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E a Turquia aqui tão longe

Passados cerca de 6 meses da assinatura do acordo da União Europeia com a Turquia, o balanço que se pode fazer não é positivo, e se na altura havia problemas a apontar ao mesmo, hoje eles são agravados.

As pressões políticas para acabar com a vinda de refugiados para o território europeu têm sido grandes; com o crescimento do extremismo e populismo de direita em alguns Estados-Membros da União Europeia a reboque dos refugiados, a pressão política passou para a tentativa de barrar a entrada de migrantes.

A partir de determinada altura, as fronteiras começaram a fechar-se, a violência de Estado que recaiu sobre refugiados aumentou (a Hungria tem sido o caso mais extremo de casos de violência extrema contra refugiados1), alguns locais de chegada na Grécia foram votados ao abandono, os hotspots não estão ainda todos em funcionamento.

A solução para tudo isto encontrada pela UE foi, então, um acordo com a Turquia: em troca de 3 mil milhões de euros e a negociação da facilitação dos vistos para cidadãos turcos, a Turquia retém refugiados e requerentes de asilo e muscula a sua ação militar contra os mesmos.

Neste contexto, não é possível ignorar o avanço da própria vida política interna da Turquia. De uma tentativa de golpe de Estado (ou nem tanto), a fecho de jornais e equipamentos públicos, a detenções de dezenas de milhares de jornalistas, juízes, professores, funcionários públicos, até a ataques a refugiados e requerentes de asilo na fronteira entre Turquia e Síria. Mais recentemente, a Turquia, com a conivência da NATO, atacou o território a norte da Síria controlado pelo Povo Curdo, num claro ataque a um suposto inimigo interno da Turquia.

O cerceamento de liberdades fundamentais, direitos humanos e preceitos democráticos deveria ser incompatível com um acordo deste tipo. Afinal os tais valores com que supostamente se fundou a União Europeia não contam para nada quando o problema é ter que lidar com uma crise humanitária.

Hoje, como há 6 meses atrás, não é possível ignorar o significado deste acordo nem as consequências que ele tem: para aprofundar a crise de valores da União europeia, para agravar a crise humanitária de milhares de requerentes de asilo que fogem da guerra e da destruição, para o definhar das liberdades e direitos também do povo turco, para as dúvidas levantadas sobre os supostos programas de ajuda humanitária para onde os 3 mil milhões de euros estão a ser enviados.

Hoje, como há 6 meses atrás, continuamos a denunciar as violações de direitos humanos, qualquer que seja a fronteira, qualquer que seja o campo de refugiados, na Turquia ou na Europa.


Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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