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Respira, querida Lisboa!

Entra aquela sensação de que em breve terão que haver workshops para treinar figurantes que pareçam habitantes locais. Por Sofia Neuparth.
Foto de Paulete Matos.

Um condomínio fechado não tem que ter muros ou cartões de acesso, pode ser uma atmosfera que constrange os corpos impossibilitando-lhes os inesperados, as imperfeições, os desequilíbrios, os acidentes, os segredos, as exuberâncias…pode ser uma cidade linda, e Lisboa é tão bonita, que se vai plastificando de tal forma que adormece os sentidos. Qualquer coisa como o Alphaville do Jean Luc Godard, aquele filme dos anos 70 do século passado que trouxe uma visão futurista dos ajuntamentos humanos onde tudo era brilhante e higienizado mas não se podia falar ou praticar afectos. Ou qualquer coisa como o absurdo do primeiro condomínio brasileiro entre São Paulo e Campinas se ter mesmo chamado Alphaville.

Entra aquela sensação de que em breve terão que haver workshops para treinar figurantes que pareçam habitantes locais, gente que atravesse a rua, que vá ao café, que pendure cuecas à janela, que se engane a deixar o lixo à porta no dia errado....uma coisa que poderia funcionar das 8 da manhã às 6 ou 7 da tarde!

Não me parece que seja interessante para a caminhada da humanidade preservar as coisas como se a deformação da continuidade da existência não fosse também um grande carrocel de aprendizagem. Não vejo a justeza de esticar a afinação de vida de determinadas coisas com o pavor de perder os traços que alimentam o percurso que os humanos têm vindo a fisicalizar ao longo dos anos na Terra.

Vejo a clareza que é necessária para considerar a ressonância entre cada acção ou desejo e a impossibilidade de investir em tecituras sociais e outras sem considerar a morosidade própria das reconfigurações de fundo. Plantar sequoias e achar que elas crescem viçosamente na duração de um mandato roça a catástrofe.

Os últimos anos encheram o coração de Lisboa de simulacros com anúncios pretos e legendas brancas, anunciam-se comidas tradicionais que nunca nenhum local experimentou (como os pastéis de bacalhau com queijos e coisas afins), desoxigenam-se os mercados e inventam-se lugares (não-lugares) que simulam as ambiências mas sem cheiros e sem moscas, tudo menos peixe a sério, tudo menos cenouras pequenas ou maçãs enfezadas como as suculentas bravo de esmolfe, só coisas coloridas, grandes e brilhantes acompanhadas de sucos desintoxicantes, emagrecedores e energizantes.

Moradores e comerciantes da Mouraria, Alfama e Baixa são convidados a pagar uma renda exorbitante, ou recebem uma cartinha a dizer que têm x meses para alterar radicalmente as suas vidas, fechar negócios centenários ou arrumar os trapinhos para ir morar sabe-se lá onde.

A moda da habitação temporária perfura todas as esquinas enquanto os segways treinam acrobacias no passeio público. As esplanadas espalham-se como uma praga e as motos de aluguer ocupam os poucos lugares de estacionamento por "serem motos", como explica o senhor polícia enquanto atravessa um enxame cerrado de turistas guiados por um gritador que inclui agora na história a Adega dos Lombinhos e outros paraísos recentemente desaparecidos como quem fala do D. Afonso Henriques ou do 25 de abril.

O som de fundo são as rodas dos trolleys e o fado gravado. Na Praça da Figueira os impertinentes TukTuks convivem com as dezenas de sem abrigo, na Rua dos Fanqueiros, as novas lojas de vinhos gourmet nascem como coelhos e morrem como tordos empurrando as drogarias, sirgarias e outras velharias para aquele lugar dúbio onde co-existem as papoilas teimosas que aparecem nas sebes no verão e as borboletas embalsamadas.

Qualquer corpo integra diversos tempos, ritmos e durações.

Se Lisboa estava a precisar de carinho, se as casas abandonadas e emparedadas tinham o desejo de ser habitadas ou se o rio Tejo estava cansado de se esconder da cidade, parece-me-nos não deixar dúvidas, mas investir “Top down” ou “Bottom up” numa operação transformadora que não acompanha a pertinência da pluralidade de tempos, ritmos e durações e que desenha uma cidade modelo, é um bocado empreendedoristicocêntrico.

Claro que a resistência resiste! Podemos sempre encontrar “irredutíveis gauleses” por aqui.

