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“Mais um passo para um clima incompatível com a vida digna”

Se queremos a alteração climática abaixo de 1.5ºC ou pelo menos 2ºC enquanto asseguramos os direitos humanos, a justiça social e as hipóteses de uma vida digna para todos, é melhor não confiar nas promessas do processo oficial. Artigo de Christiane Kliemann.
Foto takver/Flickr

Chegou ao fim mais uma cimeira do clima da ONU e apesar da predominante retórica da esperança, a distância entre o objetivo de 1.5ºC ou 2ºC acordado no ano passado em Paris e os compromissos reais para atingir esse objetivo está longe de encurtar. Pior ainda, essa distância nem foi um dos temas das negociações deste ano em Marraquexe, embora o tempo corra: análises recentes publicadas sobre esta distância advertem que o mundo verá um aumento de temperatura entre 2.8ºC (Climate Action Tracker) e 3,4ºC (UNEP) mesmo se todas as promessas do acordo de Paris fossem implementadas por inteiro. Said Asad Rehman do Friends of the Earth Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte, explica desta forma: “A ciência é clara, só temos 3 anos até que o objetivo de 1.5ºC do acordo de Paris deixe de estar ao nosso alcance. As promessas em cima da mesa para estes 3 anos não vão conseguir essa meta, condenando na prática mais uns milhões de pessoas a pagar o custo da inação”.

Então não é surpresa que os defensores do ambiente e os ativistas da justiça climática tenham reagido com “extrema desilusão” aos resultados da cimeira, dizendo que foi “novamente forte em retórica e fraca em progressos reais, com os países ricos a não fazerem o suficiente para ajudar os países em desenvolvimento”. Lidy Nacpil do Asian Peoples’ Movement on Debt and Development afirmou: “Ouvimos falar tanto sobre a mobilização de fundos privados para enfrentar as necessidades financeiras climáticas, mas o envolvimento do setor privado não substitui as finanças públicas. São urgentes grandes quantias de financiamento público – em especial nos casos de adaptação às alterações climáticas ou enfrentar os impactos sobre as comunidades. Em Marraquexe, os países desenvolvidos só procuraram fugir e adiar as suas responsabilidades, insistindo em métodos altamente questionáveis para calcular as suas contribuições e disfarçar a sua insignificância.”

O modelo de prosperidade do hemisfério norte não é negociável

Tadzio Müller, da Fundação Rosa Luxemburg, vai mais longe e aponta o elefante na sala, ou o que Ulrich Brand chama de “modo de vida imperial”. Müller olha para a recusa em discutir a saída mais rápida dos combustíveis fósseis, os grandes buracos nos compromissos financeiros dos países desenvolvidos e a aplicação de mecanismos de mercado por parte de grupos de interesse como a verdadeira mensagem: o modelo de prosperidade do hemisfério Norte não é negociável. “As cimeiras do clima da ONU fingem que é possível combater a crise climática sem negociar de forma explícita quem é que, a partir de agora, pode continuar a consumir, produzir e voar à volta do mundo, e em que medida”. Para os ativistas pela justiça climática como Lyda Fernanda Forero, isso está no centro de qualquer solução climática social e ecologiamente sustentável e justa. Ela escreve: “É, em suma, o sistema económico baseado na exploração, extração, produção industrial e aumento do consumo. O próprio modelo capitalista é a principal causa da atual crise climática”.

Max Forshaw, 19 anos, um dos jovens delegados na cimeira, deu voz às preocupações da geração mais jovem: “Na COP 22, a falta de urgência condenou ainda mais os jovens, as futuras gerações e os mais vulneráveis à insegurança alimentar, escassez de água, fenómenos meteorológicos extremos e conflitos com origem climática. Enquanto jovens, iremos viver com as consequências destas negociações. A falta de ação deste ano aproxima-nos de um futuro com um clima incompatível com a vida digna”.

Mesmo agora, Mary Robinson, antiga presidente da Irlanda e Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, vê uma forte relação entre as alterações climáticas e as crises de refugiados e afirma que “a maior crise de refugiados deste a II Guerra Mundial deve-se em parte às alterações climáticas”.    

Raios de esperança no hemisfério Sul

Pelo lado positivo e “falando das iniciativas que tiveram lugar quase apesar das próprias negociações”. Azeb Girmai do LDC Watch afirmou “Uma réstia de esperança do que de outra forma seria uma COP sem brilho foi o lançamento da Parceria Global sobre Energia Renovável e Eficiência Energética, um belo exemplo do poder de colaboração entre países em desenvolvimento”.

“1.5 graus significa 100% de energia renovável, por isso é animador ver países em desenvolvimento tomar as rédeas, prosseguindo o sucesso da Iniciativa de Energia Renovável em África, enquanto os países desenvolvidos arrastam os pés. Agora, o nosso desafio enquanto sociedade civil é assegurar que as comunidades locais estão a desenvolver ativamente sistemas de energia descentralizados, inteligentes, focados nas pessoas – o que é a chave para um futuro próspero e sustentável.

Isto também se aplica à sociedade civil à escala global: se queremos a alteração climática abaixo de 1.5ºC ou pelo menos 2ºC enquanto asseguramos os direitos humanos, a justiça social e as hipóteses de uma vida digna para todos, é melhor não confiar nas promessas do processo oficial.

Para citar de novo Said Asad Rehman: “O resultado de Marraquexe não alterou o caminho perigoso em que estamos – são os cortes reais na poluição de carbono que importam. Olhando para 2018, podemos lançar os dados pela última vez para reforçar aquelas metas climáticas. O fracasso não é uma opção se prezamos o nosso planeta e as vidas dos nossos concidadãos”.    

Tendo em conta que está em jogo nada menos do que todo o nosso futuro, é uma loucura quase completa pormos todos os ovos no cesto da próxima COP.


 


Artigo publicado em degrowth.de. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

Christiane Kliemann é autora freelance e ativista do decrescimento. Integra a equipa editorial do portal degrowth.de

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