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Parabéns que há tanto que fazer

A eleição de Guterres para Secretário-geral das Nações Unidas é uma satisfação rara numa cena internacional que está carregada de ameaças, do governo de Orban ao referendo italiano e ao impasse espanhol, das eleições norte-americanas ao corrompimento de partidos brasileiros, das eleições francesas às alemãs. Aliás, a sua vitória sublinha paradoxalmente um dos aspetos dessa ameaça, pois o colapso da manobra de última hora de Merkel e Juncker revela como a chefatura europeia se vai tornado irrelevante, exceto porventura para nos atormentar. Guterres será assim o secretário-geral da ONU num mundo cada vez mais perigoso e descontrolado, com guerras eternizadas, ditaduras emergentes, uma Europa desaparecida e uma radical viragem à direita em países determinantes, ou ainda alterações climáticas em contagem decrescente em nome de uma economia predadora.

Podemos e devemos festejar então a sua vitória porque é a pessoa mais indicada para o lugar, como demonstrou ao longo de dez anos à frente do trabalho com os refugiados, como comprovou com as suas palavras a respeito do acordo da União Europeia com a Turquia, e como ficou evidente pela sua atitude em relação a guerras e tormentas. Em todos esses momentos, ele foi claro e corajoso, independente e estratego. Merece os parabéns por esta vitória extraordinária.

Por ser português, talvez sintamos motivo de contentamento, sobretudo porque recentemente fomos envergonhados por um outro ex-primeiro ministro. De facto, a diferença entre a vida política de Guterres e a de Durão Barroso desde que deixaram de ser primeiro-ministro de Portugal diz tudo sobre os seus conceitos de vida. Mas ser português não é nem qualidade nem defeito que deva ser considerado nesta eleição na ONU (curioso é verificar as declarações de amor à portugalidade de Guterres pelos mesmos que alertam o povo contra toda a tentação “nacionalista” na decisão sobre as nossas vidas). O que importa para as Nações Unidas, e também para nós neste cantinho à beira-mar plantado, é simplesmente que seja a pessoa mais adequada para lidar com o mundo em fragmentação, pelo menos no alcance do que pode fazer. E é por isso que Guterres é indicado para o lugar. Parabéns, portanto.

E há tanto que fazer. Salvar os refugiados das guerras numa Europa que os quer aprisionar e num mundo que os quer ignorar, e parar a guerra da Síria, onde os Estados Unidos, a Rússia e algumas potências regionais ensaiam a sua capacidade destrutiva, pois desistiram de qualquer negociação ou solução, são tarefas que ultrapassam a boa vontade da pessoa certa no lugar certo, porque invocam os poderes do mundo. Mas se é certo que o pessimismo da razão não ofusca o otimismo da vontade, Guterres fará por mudar algumas das alavancas do nosso tempo. Precisamos disso e precisamos dele.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 5 de outubro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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