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Os últimos dias da humanidade

Diz quem percebe que é uma produção raramente vista nos teatros portugueses, de uma dimensão e grandiosidade que já não se usa e que raramente alguém arrisca.

Diz quem percebe que é uma produção raramente vista nos teatros portugueses, de uma dimensão e grandiosidade que já não se usa e que raramente alguém arrisca. Diz-se também que só poderia ser feita nesta casa, que acumulou sabedoria e recursos preciosos nestes tempos em que mesmo o que parece gigante tem que ser feito com pouco.

Falo de "Os últimos dias da humanidade", de Karl Kraus, levado à cena no Teatro Nacional de S. João, no Porto, com encenação de Nuno Carinhas e Nuno M. Cardoso. O livro, uma enorme epopeia sobre a Primeira Guerra Mundial é, pela sua complexidade e dimensão, quase uma impossibilidade dramatúrgica (como admite o próprio autor). Digo quase porque foi conseguido nas três peças, que podem ser vistas em maratona ou em separado, estreadas na semana passada.

Nenhuma descrição será justa, mas vale a pena tentar.

São 21 atores que se transformam em 200 personagens em permanente rodopio num palco transformado em arena onde o público se vê a si mesmo a assistir ao espetáculo. A exceção é António Durães, o brilhante e comovente Eterno Descontente, que durante as três peças opõe ao consenso que vende a Guerra como o sacrifício para a salvação eterna, a hipocrisia dos que com ela lucram e a degeneração de uma sociedade habituada à morte e ao sofrimento, o fim da humanidade.

Da imprensa criadora de equívocos e servil, aos podres consensos ao chauvinismo provocado e ignorante, são muitos os elos entre a Europa de 1914 e a de hoje. Percebe-se por isso a razão da sua escolha mas também deve ser reconhecida a coragem para o assumir.

As interpretações são vibrantes, o texto comovente, e a cenografia inesperada. Não percam.


Artigo publicado no Jornal de Notícias a 1/1/2016.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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