You are here

Levemos o humanismo a sério

O humanismo europeu tem essa desdita: vive melhor com passadeiras vermelhas do que com andaimes e enxadas.

O humanismo europeu tem dias. E tem dias há muitos dias. Há séculos. O humanismo europeu, que nasceu como uma abstração certamente generosa, foi o que foram todas as demais abstrações generosas: conviveu bem com culturas de discriminação concretas – contra os índios, contra os pretos, contra as mulheres. Agora contra os imigrantes.

O humanismo europeu dos últimos meses decidiu abraçar, e bem, a causa dos refugiados. Poucochinho, mas enfim. E, mais que tudo, é um abraço muito seletivo: o acordo da União Europeia com a Turquia ou a complacência com a xenofobia de Estado de Orban são monumentos gigantescos ao anti-humanismo. Além de que o humanismo discursivo para com os refugiados tem como companheiro íntimo o fechamento desumano aos imigrantes, alvo apriorístico de todas as suspeitas de falta de seriedade de propósitos quando não mesmo de criminalidade mal disfarçada. No mainstream europeu decidiu-se que fugir à guerra merece palavras de consolo, mas fugir à pobreza merece muros legais e desconsideração.

Os tantos milhares de imigrantes em Portugal que há anos esperam pela regularização que solicitaram preenchendo todos os requisitos que lhes foram exigidos pela Administração e a quem o SEF ou não responde ou responde exigindo discricionariamente mais um documento que não era exigido são um rosto marcante do anti-humanismo europeu e português. O discurso oficial de enaltecimento dos direitos humanos, da cidadania e das virtudes públicas dá cobertura, entre nós, a uma prática igualmente oficial que mantém milhares de imigrantes que trabalham no país, que aqui criam riqueza, que aqui contribuem para a segurança social de todos nós, a ficarem reféns de uma irregularidade que pediram para resolver e que lhes é imposta pela discricionariedade do Estado. Tantos homens e tantas mulheres que ficam à mercê de abusos no trabalho, na habitação, nos serviços públicos porque não têm a sua situação legal regularizada. Tantos homens e tantas mulheres que não podem visitar os seus familiares porque sabem que se saírem do país os podem proibir de voltar a entrar. Gente, tanta gente, que tem o azar de não poder ser candidata a um visto gold – porque, se o fosse, em vez de fechamento teria passadeira vermelha. Gente, tanta gente, que trabalha nas obras ou nas estufas. E o humanismo europeu tem essa desdita: vive melhor com passadeiras vermelhas do que com andaimes e enxadas.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 29 de outubro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
Comentários (1)