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Os pinguins da Autoeuropa e os macacos do sótão do negacionismo de esquerda

Raquel Varela tem escrito uma série de textos sobre as alterações climáticas, apelidando-as de um “dogma” que apenas serve para alimentar o capitalismo verde.

Nos últimos dias, Raquel Varela tem escrito uma série de textos sobre as alterações climáticas, apelidando-as de um “dogma” que apenas serve para alimentar o capitalismo verde e esconder os verdadeiros problemas dos trabalhadores. Argumenta que, a existirem, as alterações climáticas serão um problema daqui a 50 anos e o importante é "salvar a vida dos trabalhadores hoje com a mesma dedicação com que se salva a de um pinguim amanhã”1. Esta tese à esquerda já é antiga, mas é uma novidade em Portugal, pelo menos colocada nestes termos. Ela baseia-se em quatro aspetos que merecem atenção:

O primeiro é uma ideia parola sobre a ecologia e o ambiente, que secundariza estas questões no plano político. Raquel Varela justifica o compromisso com as alterações climáticas pelo seu percurso de “cidadã mais ou menos exemplar”, que “recicla”, que “anda de bicicleta” e que “come comida biológica” 2. Porém, a política a sério é a que se debruça sobre as questões fundamentais do capitalismo: a pobreza, a indústria, o trabalho e a guerra. A crise ecológica é do domínio do lifestyle… Felizmente, todos os modelos de organização de sociedade que assentam em visões antropocêntricas evoluíram no reconhecimento dos ecossistemas na preservação da vida humana e dos efeitos nefastos das crises ecológicas na saúde pública e na economia. Para quem não parou no tempo, é evidente que o debate ambiental não é um capricho de quem gosta dos animais e das plantinhas, é um espaço de disputa política como outro qualquer. Assim, a tese de que de um lado está quem defende os ecossistemas e os pinguins e do outro quem defende as pessoas, seja por ignorância ou por populismo, acrescenta pouco ao debate.

O segundo é ignorar que, a existirem, os efeitos do aquecimento global têm uma dimensão de classe, que torna os trabalhadores e os mais pobres nos principais interessados em evitar uma catástrofe ambiental. E não é daqui a 50 anos, é hoje. Na remota hipótese de 97% dos cientistas estarem certos, sabemos que as alterações climáticas já criaram até agora milhões de refugiados climáticos, já retiraram o acesso a água várias populações, especialmente em África e na Ásia, e já destruíram centenas de milhares de hectares de terreno agrícola. As vítimas desta hipotética catástrofe, que é dos maiores consensos da ciência, são sobretudo os pobres sem acesso a cuidados de saúde, são mulheres que caminham dezenas de quilómetros por semana para trazer água para as suas famílias, são pequenos agricultores sem capacidade de investimento em infraestruturas (por exemplo estufas) para manter as suas produções agrícolas. O aquecimento é global, mas o impacto é nos mesmos do costume. Se os 97% de cientistas estiverem certos, a vida de 2 mil milhões de trabalhadores (e não de pinguins) depende de ecossistemas frágeis, ameaçados pelas alterações climáticas. São estes os principais interessados em evitar a catástrofe. A posição de Raquel Varela é uma não solução: cabeça na areia, fé nos 3% e umas generalidades sobre a Autoeuropa.

O terceiro é o argumento de que o debate sobre as alterações climáticas só serve para alimentar o capitalismo. É verdade que o capitalismo se apropriou do tema, se reinventou sob a forma de tecnologia verde, criou as suas narrativas e os seus mecanismos de mercado sem resolver nada. Mas a apropriação e a mercantilização de tudo, inclusive da luta contra si próprio, é uma marca do capitalismo, o que nunca foi argumento para diminuir a validade dessas mesmas lutas (não é pela coca-cola patrocinar várias marchas LGBT que a causa perde sentido nem isso exclui outras possibilidades de organização anticapitalista). E é aqui que este argumento se torna perigoso. Para além de ser derrotado à partida, não cria soluções nem mobiliza e ignora as repostas às alterações climáticas que têm surgido fora do capitalismo, principalmente aquelas que denunciam precisamente a incapacidade do capitalismo verde fazer face ao problema3.

O último aspeto é a razão pela qual não devemos ignorar textos como os da Raquel Varela, que certamente irão surgir à esquerda nos próximos tempos. Ao contrário do que diz a autora, o aquecimento global não é uma questão “dos especialistas” sob a qual interessa “duvidar” e divertirmo-nos “com a polémica”. Ele levanta uma nova possibilidade histórica que a esquerda nunca equacionou: o capitalismo pode destruir o planeta antes de se destruir a si próprio. Não ignorar esta possibilidade é o mínimo que se exige a quem quer defender os trabalhadores, principalmente no momento em que Donald Trump prepara mais uma era de política de carbono, de guerra e de ataque aos recursos.


Sobre o/a autor(a)

Investigador na área de Sistemas de Energia
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