You are here

Cuidado com o mar alto

Um Presidente brasileiro que se demitiu do seu cargo, instado a explicar-se, terá dito que era demasiada a pressão dos inimigos internos e externos.

Embora os brasileiros, como nós, tenham uma capacidade ilimitada de reinterpretar os dramalhões com uma boa anedota, e assim fizeram com esse incidente, a tipologia dos riscos parece razoável para qualquer outra circunstância de gabarito. Pois nós, como o dito Presidente, vivemos sob dois tipos de riscos, os internos e os externos, mesmo que eles não sejam o que parecem.

O pior dos riscos é o externo. Nada ameaça mais a economia portuguesa e a estabilidade política do que a instituição que mais reclama ser o garante da estabilidade, a União Europeia ou, em particular, a gestão do euro

O pior dos riscos é o externo. Nada ameaça mais a economia portuguesa e a estabilidade política do que a instituição que mais reclama ser o garante da estabilidade, a União Europeia ou, em particular, a gestão do euro. Portanto, estas instituições não são mesmo o que parecem. Se pedimos conselho ou instruções, o mais certo é obrigarem-nos a vender o Banif por cinco reis de mel coado ao Santander, garantindo antes uma generosa capitalização em benefício do projecto megalómano de concentração bancária na Península e na Europa. Se pedimos regras, aplicam-se rácios prudenciais à banca portuguesa como a nenhuma outra e, portanto, conduzem-se as agências financeiras ao desespero e tudo descamba em vendas insensatas ao primeiro flibusteiro que atraque no porto. Ou seja, o nosso risco em 2017 é que os mandantes de 2016 continuem o seu mister. Há quem chame a isto "o diabo" ou, em versão natalícia, a "vinda dos reis magos".

O segundo tipo de riscos é o interno. Não é o das oposições, que PSD e CDS são moedas de reserva de António Costa. Não é o das posições, pois em Portugal agora temos oposições e posições, que elas têm cumprido os seus compromissos. Não é do Presidente, que ele bem sabe quem o elegeu, para que o elegeu e como é que os afectos alisaram a sociedade portuguesa e o alcandoraram aos picos da fama, onde o conflito só poderia manchar a sua alvura. Mas é o da incapacidade social, da modorra, do vamos-esperar-que-isto-se-vai-resolver, da atitude coitadinha, da falta de determinação em enfrentar os problemas, do compromisso que arraste precariedade, desespero, emigração e empobrecimento como se fossem a sina nacional, o destino de ser português. Deixar andar, em resumo.

Temos portanto riscos externos e internos e nenhum é bem o que parece, pois são mais arrastados, mais permanentes, fazem parte da estrutura da nossa vida enquanto estivermos sob o cuidado destas instituições que nos pesam e destas políticas que nos atrasam.

Artigo publicado em “Jornal de Negócios” a 2 de janeiro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)