotado ou, no mínimo, reformulado, deixando de abranger alguma daquelas dimensões do princípio da igualdade, em especial as que proíbem todas as discriminações xenófobas, racistas e sexistas.

A segunda, menos sofisticada, mas mais eficiente é a que reclama a legitimidade política e democrática da agenda de Trump por via da “associação”, isto é, mobilizando exemplos e opções políticas concretas dos seus adversários políticos, de anteriores administrações americanas ou de governos de outros países, cujo conteúdo, muitas vezes apresentado de forma descontextualizada, é no essencial idêntico ao preconizado pelo atual presidente americano. Trata-se, pois, de uma estratégia que, ao contrário da anterior, não reivindica, nem tenta justificar ou fundamentar o eventual valor próprio da agenda de Trump, limitando-se a conferir-lhe legitimidade e respeitabilidade através da associação à agenda, prosseguida amiúde, por forças e agentes políticos do establishment.

Mas se o observador tem cumprido esta função de reciclagem política e ideológica de Trump, não deve desvalorizar-se a disponibilidade de Paulo Portas para assumir o papel de ecoponto do Trumpismo em Portugal. Fá-lo com a habilidade e inteligência política que todos lhe reconhecem, começando por separar a agenda ultra-liberalizante e desregularória preconizada por Trump em matérias económicas daquela que tem defendido, por exemplo, em matéria de imigração, cuja paternidade, advoga, até é no essencial de Obama. Assim vistas as coisas, Trump limitar-se-ia a dar sequência à agenda de Obama, a quem deveriam ser assacadas as principais responsabilidades políticas, e não ao atual presidente americano. E assim, duma assentada, se cumprem dois propósitos: atribui-se legitimidade política à agenda restritiva de direitos propugnada por Trump por associação às opções da administração Obama, bem avaliada pelo establishment, e direcionam-se as críticas desta agenda para o anterior presidente americano.

Não é novo este abrir de portas à agenda da extrema-direita do antigo líder do CDS. Todos nos lembramos dos tempos em que o CDS, fragilizado politicamente e em queda livre, fez do preconceito social contra a comunidade cigana ou contra os beneficiários do Rendimento Social de Inserção arma de arremesso eleitoral. Não esquecemos também o tempo em que os julgamentos em processo sumário, que asseguram menos direitos e garantias aos arguidos, eram a principal bandeira do CDS em matéria de segurança e prevenção da criminalidade.

Pretendo com isto associar politicamente Paulo Portas a Donald Trump? Não necessariamente. Uma coisa parece-me, todavia, evidente. O Trumpismo vai fazendo caminho um pouco por todo o lado e Paulo Portas pretende desde já sinalizar que ele próprio e, eventualmente, o seu partido podem ser, em Portugal, o megafone desse movimento conservador. E isto é tão mais certo quanto mais se adensar a impopularidade dos múltiplos “arcos da governação”.


 

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