You are here

O mistério Domingues

Não sei pois o que quer Domingues, que o possa levar a lembrar todos os dias ao país que quis uma lei especial, que quis 600 mil euros e que se recusou a mostrar a declaração de património.

António Domingues tornou-se para mim um denso mistério. Não o conhecendo pessoalmente, não tinha sobre ele qualquer parti pris, mas, sabendo do seu desempenho no BPI, elogiei a sua escolha para a CGD. Pareceu-me vantajoso sair do labirinto das nomeações políticas, escolher gestores com provas dadas e começar uma nova fase na Caixa. Esperava tranquilidade, cuidado e estratégia.

A primeira desilusão veio com a escolha dos 19 membros do conselho de administração (que o governo aceitou, e mal), incluindo representantes de grandes empresas que têm negócios com a Caixa e pessoas que não mereciam ter sido metidas ao barulho. A segunda desilusão veio com a dupla exigência de salários de exceção e da mudança do Estatuto do Gestor Público (que o governo também aceitou e também mal). Seiscentos mil euros para quem já tem uma reforma confortável é um pouco excessivo. Uma lei feita à medida de uma pessoa ou grupo de pessoas é certamente muito excessivo.

Os dois excessos demonstravam um facto que se tornou crucial nesta novela: Domingues e a sua equipa consideram-se acima do nosso mundo, pois exigiam um pagamento de mandarins e uma lei especialmente talhada à sua medida. Reclamavam ser reconhecidos como uma casta, imune aos deveres correntes do cidadão. A radicalização desta reivindicação de casta levou à insensatez da recusa da declaração de património, onde se perderam: o Tribunal Constitucional segue naturalmente a lei e obriga-os a todos a fazerem o registo, mesmo que só tenham passado algumas semanas no cargo; e, politicamente exposto o intuito, nem o governo nem o Presidente sustentaram esta teimosia.

De facto, Domingues e os seus podiam ter feito a declaração, que nada mais revelaria do que a evidência banal de já terem ganho muito dinheiro nas suas carreiras, e beneficiariam então da largueza do contrato que os empossou. Aparentemente, só não aceitaram a tal declaração por isso ofender esse seu sentimento de casta.

Não existe nisto qualquer particularidade nacional. Os banqueiros, ou muitos deles, recuperaram desde a crise de 2007-2008 um estatuto e um poder que permitiu que os acionistas e o público aceitassem compensações abundantes, mesmo quando os resultados são escassos. Em consequência, a autoridade de supervisão bancária europeia registou um aumento dos rendimentos dos banqueiros e, contando unicamente os 5142 que recebem mais de um milhão, temos uma conta calada de 10,3 mil milhões.

Na lista mundial, o “nosso” Horta Osório é o 11º banqueiro mais bem pago do mundo, com onze milhões, superado por gente como Jamie Dimon, da JP Morgan Chase, com 28, e Lloyd Blankfein, da Goldman Sachs, com 23 milhões, o que acordou alguns movimentos para a realidade da trapaça financeira desenvolvida por certas generosas instituições (veja-se o recente artigo de George Clooney e John Prendergast sobre os bancos ingleses). Tudo isto bem acima de um Domingues, que poderia chegar a receber um pouco mais de 600 mil, e mesmo acima daquele banqueiro português que, nos bons tempos do BCP, chegou aos três milhões. Mas impor uma lei especial para si próprio, isso não sei se os outros conseguiriam.

Temos portanto a afirmação de casta no cerne de toda a questão. Mas a partir daí é o mistério: o que quer o homem? Depois de substituído, Domingues iniciou um périplo de encontros com as mais improváveis pessoas, foi falar com jornalistas, a uns apresentou argumentos e a outros mostrou mails e SMS. Encarregou um amigo de levar ao Presidente as suas comunicações privadas não se sabe com quem. E tudo isto com uma alegria que contagiou os dirigentes do PSD e CDS e os animou a lançarem a movida das suas vidas, sugerindo arrastar para a barra de uma comissão de inquérito o Primeiro-ministro e, em pessoa ou por interposta figura de Lobo Xavier, o Presidente, com quem têm tanta conta a ajustar. Tudo isto precisa da suspeita mas também de se manter a ignorância dos SMS; entretanto, os jornais que já os conhecem não fizeram deles nada de entusiasmante e competência para tal não lhes falta.

Não sei pois o que quer Domingues, que o possa levar a lembrar todos os dias ao país que quis uma lei especial, que quis 600 mil euros e que se recusou a mostrar a declaração de património (e que ninguém mais se pode arriscar a mandar-lhe uma mensagem privada). Vingança, não pode ser: ele tornou-se a principal vítima da imprensa sobre o caso. Reparação, também não: é tudo irreparável, do erro do governo às suas próprias escolhas.

A minha pergunta então é só esta: dentro de uns meses, de que nos lembraremos? De que houve um banqueiro em que confiámos que nos disse que não confiava em Portugal e que portanto não cumpria a lei que foi concebida para prevenir a corrupção, por ter um direito especial de casta, ponto final.

Artigo publicado em blogues.publico.pt 21 de fevereiro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
Comentários (2)