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Um ano: o governo, o presidente, a oposição e a esquerda

O governo fez um ano mas quem fez a festa foi Marcelo.

O presidente, agora em modo “centrão não” – até quando? – enalteceu com exuberância os resultados alcançados e, claro, não desperdiçou a oportunidade para se incluir entre os obreiros do sucesso.

Mais que um super ministro, o presidente comporta-se como um segundo primeiro-ministro a percorrer uma longa caminhada eleitoral que fará dele, em 2021, um candidato sem opositor se, entretanto, as forças políticas continuarem no estado de encantamento anestesiado e acrítico com que olham para ele.

À direita, alguns estranham – e outros não lhe perdoam - a cumplicidade do presidente com um governo do PS apoiado pela esquerda no Parlamento. As sondagens ajudam a perceber. Na mais recente, 63% consideram bom ou muito bom o desempenho do governo e 71% acham que vai concluir a legislatura. Alguém esperaria que o presidente não quisesse reclamar, também para si, os louros de tão aplaudida evolução na política portuguesa?

A intervenção do presidente tem ajudado à estabilidade e ao ambiente que se vive no país, isso é indiscutível. Mas, convém que Marcelo não exagere, é ao governo e aos partidos que, no Parlamento, com ele se articulam e convergem que são devidas tanto aquelas sondagens como os bons indicadores económicos.

As sondagens revelam uma direita a afundar-se: apenas 12% admitem que o PSD governaria melhor e 2% acreditam que seria o CDS. Os partidos de direita estão em crise, a oposição transferiu-se para os comentadores e para os líderes das associações patronais. Nunca como hoje foi tão contrastante o que mostram as sondagens e os indicadores e o que dizem os comentadores e os patrões sobre o estado do país. Não faltará muito tempo para termos um remake do “Compromisso Portugal”: o poder do dinheiro quer o país nos carris e um PS de regresso às alianças do costume.

Há um ano fora do governo, PSD e CDS vivem a sua travessia do deserto de forma bem diferente. O CDS obedece a uma regra muito simples: desde que seja popular, defende hoje o contrário do que fez no governo, como se nunca tivesse governado, o PSD que pague sozinho a impopularidade.

Os centristas estão dominados pela obsessão de crescer à custa do PSD – a candidatura de Assunção em Lisboa persegue esse objetivo, mesmo que também sirva a consolidação da sua pouco convincente liderança. Apostado em polarizar a direita, o CDS afasta-se daquela direita moderna ao estilo do seu antigo líder para se assumir cada vez mais como uma força ultra conservadora, tradicional e próxima da Igreja. É a tradição que leva Assunção Cristas a vestir-se a rigor com o traje de cavaleira para visitar a feira da Golegã. E é a religião que a levará ao centenário de Fátima, quem sabe, com os três pastorinhos estampados na sua t-shirt da moda.

No PSD a obsessão é outra e bem diferente. Passos Coelho permanece refém da sua governação, a sua proposta para o futuro é fazer o país regressar ao passado, às políticas de austeridade e empobrecimento. “Atrás de mim virá quem de mim bom fará” é seguramente e sempre o primeiro e último pensamento do dia de Passos Coelho, enquanto espera que algum acontecimento extraordinário acabe com o governo. Alguém devia explicar a Passos Coelho que os provérbios não são como as leis da física, nem sempre se cumprem. Espera é a palavra que melhor define o estado do PSD: uns esperam por Santana Lopes, outros esperam por Rui Rio e outros nem sabem por quem esperam. Mas todos esperam que Passos Coelho saia de cena. Um partido que só espera, é um partido paralisado. Como bem se viu ao longo do debate do OE para 2017.

Um ano depois, a esquerda enfrenta difíceis desafios. A situação em Itália acrescenta turbulência e incerteza à UE. Quer o orçamento quer a CGD expuseram as limitações e os “pecados” desta governação. Não é possível continuar a recuperação dos rendimentos, apoios sociais, serviços públicos, direitos laborais, economia e emprego – e é isso que cimenta o entendimento à esquerda – sem mudar a política para o sector financeiro, a gestão da dívida e a relação com as instituições europeias. Com ou sem novos acordos, assinados ou só apalavrados, o que importa é encontrar soluções. Como há um ano.

Artigo publicado na revista “Visão” a 8 de dezembro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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