You are here

Escola pobre ou pobre escola?

Os resultados dos testes Pisa não permitem estabelecer relações de causa-efeito entre políticas/práticas e os resultados obtidos.

Vivemos num mundo que privilegia a competição virada para a exclusão em detrimento da solidariedade, e essa é uma razão para que se procure, deliberadamente, retirar conclusões simplistas, quando não mesmos simplórias, dos resultados dos testes PISA.

O alcance dos resultados dos testes PISA é relativo, e não se trata de uma mera opinião pessoal, mas sim do próprio relatório internacional do PISA que assume claramente que os resultados não permitem estabelecer relações de causa-efeito entre políticas/práticas e os resultados obtidos, o que permite é demonstrar quão semelhantes ou diferentes são os diversos sistemas de ensino, e que implicações essas semelhanças e diferenças terão para os alunos.

A democracia acarreta a democraticidade no acesso à educação, graças ao investimento na escola pública, mas traz uma nova exigência, pois perante uma vastidão de alunos torna-se necessário atender a uma enorme diversidade de maneiras de aprender.

Nos Açores, o insucesso escolar, sempre associado ao abandono e absentismo escolar, assinalam o fracasso das políticas educativas para contrariar a tendência para a reprodução social da pobreza e desigualdade social na escola pública. Não podemos continuar a ter uma escola pública incapaz de criar condições para que os alunos provenientes de famílias mais pobres tenham também sucesso escolar.

O PISA 2015 é perentório em concluir e recomendar que o combate ao insucesso escolar faz-se na escola, e pela escola, através da criação de condições que atenuem os efeitos da reprodução das desigualdades sociais, não pela prescrição de TPC, geradores de desigualdade no desempenho, porque os alunos de famílias com melhores condições socioculturais partem em vantagem, pelo que não será, certamente, pelo recurso a explicações fora da escola que a escola pública alcançará o objetivo de contribuir para a construção de uma sociedade menos desigual.

Essas são conclusões do PISA 2015 que também recomenda a adaptação daquilo que se ensina às necessidades e expetativas dos alunos, bem como a prestação de um efetivo apoio individualizado nas escolas, nos casos em que se verifiquem dificuldades de aprendizagem.

O apoio individualizado só poderá ser garantido por equipas multidisciplinares, constituídas por docentes e técnicos especializados, em verdadeira parceria com as famílias.

O PISA 2015 também aponta a diversificação curricular como desejável numa escola inclusiva que atende às diferentes formas de aprender, e até mesmo às mais variadas motivações e expetativas, uma recomendação que não pode ser confundida, porque é contraproducente, com percursos curriculares duais, iniciados na Região pelos programas vocacionais no ensino básico, que mais não são do que uma triagem de alunos, com o objetivo de facilitar a missão do Governo Regional que, dessa forma, cria verdadeiros guetos curriculares para onde são atirados os alunos com maiores dificuldades.

O Bloco de Esquerda não pode compactuar com políticas educativas que procuram atalhar caminho para alcançar um sistema educativo que aparenta ter sucesso, quando, na realidade, só agravará ainda mais um atraso estrutural, resultante de um desinvestimento na educação, de décadas, nos Açores, que não tem de ser uma inevitabilidade.

Artigo disponível em acores.bloco.org

Sobre o/a autor(a)

Deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Membro do Bloco de Esquerda Açores. Licenciado em Psicologia Social e das Organizações
Comentários (1)