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G20: As crises emergentes

Há cerca de um ano e meio, entre 14 e 15 de Novembro de 2008, o G20 foi ressuscitado, na forma de cimeira, sob o mote de uma reforma necessária e urgente no sistema financeiro internacional. Embora esta proposta não representasse exactamente uma novidade - o mesmo arranjo já havia sido experimentado na ressaca das crises que assolaram as economias emergentes nos anos 90 -, o seu impacto mediático foi enorme.

A profundidade e a dimensão da crise financeira de 2008, a imprevisibilidade das suas consequências a nível mundial, e a consciência de que ela havia sido gerada precisamente no centro das economias capitalistas "desenvolvidas" geraram as condições necessárias para que as atenções se concentrassem nestes novos protagonistas.

Houve até quem, por excesso de entusiasmo, chamasse Bretton Woods II àquela primeira cimeira do G20, realizada em Washington ainda sob a égide de George W. Bush, mas já após a vitória eleitoral de Obama.

Na reunião do G20 em Londres, em Abril do ano passado, as expectativas (de quem as tinha) ganhavam novo fôlego ao reunir agora o recém empossado Obama com potências emergentes como o Brasil, a Índia ou a China, conhecidas pela sua capacidade reivindicativa em torno de temas como a reforma financeira ou a injustiça dos termos de troca. O G20 assumia-se como um fórum de discussão alternativo, donde sairia o impulso para uma nova arquitectura financeira mundial.

O discurso então proclamado era de ruptura clara com cultura reguladora permissiva e o obscurantismo que haviam permitido que um crash de tal dimensão tivesse detonado nas suas economias sem aviso prévio.

Um ano passado sobre a reunião de Londres de 2 de Abril de 2009, o momento é de balanço.

Poderemos facilmente concluir que o tom das declarações acompanhou passo a passo a recuperação das taxas de lucro. Um ano depois, vejamos o que aconteceu ao G20 que prometia o fim dos offshores, a supervisão das agências de rating, a regulação sistematizada das transacções financeiras e a moralização das remunerações dos executivos.

Após mais um encontro dos ministros das Finanças e Presidentes dos Bancos Centrais dos vinte mais poderosos, realizada no final de Abril deste ano, ficámos a saber que as potências emergentes, embora de acordo quanto à "necessidade de reformar o sistema financeiro internacional, divergem sobre os detalhes desse processo".

Os países emergentes discutiram e puseram-se de acordo quanto às suas necessidades específicas. Segundo o Brasil, a taxação é mais adequada para as economias que tiveram prejuízos financeiros pela actuação dos bancos ou das instituições financeiras, "nós não tivemos disso". Já a China concorda com o fim dos paraísos fiscais, "desde que Hong Kong e Macau não sejam incluídos na lista". Sobre o FMI, por todos eles contestado nos anos 90, a posição não difere: nada contra os princípios, desde que os outros sejam favoráveis a partilhar o poder de decisão.

Não tenhamos dúvidas, a boa vontade do G20 para enfrentar de forma responsável esta crise é sincera e o seu ímpeto reformador é absoluto, mas fora das suas fronteiras. E assim se põem de acordo os novos protagonistas que nada têm a aprender com esta crise.

O G20 serve, afinal, os mesmos interesses que serviu o G8 e o G7 antes dele. E esta é a variável mais constante que temos em tempos conturbados: liderados pelos Estados Unidos, os G's serão muitos, impostos pelas necessidades de cada crise, mas sempre com o mesmo objectivo: evitar uma qualquer posição anti-hegemónica ou alternativa no sistema capitalista mundial.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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