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Cabemos todos e todas na Rotunda do Relógio

Tentar atravessar a Rotunda do Relógio bloqueada por táxis é como apanhar o metro à hora de ponta, mas só a última se repete diariamente.

A luta dos taxistas é tão importante quanto a luta de qualquer trabalhador que se bata todos os dias por um salário geralmente injusto e insuficiente e é por isto mesmo que a luta dos taxistas não implica (só) a oposição à Uber ou à forma como funciona.

A mobilização dos taxistas está a gerar nos media e nas redes sociais a polarização da questão - Uber vs Táxis. Ora, esta não é uma guerra de uma frente ou de dois lados, nem se esgota na questão laboral, mas sim de várias que se juntam numa outra palavra: mobilidade. O que é de facto urgente é a regularização da Uber segundo padrões de segurança e de condições laborais adequadas - que também não se verificam nos táxis. É pois necessário que tanto a Uber, como os táxis, como a Cabify, como qualquer prestador de serviços de transporte público esteja devidamente certificado, segurado, empregado e justamente remunerado, garantindo a maior eficiência e segurança no transporte de pessoas (e das pessoas que as transportam) porque a mobilidade é uma necessidade e, mais que uma necessidade, trata-se de um direito.

Peguemos na mobilização dos taxistas, na discussão aberta sobre o transporte e falemos de todos os meios de transporte. Pensemos como a Uber, muitas vezes mais barata, tira trabalho ao taxista estacionado no Cais Sodré às 2 da manhã de sexta-feira, mas pensemos também naqueles que para poderem sair à noite têm de voltar de autocarro noturno, sobrelotado, incumpridor de horário, onde um motorista enclausurado numa gaiola de vidro reza para que não haja confusão lá atrás. Pensemos nos cartões esgotados nas bilheteiras do metro, pensemos nas sardinhas em lata das três carruagens da linha verde em Lisboa, pensemos nos autocarros que não passam e pensemos que um estudante da periferia cujo rendimento do agregado exceda à volta dos 7.000€/pessoa (cerca de 583€/mês por cabeça) não tem bolsa, logo não tem direito a desconto no passe e que paga 42€/mês para chegar à faculdade, onde paga mais de 100€/mês para estudar.

A luta dos taxistas é a luta dos motoristas da Uber, é a luta dos trabalhadores do Metro e da Carris, é a luta dos utentes do transporte público e de todos e de todas nós que não só temos direito à mobilidade na cidade, seja a pé ou de transportes, como habitamos um planeta que não sobrevive às consequências nefastas da indústria petrolífera, nem da indústria automóvel. Que a luta dos taxistas acabe com a concorrência desleal, que sirva de alerta para a precariedade na Uber, mas que sirva também para melhorar a qualidade do transporte, não só do táxi, mas de todos. São necessários: o passe escolar, mais trabalhadores nas empresas de transporte público, que estas se mantenham públicas, que os trabalhadores sejam devidamente formados e remunerados, mais autocarros e mais amigos do ambiente, mais carruagens, alargamento do horário nas noites de fim-de-semana e vésperas de feriado, mais estações de metro, diminuição do preço dos bilhetes (o elétrico a 2,85€ só serve de museu a turistas), mais ciclovias, mais mobilidade nas ruas e nos transportes para pessoas com deficiência.

O transporte não é um negócio, não é uma competição, é um serviço social que garante a mobilidade a que temos direito. Tratemo-lo como tal.

Sobre o/a autor(a)

Ativista anti-propinas, bolseira de investigação e dirigente do Bloco de Esquerda.
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