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Eleições já pelos 7 euricos e pela Padaria Portuguesa

Finalmente, temos alguém que sabe falar com Dijsselbloem. E não é Assis, é o da Padaria.

Mas, de tudo, a zanga das associações patronais, os avisos insistentes do Presidente, a surpresa das casas de apostas sobre as votações do PSD, as críticas de barões e dos antigos dirigentes laranjas, os apelos comoventes ao respeito pela concertação social, de tudo isso o mais engraçado foi mesmo o apelo a eleições antecipadas.

O protagonista foi Francisco Assis, que de vez em quando dá prova de vida com um augúrio aterrador sobre riscos criados pela maioria parlamentar ou lembrando que a “Europa” está aborrecida e preferia voltar ao caminho seguro de um bloco central e que, como bons alunos, melhor faríamos em seguir o manual de instruções da austeridade. Desta vez, a situação assim o exigia, foi um pouco mais longe, exigindo eleições antecipadas. Portanto, a cumprir Assis, o PS declararia que estava chocado com a rejeição da redução da TSU dos patrões e que a Pátria precisaria de clarificação sobre tão augusto assunto, demitindo-se o Primeiro-Ministro, levando o Presidente a convocar o Conselho de Estado e, num frenesim assustado, a marcar eleições, que seriam lá para Abril, dado que a questão da perda dos sete euros pagos pelo Estado ao patrão por cada trabalhador em Salário Mínimo seria fatal para a credibilidade de Portugal e o povo teria que dar maioria absoluta aos tais dos sete euros.

A coisa em si não precisa de grande dialética para se definir como é, uma brincadeira. Não é pensamento político, não é estratégia, não é condução governamental, não é ofensiva, não é defensiva, é só brincadeira. Eleições em Portugal, e bem colocadas entre as eleições francesas e as alemãs para animar um pouco mais a Europa, mas as nossas por causa de esplêndidos sete euros, essa seria a escolha mais delirante de quarenta anos de democracia.

Assis pode pensar que a fronda que se ergueu em sua defesa é sinal de impacto ou até de respeito. Desengane-se. Se Paulo Rangel, do PSD, rasga as vestes para proteger a liberdade de expressão de Assis, ou outros no mesmo diapasão, que coitado do homem que é minoritário no PS, que fez uma proposta ao governo para se demitir e convocar uma crise e o governo, vejam só o atrevimento anti-democrático, cheio de tiques autoritários, respondeu que não estava interessado, então se esta é a defesa de Assis, é mesmo por não ter defesa alguma. Como ele saberá muito bem, os que choram a ofensa que foi feita à sua opinião por alguém dela discordar nada têm a dizer em abono da sua tese e só pretendem aproveitar a oportunidade para elogiar uma crise que temem mais do que ao demo.

O facto simples é que o PSD não quer eleições, seria o pior dos mundos possíveis. Marcelo não quer eleições, seria um desastre para a sua estratégia de médio prazo para recompor a termo um bloco central. A esquerda não quer, porque sabe que uma crise leviana seria prova de irresponsabilidade. E o PS não quer nem pode, porque transformaria uma promessa de seriedade para resolver problemas de fundo num jogo imediatista, e nem sequer um bom jogador se pode apresentar ao povo como querendo usá-lo para um jogo. Uma farsa, portanto.

Ora, há um problema a bordo e não é pequeno. Chama-se Eurogrupo e Schäuble, que nos lembraram esta semana que são precisas mais “reformas estruturais”. Era por causa do défice? Têm o défice mas afinal era por outra coisa, as tais das “reformas estruturais”. Convém mesmo ouvir o senhor da Padaria Portuguesa, porque ele sabe o que é isso: despedir à vontade, fazer trabalhar 60 horas e pagar o mínimo possível. Finalmente, temos alguém que sabe falar com Dijsselbloem. E não é Assis, é o da Padaria.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 27 de janeiro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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