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Globalização S.A.

Já podemos fazer um balanço do que tem sido a globalização neoliberal (S.A.). Ela tem beneficiado imenso uma minoria.

O navio está com problemas e pode afundar. Lá dentro, na 1ª classe, a orquestra continua a tocar a mesma música. A pauta traduz-se em mais desregulação dos mercados, mais privatizações, mais poder e benefícios para as multinacionais, mais sacrifícios e precariedade para os trabalhadores. Esta insistência traduziu-se em tempos recentes no Acordo Económico e Comercial Global (CETA, sigla em inglês) entre a União Europeia (UE) e o Canadá (em processo de aprovação), e nas negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, sigla em inglês) entre a UE e os Estados Unidos da América (EUA).

São ideias-chave destes acordos: permitir que as corporações e os investidores possam processar os Estados (e obter indemnizações) por causa da aprovação de leis que interfiram com os seus lucros, e instituir tribunais privados de arbitragem de conflitos (pagos pelos cidadãos). Em suma, estes acordos visam proteger ainda mais os lucros das multinacionais (que já têm leis que as protegem) e limitar ainda mais a capacidade dos Estados protegerem os seus cidadãos. Vão muito além do comércio. Colocam interesses privados acima da proteção do ambiente, do consumidor e da democracia.

Já podemos fazer um balanço do que tem sido a globalização neoliberal (S.A.). Ela tem beneficiado imenso uma minoria. Podemos comprovar analisando a evolução do número de milionários e multimilionários em todo o mundo. Mas o mesmo não acontece em relação às pessoas em geral, nem dos países “desenvolvidos” nem dos países “em desenvolvimento”. Nos primeiros, os salários estagnam ou baixam e perdem-se empregos, nos segundos, os trabalhadores são brutalmente explorados.

Ha-Joon Chang no seu livro “23 Things They Don’t Tell You About Capitalism” defende que as políticas neoliberais, que enfatizam a baixa inflação, a maior mobilidade de capital e a maior insegurança (ou flexibilidade) laboral, beneficiam sobretudo os proprietários dos ativos financeiros, à custa da estabilidade de longo-prazo, crescimento económico e felicidade humana. Estas políticas que têm dominado as últimas décadas, aumentaram a frequência e extensão das crises financeiras. Contrariamente ao proclamado, não se tem verificado que a baixa inflação tenha encorajado o investimento e o crescimento económico.

Chang salienta ainda que os países ricos, nomeadamente os EUA e o Reino Unido, tornaram-se ricos através de uma combinação de protecionismo e outras políticas que atualmente recomendam aos países “em desenvolvimento” a não adotar. As estrelas económicas do passado e da atualidade (ex. China), seguiram políticas que vão quase totalmente contra a atual ortodoxia neoliberal do mercado livre.

Não se trata de defender o isolamento, o nacionalismo ou as guerras comerciais. A questão é existirem acordos internacionais que sejam benéficos para as pessoas em geral e não apenas para as multinacionais. Devem existir regras e restrições (baseadas em critérios sociais e ambientais) no comércio/investimento internacional e o protecionismo não deve ser descartado. Assim se regula a globalização.

Artigo publicado em: http://www.jornaleconomico.sapo.pt, a 07 de dezembro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Investigador e formador. Membro da Comissão Distrital de Lisboa do Bloco de Esquerda
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