You are here

Máfia, capitalismo sem filtro

“The Economist” dedicou um artigo à gestão da Máfia Napolitana. A identificação do modelo da máfia como modelo económico referencial trai a mentalidade atual da conformação de opinião a partir da comunicação social de referência.

Na sua edição de agosto, o baluarte do pensamento capitalista “The Economist” dedicou um artigo à gestão da Máfia Napolitana, a Camorra, baseando-se na série televisiva “Gomorra”. A identificação do modelo da máfia como modelo económico referencial trai a mentalidade atual da conformação de opinião a partir da comunicação social de referência: a “economia” não se mede pela capacidade de produção e provisão de bens e serviços, senão pela capacidade de um pequeno grupo de pessoas de obter grandes mercados, utilizando para tal todas as ferramentas à disposição das pessoas (dentro ou fora da lei, dentro ou fora de qualquer consenso ou legitimação social ou popular, dentro ou fora de qualquer noção de bem comum) para obter, no fim, uma fatia gigantesca de riqueza paralela, descontrolada e retirada directamente da população.

O The Economist fala com admiração da estrutura piramidal descrita na série

O The Economist fala com admiração da estrutura piramidal descrita na série, em que os gestores sénior determinam a estratégia e a distribuição dos recursos, em que uma segunda camada de gestores intermediários adquire e processa o produto, uma terceira camada de chefes de vendas coordena a distribuição e a quarta camada de vendedores de rua entrega o produto aos “consumidores”. A Gomorra mantém um fluxo múltiplo de fornecedores, com cocaína vinda de vários países da América Latina, heroína principalmente do Afeganistão e haxixe de países do Norte de África. Tem o mercado europeu da droga e tê-lo-á aberto à droga colombiana.

Don Pietro, personagem da série, é inspirado em Paolo di Lauro, antigo líder do clã Di Lauro, conhecido como “Ciruzzo ‘o milionário”, é o CEO inovador que inventou o sistema de franchises independentes, em que os distribuidores trabalham como unidades comerciais autónomas, responsáveis pela sua própria operação – em vez de serem meros funcionários, os distribuidores têm liberdade de recrutar pessoas e alterar as quantidades de produtos que podem colocar no mercado.

Um dos centros do artigo do “The Economist” é a questão laboral: uma das principais vantagens desta empresa é estar à margem “das leis laborais italianas que matam o emprego”, diz

Um dos centros do artigo do “The Economist” é a questão laboral: uma das principais vantagens desta empresa é estar à margem “das leis laborais italianas que matam o emprego”, diz. A Gomorra, com uma força de trabalho de 57 000 pessoas distribuídas por 115 gangues, consegue juntar uma equipa em pouco tempo e mudar a localização ou mudar de uma linha de negócio para outra sem grandes custos nem grande perda de tempo. São uma vanguarda de inovação de ideias e métodos e quando os gestores séniores resistem à inovação, tal como ocorreu quando nos anos 80 os chefes da Camorra resistiram à droga, são “substituídos” por novos gestores mais “inovadores”. A gestão de recursos humanos da Camorra, diz, o The Economist, é muito boa: são especialistas em team-building, os recrutas são iniciados em cerimónias religiosas e recebem alcunhas empoderadoras. Se um dos trabalhadores morre em serviço (o que ocorre com alguma frequência), as famílias recebem dinheiro e comida todas as sextas-feiras, no que a revista chama de Responsabilidade Social Corporativa da Camorra. Este “cuidado” faz com que as famílias e os populares onde opera a Camorra tomem o lado da máfia quando há acossos da polícia, formando barricadas, não cooperando com a polícia e incendiando as suas viaturas.

A quantidade de riqueza que a máfia movimenta pode ser vista em outra série, como Narcos, quando (facto aparentemente não ficcionado) Pablo Escobar se ofereceu para pagar a dívida externa da Colômbia em troca da não-extradição dos prisioneiros do narcotráfico para os Estados Unidos. Na vida real Paolo di Lauro, o CEO inovador, teria tido um rendimento de 200 milhões de euros por ano antes de ser preso em 2005.

