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A Venezuela poderá tornar-se ingovernável

Heinz Dieterich, criador do conceito que identifica o processo político venezuelano como Socialismo do século XXI, considera-se amigo do presidente Chávez, convida-o a reflectir sobre o seu desempenho como chefe de Estado e adverte sobre os perigos que o rodeiam. Identifica duas decisões fundamentais que, na sua opinião, marcam o momento político. A primeira é o despedimento, sem qualquer explicação, de Eduardo Samán, "o único ministro socialista e revolucionário que houve no processo bolivariano"; a segunda, a carta de Henri Falcón ao mandatário e a sua saída do PSUV para o PPT. Ambos os factos constituem uma viragem no processo bolivariano, cujo modelo está hoje em crise.

Esta é uma crise do Governo ou do Socialismo do século XXI?

A política do presidente não construiu nenhuma instituição que se possa dizer ser do Socialismo do século XXI nem fez um esforço sério para criar consciência sobre uma transição para este conceito. Recordo que em 2009 fez-se um sondagem, de acordo com a qual 70% dos cidadãos sentia que ninguém lhes tinha explicado o que é democracia participativa nem socialismo do século XXI.

Que elementos podemos encontrar no Governo que indiquem um caminho em direcção ao Socialismo do século XXI e que o diferencie dos anteriores?

Nenhum. Não há um esforço sério para construir uma economia pós-capitalista. Nada do que se fez na Venezuela é diferente do que se fez nos mercados europeus. Os programas sociais são muito positivos, mas nada disto é socialista.

Trata-se de uma farsa?

Quando o presidente usou o conceito de Socialismo do século XXI, no Fórum Social Mundial em 2005, tinha a intenção de explorar essa nova via. E a dada altura quebrou-se a vontade de criar a transição para essa sociedade pós-capitalista.

A oposição refere frequentemente que a Venezuela está a 'cubanizar-se' e teme que este modelo seja um repetição das coisas más do velho socialismo...

Perante os primeiros sintomas da crise de 2008, logo após perder o referendo constitucional, o presidente acreditou que era necessário uma maior centralização do poder. O que faltava era uma supervisão da execução das políticas. Todavia, remediar este facto através da centralização foi uma conclusão errada. Não se pode copiar elementos de centralização da economia cubana porque as condições em cada país são diferentes.

O passo dado pelo governador do Estado de Lara foi o adequado?

Todas as figuras públicas têm de actuar conforme a sua consciência. O critério para actuar eticamente é, por um lado, a legalidade; no entanto, por outro lado, é a moralidade e as luzes, como dizia Simon Bolívar. Portanto, se um funcionário pensa que o modelo de governo gera desastres, se vê que viaja a bordo de um Titanic e o capitão não vê o iceberg, é obrigado a expressar-se publicamente e a assumir a sua responsabilidade. Julgo que Henri Falcón fez isto. É um acto de civismo e valor.

O iceberg está próximo ou longe do presidente?

Está muito mais próximo do que se admite em discussões públicas. Por um lado, subestima o perigo; por outro, há uma crescente ansiedade perante a desordem no sistema de governo. O iceberg tem por base o bloco eleitoral de apoio à direita, que é cerca de 40%. Se a isto se juntar uma crise conjuntural forte, o apoio ao presidente pode cair significativamente e o país pode tornar-se ingovernável. A sociedade está dividida em dois grandes blocos. Isto é absolutamente instável perante uma eventual crise conjuntural. O desenrolar dessa crise pode ser problemas nas ruas, dinâmicas no Parlamento ou uma desobediência nos sectores militares.

Contudo, Chávez afirma que tem o controlo das Forças Armadas.

Dois meses antes do golpe de Abril, funcionários importantes, desde o ministro da Defesa, a vice-presidente Adina Bastidas e até o próprio presidente, disseram que não havia perigo. Fiz uma análise a Bastidas e à sua equipa. Dizia-lhes que o golpe surgiria dentro de quatro ou cinco meses. Ela respondeu que seria impossível porque Washington não o queria. E depois fiz a mesma exposição ao presidente. Ele disse-me que não poderia haver golpe porque os militares são seus irmão da Escola Militar. Se antes do primeiro golpe não viram que esse perigo existia, que garantias há de que hoje vão avaliar a situação correctamente?

Mas a situação é diferente de 2002.

Os organismos de informação são muito mais eficientes que então, mas isso não elimina o perigo.

Há uma conspiração ou a oposição está realmente a trabalhar para as eleições?

Os Estados Unidos sempre actuam em dois ou três cenários de forma paralela, e um deles é sempre a chamada revolução laranja, posta em prática na Europa Oriental. Financiam e mobilizam as pessoas, vem a eleição e o presidente perde. Outro é um conflito militar através de Uribe - Santos, que é um perigo real. Em ambos é necessário uma rede interna.

Que deve fazer o Executivo para recuperar o caminho da realização de um governo eficiente?

Chávez deveria reflectir sobre se o modelo de governo que foi bem sucedido de 2003 a 2008 é hoje funcional. Na minha opinião, não é funcional.

As rectificações requeridas estão à esquerda, ao centro ou à direita?

A maioria de venezuelanos reconhece que o governo trouxe coisas positivas. A reacção lógica das pessoas é querer conservar essa situação. Têm de ver o presidente como a garantia do seu futuro com paz interna e externa, com democracia real e prosperidade. Há fissuras nessa percepção. Quando o povo deixar de acreditar nisso, vai procurar outra força política. Por agora não a vêem porque os partidos de direita não são credíveis e os golpes ainda menos.

Retirado de SocialismoXXI

Tradução de Sofia Gomes

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, Professor Universitário
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