Ainda se bebe mesmo ginginha, nem que se telefone antes para saber se a tasca está aberta, ainda se pode fazer a vindima numa casa escondida mesmo à vista de toda a gente, ainda nos podemos demorar em jantarinhos e outros encontros intermináveis com grelhados e pão no forno ajuntando vizinhos que nutrem a vizinhança.

Um dia aprendi que “uma imagem é uma possibilidade que se faz presente” e desconfio que as possibilidades estão sempre em cada acontecimento, mas para que se façam presentes, para que apareçam, para que as possamos experienciar, há que escutar, ver para lá de ver, ouvir para lá de ouvir, não fechar o sentir. E acima de tudo, ser e deixar ser!

O c.e.m.-centro em movimento, é uma estrutura de investigação artística que desde o final dos anos 80 se dedica aos estudos do Corpo e do Movimento e que agora tem “casa” no centro da cidade.

Cada temporada destes últimos 11 anos praticamos Estar com Pessoas e Lugares.

São horas demoradas na rua, nas praças, nas esquinas, nas lojas, nas casas, nos trânsitos, deixando que os encontros vão bordando possíveis cidades onde se possa existir. Cidades que vivem em cada umaum de nós sempre que nos permitimos confiar naquilo que vamos sendo.

Temos vindo a acompanhar esta galopada de gentrificação e turistificação centímetro a centímetro, tal como conhecemos o miúdo na rua, que afinal está na creche ou se muda para a escola ou é neto da costureira que compra os galões aqui ao lado e vai ali mais à frente por as aplicações e afinal também se encosta à grade a contar histórias com o outro que é jardineiro mas só joga às cartas e espera que as escadas da saúde nunca rolem.

Acompanhamos sem agarrar, sem querer transformar, sem achar que nós é que sabemos como as coisas deveriam ser…chamamos a isso EstarCom. E é curioso como esse lado-a-lado, embora tantas vezes nos preencha de mudez, teima em nutrir uma esperança vibrante.

Ainda e sempre parece que a vida encontra as suas formas de atravessar muros…assim nós, os artistas e outros animados, não insistamos em rasgar os lençóis que permitem o recato dos segredos.


 

* Sofia Neuparth - investigadora e desasossegadora em estudos do corpo e do movimento, coração do c.e.m-centro em movimento

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Resto dossier

Turismo: Cidade e Gentrificação

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“O turismo, se não devidamente regulado, pode ser um sector predador”

Em entrevista ao Esquerda.net, Mário Alves, especialista em Mobilidade e Transportes, defendeu que o turismo pode e deve ser potenciado, mas também enquadrado e regulado e até como forma de fonte de receita fiscal.  

O turismo está a estragar o Centro Histórico do Porto?

As condições de vida, a permanência dos moradores nas suas habitações e até a classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da Humanidade estão a ser postas em causa. Por José Castro.

Gentrificação: palavra suja do urbanismo austeritário

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Gentrificação: é positiva, inevitável ou a expressão espacial da desigualdade?

A gentrificação é um produto do urbanismo neoliberal. O urbanismo que prescinde do planeamento e regula a favor do mercado, provoca a expulsão das classes mais vulneráveis e a sua substituição por classes de maior rendimento. Por Rita Silva.

O papel das políticas da CM de Lisboa na turistificação da cidade

As dinâmicas económicas e as transformações urbanas daí resultantes têm vindo a comprometer a desejada coesão socio-económica e territorial, tendendo a converter-se as ações de reabilitação em processos de renovação e gentrificação. Por Fabiana Pavel.

Para onde caminha a Lisboa cultural?

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Gentrificação e turismo em Lisboa

Vídeo do programa do Mais Esquerda sobre a gentrificação e o turismo na cidade de Lisboa.

Encontro na Trienal de Arquitectura, fotografia de António Brito Guterres

Quem vai poder morar em Lisboa?

Da gentrificação e do turismo à subida no preço da habitação: causas, consequências e propostas. Texto publicado em buala.org

“Vamos deixar Lisboa porque não somos ricos”

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Foto do site da Tomaz Douro.

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Num sector altamente concentrado - 1% das empresas são responsáveis por 64% do volume de negócios e 32% do emprego - não admira que os patrões queiram uma mudança na lei laboral de forma a legitimar o que são hoje práticas abusivas e uma informalidade constante. Por Adriano Campos.

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Foto: Fernanda LeMarie. Cancellería del Ecuador

Ada Colau: Por um "controlo democrático" do turismo em Barcelona

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Combate à gentrificação: Experiências internacionais

Neste artigo são assinaladas algumas das medidas adotadas na luta contra a gentrificação em cidades como Berlim, São Francisco, Paris e Barcelona.