You are here

Tu quoque, Brute, fili mi!

A cimeira para “resolver” o futuro da Europa preferiu retirar os pontos relevantes da agenda, desistindo antes mesmo de começar.

A Cimeira de Bratislava foi há pouco tempo e, no entanto, já foi misericordiosamente varrida das memórias e dos comentários. Não valia mais, em todo o caso. Cimeiras para tratarem dos “problemas de fundo” ou para uma “reflexão sobre as soluções essenciais” já tivemos bastas vezes, e quando se ouve as expressões que convocam grandes momentos fundadores já sabemos que sai insignificância pela certa. No caso vertente, a cimeira para “resolver” o futuro da Europa preferiu retirar os pontos relevantes da agenda, desistindo antes mesmo de começar. Renzi, desagradável como só ele sabe ser, recusou-se a participar na conferência de imprensa final ao lado de Hollande e Merkel porque se aborreceu com a encenação.

A notícia não é portanto nem a cimeira nem o seu fracasso. O que há de novo é o desgosto anunciado por indefectíveis europeístas desde a primeira hora. O que espanta é a irritação de quem tem partilhado todos os momentos anteriores com o mesmo entusiasmo e sem nunca esmorecer – até agora. Maria João Rodrigues e António Vitorino, por exemplo, destacaram-se pela franqueza: dizem eles – e em público, para toda a gente notar – que, com a divergência económica entre os países europeus, e vai para mais de um década, e ainda com o fracasso das suas lideranças, a União começa a estar “ferida de morte”. Pior, acusam o euro de estar na origem ou de ser parte desta ferida. Outro cronista anuncia estar a tornar-se “eurocéptico”.

A expressão parece dura, “ferido de morte”, e atirar sobre o euro é pura traição ao soberano. Admitamos que, neste caso, possa não ser nem um diagnóstico nem um prognóstico e seja só um susto. Ora, mesmo o susto já diz tudo: Vitorino e Rodrigues acreditaram sempre, um trabalhou na Comissão e a outra é parte das instituições europeias, são dos seus melhores arautos em Portugal, decerto que não querem criar nenhum incidente ideológico, nenhuma polémica falsa e muito menos um alarmismo instrumentalizável. Portanto, é de levar a sério o seu cepticismo.

Se alguma coisa o recente episódio Durão Barroso nos confirma é a degradação das instituições e do papel dos seus líderes, pois Barroso recebe tratos de polé não porque seja o primeiro a dar este salto para a finança, mas porque todos os outros que fizeram o mesmo foram deixando uma situação cada vez mais exposta, com a sua fúria trepadora e o seu apetite inesgotável. Mas repare quem lê esta nota no que foi a reacção dos barrosistas: insinuaram que Juncker, tão amigo que ele era, tão candidato, tão abraços e beijos, só toma esta atitude inédita por ser ele próprio acusado de um estratagema fiscal no Luxemburgo, favorecendo as multinacionais no “planeamento fiscal”, o actual nome elegante para a evasão fiscal. A forma como os dirigentes europeus se destroem uns aos outros não é só prova do seu estatuto; demonstra que a chefatura da União Europeia cria problemas para resolver as suas dificuldades. Ou seja, o perigo de ser “ferida de morte” não se vai atenuar.

A resposta dos ideólogos federalistas portugueses foi curiosa, se considerarmos os porta-vozes oficiosos. Naturalmente, anunciaram que a Europa é preferível a uma esquerda exigente, que bem vistas as coisas o BCE até nos ajuda, que tudo depende de continuarmos na mesma senda e de reforçarmos as políticas que nos trouxeram até aqui, que a União se está mesmo a reformar e que, se formos pelo caminho difícil de decisões democráticas nacionais, se reforça a direita mais extremista, ou mesmo que o euro é assim tipo o Quinto Império.

Tudo argumentos pesados e tradicionais. Só têm um problema: é que não percebem o problema. Conveniências aparte, tudo o que resta é isto: uma União Europeia que promete convergência e estimula a divergência, impedindo ainda uma correcção que proteja a democracia, é sempre um projeto falhado, ou “ferido de morte”, para usar a expressão ainda dubitativa de António Vitorino. Uma União de divergência nada tem a devolver a quem nela confiou. Nenhum país democrático suportará a perspetiva de um empobrecimento de longo prazo para satisfazer uma finança perigosa e uma clientela política.

Foi por isso notório que, quando Joseph Stiglitz se limitou a constatar a inevitabilidade da divergência permanente e portanto propôs o “divórcio amigável” que permitisse a Portugal sair do euro, lhe caiu o Carmo e a Trindade em cima. Só que o que tem que ser tem muita força e, sendo uma opção tão difícil, é a que resta se a única razão de ser da União – para os cidadãos – se vai destroçando com a evidência da divergência que atinge os de baixo e com a exibição da mesquinhez dos de cima.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 10 de outubro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)