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A anti-democracia de Renzi e o lixo de Beppe Grillo

A reforma constitucional é proposta por Renzi como resposta a Beppe Grillo mas assume a essência do discurso da extrema-direita.

O resultado do referendo convocado por Matteo Renzi só surpreendeu pela margem de quase 20% de vitória do Não. À luz deste resultado, a decisão referendária de Renzi parece hoje um risco injustificável. Mas o que levou o primeiro-ministro de um governo com acordo estável nas duas câmaras (Parlamento e Senado) a acelerar o calendário político para um precipício cujos resultados poderão levar ao poder uma coligação de extrema-direita secessionista (Liga Norte) com o  M5S de Beppe Grillo?

A reforma constitucional é defendida por Renzi desde 2013 (então com o apoio de Berlusconi), mas a iniciativa Renzi-Boschi surge em Abril de 2016 com o intuito de retirar iniciativa ao movimento anti-sistémico que o M5S corporizava. Diagnosticando uma estagnação institucional como a fonte dos males de Itália, o primeiro-ministro italiano respondia com a concentração de poder executivo, o fim do regime de duas câmaras e a redução do número de deputados. Uma proposta essencialmente antidemocrática que levou ao apelo da Esquerda Europeia pelo Não, com uma base tão alargada quanto a Sinistra Italia, Jean-Luc Mélenchon e a Front de Gauche, ou Yanis Varoufakis.

Matteo Renzi colocou assim o Partido Democrático numa trajetória de esvaziamento populista para as eleições autárquicas de Junho 2016. Mas a vitória do M5S em Roma, elegendo Virginia Raggi para Presidente de Câmara e em Turim, onde elegeu Chiara Appendino, gerou uma pressão  a que Renzi respondeu em Setembro com a convocação do referendo para 4 de dezembro. Perante esta sucessão de eventos, a derrota de Renzi é uma vitória oferecida a Beppe Grillo, que assim se coloca na dianteira para a disputa legislativa que se avizinha.

Os seis meses de Virginia Raggi como Presidente de Roma revelam um cenário contraditório com a mensagem política do M5S que, à semelhança de Donald Trump, prometia “drenar o pântano” da estagnação institucional da capital italiana e os seus vários problemas. Para além de uma série de nomeações de pessoas ligadas a Gianni Alemanno (um ex-presidente de câmara da direita) garantiu um salário de 200 mil euros ao seu chefe de gabinete, que depois teve de despedir devido ao escândalo. Nomeou também Paola Muraro para dirigir o sistema de recolha de lixo da cidade, concessionado à AMA, uma agência sob controlo da máfia, sob investigação criminal e inoperante desde há alguns anos (provocou a demissão do último presidente de Roma). Sucede que Paola Muraro trabalhou como consultora externa da AMA nos últimos 12 anos, levantando questões de conflito de interesses, que Raggi recusa.

A experiência governativa do M5S em Turim e, sobretudo, Roma, será por isso um bom barómetro sobre o que esperar de um governo liderado por Beppe Grillo.

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