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O marcelismo e o poder a meias

Na essência, o Presidente das piadas, não nos acha piada nenhuma e é adverso a qualquer solução de um futuro governo de esquerda.

Um ano de exercício de Presidente da República não é suficiente para balanço do cargo e do encargo. Mas dá para para perceber o essencial da linha e objetivos de Marcelo Rebelo de Sousa. Convém não nos prendermos muito em análises de personalidade que inundam os comentários mediáticos.

Ninguém pede coerência ao Presidente, já se banalizou a ideia de que já pensou tudo e o seu contrário sobre qualquer coisa. Ninguém pede contenção ao Presidente, já toda a gente se habituou ao verbo torrencial. O ritmo frenético dá parangonas de pop star. O tu cá tu lá precede umas selfies, Marcelo o selfie made man. O Presidente impa e desfere afetos. Quem não adora mitos ambulantes, entre o gracejo e a graça? Talvez por isso tudo, alguns lhe chamaram o anti-Cavaco, deixando para trás a esfinge distante de Aníbal, e assumindo o título do transeunte frequente, Marcelo.

O que conta é a ação política. E o que ela nos diz? Marcelo partilha com a direita, donde é oriundo, e com os socialistas, os designados "compromissos internacionais". É, em si próprio, um fator de neutralização de qualquer reivindicação junto à NATO, UE, FMI,etc, prevenindo o Governo para qualquer tentação de renegociar a dívida pública ou de alterar regras económicas no quadro europeu.

O Presidente usa o cargo para influenciar a governação e para ter uma participação política ativa em paralelo com os partidos. As competências do Presidente da República estão claramente descritas na Constituição da República Portuguesa. Não consta nela uma espécie de poder executivo a meias com o Governo. Note-se que o executivo, feliz com a coabitação, assume essa cumplicidade em áreas como o sistema financeiro, banco a banco, fiscalização de riqueza, ou acordos sociais à moda do patronato, entre outras. Ora, o procedimento de um primeiro-ministro sombra não é uma mera crítica, mas um facto. Não foi certamente um lapso o Presidente comparar-se com a atividade pública de Merkel, essa sim chefe de governo, numa entrevista televisiva. Este tipo de tendência vai acentuar-se. A questão que se põe é a dos condicionamentos em série a um Governo minoritário que depende de partidos à sua esquerda na Assembleia da República. O caso da TSU, um verdadeiro bónus aos patrões, e que foi pretendido, inspirado e enaltecido por Marcelo, prova esta tese e anuncia mais casos.

O projeto marcelista, embrulhado na retórica de afastar a crispação, é o desejo de regresso à alternância dos partidos ao centro, a saudade dos liberais europeístas. Na essência, o Presidente das piadas, não nos acha piada nenhuma e é adverso a qualquer solução de um futuro governo de esquerda. Aliás, dirigiu-se esta terça-feira ao Bloco de Esquerda, em termos que não lhe competem, exigindo que não cause impasses ao Governo e a "ele", pois claro.

Agora que muita gente acha Marcelo um parente de serviço, convém chamar a atenção de que, por mais que o Presidente fale de estabilidade do atual Governo, não o faz de borla...

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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