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A política da fachada ou a gestão comunitária da cultura

Reportagem do esquerda.net sobre o debate "Cultura em Comum, o caso de Barcelona", que se realizou este domingo durante o encontro "Que fazer com a cultura?".
Protesto Indignados em Barcelona, foto de Marta Perez, EPA/Lusa
Protesto Indignados em Barcelona, foto de Marta Perez, EPA/Lusa

O esquerda.net acompanha, através de uma série de reportagens, o encontro "Que fazer com a cultura?" que se realiza ao longo deste domingo no Porto. Esta é a reportagem sobre o último painel de discussão, subordinado ao tema "Cultura em comum, o caso de Barcelona", que contou com a participação de Marcelo Expósito Prieto, Jorge Louraço e Rui Matoso.

"A ideia de um paraíso neo-keynesiano pré-crise, pré-troika, onde as políticas culturais tinham financiamento e uma direção clara, é simplesmente impossível. Não é possível voltar a modelos intimamente ligados ao fortalecimento do neoliberalismo." Por isso, diz, "precisamos de encontrar novos modelos de governança".
Apresentou de seguida aquilo que a candidatura do En Comú Podem define como "co-gestão: "Uma forma de governação onde o poder institucional e o público participam", terminando o ciclo de subsidiação de gestão privada afastada

"Uma saída democrática da crise, entre o poder das empresas e o poder institucional, seria a saída cidadão de co-gestão comunitária dos equipamentos culturais".

Como exemplo, apresentou o exemplo municipalista de Nápoles, onde se criaram centros sociais de uso cívico em auto-gestão. Ou seja, para além de construir os equipamentos coloca-os num regime jurídico específico onde o princípio de gestão é comunitário, com participação popular organizada, ao contrário de um modelo onde se criam parcerias com entidades privadas, "privatizando de facto" a própria instituição.

Por isso, defende, é necessária uma reconstrução jurídica para novas formas que legitimem uma nova democratização, suficientemente resiliente para combater as alterações culturais do neo-liberalismo".

A política da fachada

A turistificação é um fenómeno cultural que alterou profundamente a forma como se olha para o investimento nas artes, defende Jorge Louraço: "Hoje, à questão - devemos aumentar o apoio às artes? - é sempre respondido - sim, se trouxer mais receitas." E isto, diz, resulta numa situação onde "temos um meio artístico/cultural - que vai da gastronomia ao artesanato - tudo empacotado para render mais".

"Estamos muito aquém de um movimento social que legitime um novo financiamento", prossegue. "O Palácio da Ajuda é a metáfora perfeita do atual sistema, com uma exposição [as jóias da coroa] concebida exclusivamente para a rentabilização, num palácio inacabado, apenas com fachada".

As contradições de classe

Jorge Louraço analisou também as contradições "entre individualismo dos artistas e coletivismo do serviço público". Após o 25 de abril, diz "o setor dos artistas e dos intelectuais passa a funcionar como um setor misto. Os grupos são semi-públicos. Os líderes dos grupos são patrões e são empregados ao mesmo tempo. Essa contradição vê-se nos teatros nacionais, nas associações profissionais e de classe, que ficam a ser como ordens, mais do que sindicatos. A prova disso é que até há pouco tempo, as medidas destas entidades eram apresentadas na secretaria. Um dos últimos protestos, em nome do Alkantara, termina com os do Alkantara no poder, repetindo o padrão." Por isso, questiona, "onde e como romper" o status quo?

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