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Valemos zero?

As declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, sobre a compensação reivindicada pela nossa Região aos EUA são um total desrespeito pela Autonomia.

A mensagem que passa é de que os Açores representam ainda menos do que um simples cenário onde se jogam interesses que claramente se sobrepõem à vida de quem por cá tem de se confrontar com as consequências ambientais, com implicações na saúde pública, sem esquecer as de natureza socioeconómica resultantes da presença e atividade militar norte-americana.

Se a Região vale o que os EUA entenderem que vale, para a República nada valemos, pelo menos, no que diz respeito à salvaguarda dos nossos aquíferos.

Santos Silva não hesitou, e só no dia seguinte tentou corrigir o mal que já estava feito, em fazer “tábua rasa” do princípio universal do «poluidor-pagador». Um princípio que deveria ser claro, objetivo e inegociável, mas que é arredado como se de algo incómodo se tratasse, para bem, não de uma relação de cooperação – como se tentar fazer crer para a opinião pública – mas para bem de uma relação de vassalagem, em que o vassalo tudo faz para não incomodar o senhor com assuntos menores, que não são mais do que o futuro da ilha Terceira.

É curioso constatar que Santos Silva está muito comprometido na missão de tentar pedir aos norte-americanos que reponderem a sua decisão de reduzir pessoal militar na base das Lajes, o mesmo que dizer de toda a política geoestratégica dos EUA para o Atlântico norte, mas simultaneamente nada comprometido na defesa da saúde pública dos terceirenses.

Não podemos também esquecer que Santos Silva, para além de desrespeitar a Autonomia também desrespeita a Assembleia da República, que muito recentemente aprovou, por unanimidade, uma Resolução, da autoria do Bloco de Esquerda, que exorta o Governo a iniciar diligências diplomáticas junto à Administração norte-americana para que cessem quaisquer focos de poluição/contaminação na Praia da Vitória e para que proceda a um trabalho cabal de descontaminação dos aquíferos, porque se tal não for feito com total rigor é a saúde pública dos terceirenses que estará em risco.

Se ainda em janeiro deste ano ficámos a saber que o Governo Regional considera que a água dos aquíferos da ilha Terceira é de excelente qualidade, um sinal óbvio de alívio da responsabilidade dos EUA (poluidor), agora, através de Santos Silva, ficámos a saber que não devemos exigir o quer que seja dos EUA.

A subserviência paga-se caro, e se nada for feito para contrariar tal estratégia, os terceirenses serão os primeiros a pagar, quer com a sua saúde, quer com o futuro da sua economia que estará sempre dependente dos humores dos norte-americanos.

Sobre o/a autor(a)

Deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Membro do Bloco de Esquerda Açores. Licenciado em Psicologia Social e das Organizações
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