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Trump 2020

Trump a ser Trump, petulante, nem melhor nem pior do que antes.

Imaginem um homem que acorda na Casa Branca, após a tomada de posse mais cabotina da história da democracia americana, sentindo ter perdido parte do brilho. É irresistível, começa a projectar o tédio. Arrasta-se monótono. Longe vai a campanha e a boa briga, distante está o percurso entre o candidato risível e o vencedor declarado. As saudades abatem-se, tumulares. Nem sequer é surpreendente. Trump é o eterno corredor competitivo que respira o ar lateral dos adversários para viver. Talvez por isso, 14 horas depois da tomada de posse, discursou na CIA para continuar a dividir o país e o Mundo, agora sem filtros, utilizando a sua regra e esquadro sem falar por uma vez ao/ou pelo povo americano. Falou sobre si, sem um pingo de sentido de Estado, enamorando-se continuamente da sua vitória contra todas as expectativas, recordando os candidatos republicanos que derrotou para conseguir a nomeação, terminando a projectar uma nova vitória eleitoral em 2020 quando tantos acham que não chega ao fim do mandato. A campanha continua.

Na sua cabeça, vive um fantasma e várias obsessões. Os 304 votos do colégio eleitoral foram suficientes para ganhar as eleições mas o voto popular atirou-o para 2,8 milhões de votos abaixo da sua concorrente. Trump não suporta perder, nem a votos. Daí à mentira vai um pequeno passo e o ensaio deu-se, após as eleições, no seu inefável Twitter. Agora, perante os congressistas, Trump mentiu novamente, responsabilizando o voto de 3 a 5 milhões de imigrantes ilegais pela perda da contagem popular. Um presidente eleito e de posse tomada volta a admitir a fraude eleitoral nas eleições que o elegeram.

Desde que jurou ser presidente, Trump mentiu sobre o tamanho da multidão na cerimónia, reavivou a guerra aberta com os jornalistas e a liberdade de Imprensa, compeliu jornais de referência como o "The Guardian" a apelar à formação de um consórcio para investigar as suas fraudes, viu a WikiLeaks do ex-amigo Julian Assange a prometer descascar os seus podres, fechou as contas em espanhol do site, Facebook e Twitter da Casa Branca no armário virtual de Obama, ameaçou com o fim da NAFTA, correu com todos os hispânicos da administração e reiterou a construção do muro, voltou atrás na divulgação da sua declaração de impostos ("Isso foi discutido nas eleições, as pessoas não quiseram saber", afirmou um seu conselheiro), viu o chefe do Ku Klux Klan a regozijar-se com a tomada de posse ("Conseguimos", disse), cancelou o apoio a qualquer organização no Mundo que discuta ou inclua a interrupção da gravidez como uma opção do planeamento familiar, assistiu às maiores manifestações planetárias de mulheres.

Trump a ser Trump, petulante, nem melhor nem pior do que antes. Sólido mas antecipável. Igual a si mesmo em campanha porque a campanha continua. A esconder a sua agenda política enquanto discute o tamanho da multidão. É fundamental não admitir as regras de ilusão que procura impor para o seu jogo.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 25 de janeiro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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