Presidenciais: a eleição de Marcelo e o resultado histórico de Marisa

Com a maior abstenção de sempre em eleições sem recandidaturas presidenciais, a vitória de Marcelo acabou por se traduzir na pior votação do atual Presidente, comparando com os seus antecessores. Com mais de 10% dos votos, Marisa Matias conseguiu superar o melhor resultado da área do Bloco e tornou-se a mulher mais votada de sempre para a Presidência.

30 de December 2016 - 15:32
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A história da campanha presidencial portuguesa de 2016 resumiu-se a uma questão: conseguirão os nove candidatos obter a maioria dos votos e obrigar Marcelo Rebelo de Sousa a uma segunda volta? As sondagens davam há muitos meses um apoio esmagador ao “Professor”, que se acabara de retirar do comentário televisivo que manteve por longos anos, cilindrando a concorrência das noites de domingo nas audiências. 

Com toda a habilidade política que lhe é reconhecida, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa afastou os partidos – ou melhor, as figuras mais marcadas da então maioria governamental PSD/CDS – para se entregar a uma “campanha dos afetos”, aproveitando os níveis de popularidade conquistados em antena, fugindo sempre ao conflito, mas também à clareza sobre o que seria o exercício do seu mandato. Acabou por cumprir o objetivo da eleição à primeira volta, mas com o menor número de votos de sempre em presidenciais sem Presidentes recandidatos.

Os restantes candidatos iam com a missão de o obrigar a uma segunda volta, mas alguns nunca conseguiram ultrapassar as suas próprias dificuldades. Na área socialista, António Sampaio da Nóvoa lançou cedo a candidatura e cedo se perdeu na indefinição do perfil da campanha que trazia, ficado refém do desejo de ver anunciado um apoio oficial do PS que nunca chegou a acontecer. Com o Partido Socialista à beira de perder por falta de comparência uma eleição presidencial, a candidatura de Maria de Belém nasceu como uma candidatura de fação dentro das lutas internas que tinham acabado de dividir o PS com a substituição de Seguro por Costa, e arrastou-se nos semanas finais de campanha em comícios vazios onde a candidata tentava defender a reposição das subvenções vitalícias aos políticos, enquanto as pensões dos trabalhadores continuavam cortadas.

À esquerda, o PCP apostou no ex-deputado madeirense Edgar Silva, um candidato com fraca notoriedade à partida e que nunca conseguiu inverter essa dificuldade. Os momentos de tensão que procurou criar nos debates com Marisa Matias, acusando-a de ter apoiado guerras imperialistas no Médio Oriente e na Líbia, ficaram para a história desta campanha como dos momentos de maior sectarismo entre candidatos de esquerda. O resultado final não chegou aos 4%, mostrando que essa estratégia de campanha não mereceu a aprovação do eleitorado comunista.

A candidatura de Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda, foi a única a conseguir corresponder ao resultado eleitoral obtido pelo partido nas legislativas realizadas três meses antes. Com 10.15% dos votos, Marisa Matias ultrapassou em número de votos a candidatura protagonizada 30 anos antes por Maria de Lourdes Pintasilgo, tornando-se a mulher mais votada de sempre para presidir à República portuguesa. Com uma campanha centrada nas críticas ao mandato do presidente cessante, Cavaco Silva, e na vontade de protagonizar o ciclo de mudança que acabara de afastar o governo da direita, Marisa Matias recolheu apoios e simpatia muito para além da área política do Bloco, o que se traduziu num resultado histórico.

Quanto aos restantes candidatos, o destaque da noite eleitoral foi para Vitorino Silva, conhecido como o “Tino de Rans”, com 3.28%. A campanha populista de Paulo de Morais, que procurou associar a generalidade dos partidos à corrupção em Portugal, obteve 2.16%, enquanto o socialista Henrique Neto não foi além dos 0.84%. Com votações residuais ficaram os candidatos Jorge Sequeira (0.3%) e Cândido Ferreira, que se recusou a participar nos frente a frente televisivos (0.23%).

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