O The Economist tende a deixar fora da informação não só a violência total e absoluta com que opera a Camorra, as mortes, o facto das mulheres serem meras bestas reprodutoras e/ou objectos sexuais, o conservadorismo religioso, os outros negócios da Máfia e o facto de que qualquer desobediência não acarreta despedimento, mas assassinato

Há anos que nos chegam filmes e séries de grande qualidade sobre a Máfia: os Padrinhos I e II, Goodfelas, The Departed, Era Uma Vez na América, Sopranos, The Wire, La Piovra, Boardwalk Empire, Narcos, entre dezenas de outros. Em comum têm uma difusa aproximação às personagens carismáticas dos mafiosos, com personalidades conflituosas, apaixonantes e dominadoras, que nos levam regra geral a querer que o “nosso” mafioso ganhe contra os outros mafiosos, contra a polícia, contra os seus inimigos. O problema é que os inimigos dos mafiosos não são os outros mafiosos nem a polícia: são as populações. Por muito valor e interesse artístico e até documental que as séries televisivas tenham (e têm), tendem a deixar muitos detalhes de fora. Neste caso, o The Economist tende a deixar fora da informação não só a violência total e absoluta com que opera a Camorra, as mortes, o facto das mulheres serem meras bestas reprodutoras e/ou objectos sexuais, o conservadorismo religioso, os outros negócios da Máfia e o facto de que qualquer desobediência não acarreta despedimento, mas assassinato (como é que será que funciona a sua Responsabilidade Social Corporativa quando o morto foi morto por desobedecer a uma ordem do seu superior hierárquico?).

Outro facto, esse mais relevante do alheamento da revista em relação à realidade, é que, apesar de haver uma série chamada Gomorra na televisão, hoje já não é a Camorra napolitana (nem a Cosa Nostra siciliana), mas a ‘Ndrangheta calabresa quem domina a máfia e o seu negócio mundial

Outro facto, esse mais relevante do alheamento da revista em relação à realidade, é que, apesar de haver uma série chamada Gomorra na televisão, hoje já não é a Camorra napolitana (nem a Cosa Nostra siciliana), mas a ‘Ndrangheta calabresa quem domina a máfia e o seu negócio mundial.

Ora, a ‘Ndrangheta tem diferenças importantes da Camorra, diferenças essas também particularmente relevantes quando falamos no modelo económico, estrutura e organização: os membros da ‘Ndrangheta são preferencialmente recrutados por relações de sangue dentro de cerca de 100 famílias, tornando-a muito menos vulnerável a cisões, delações e abandono. É esperado que os ‘ndranghetisti tenham muitos filhos e estes se tornem giovani d’onore (jovens de honra), uma espécie de lobitos da máfia, treinados para mais tarde se tornem uomini d’onore (homens de honra), cumprindo a omertà (código de silêncio) e passando a integrar a ‘Ndrangheta. Estima-se que existam cerca de 5000 ‘ndranghetisti na região de Reggio Calabria, mas muito além da sua presença dominante em Itália, a ‘Ndrangheta é hoje uma mega-multinacional, com ramos muito além da Europa: no Canadá, na Austrália, no México, na Argentina, nos Estados Unidos. É a ‘Ndrangheta e não a Camorra, quem tem há anos o monopólio da cocaína colombiana, tendo negociado com o Cartel de Medellín e depois com o Cartel de Calí para trazer o “produto” para a Europa, tanto que os narcodólares hoje são muito melhor descritos como narcoeuros. Além disso, têm um negócio muito diversificado: tráfico de crianças, tráfico de mulheres, tráfico de órgãos, redes de prostituição forçada, lenocínio, extorsões, tráfico de armas, “gestão” de resíduos, lavagem de dinheiro, fraude de seguros, homicídios, raptos, corrupção de políticos, e, claro, crimes financeiros. Estima-se que em 2007 a ‘Ndrangheta tenha tido um rendimento anual da ordem dos 40 mil milhões de euros, o equivalente a 3,5% do PIB de Itália. O dinheiro está, claro, além de em buracos no chão remanescentes do passado e nos bolsos para dispensas rápidas, em paraísos fiscais, sendo contratados consultores e gestores de investimento para diversificar as áreas de negócios e garantir rentabilidade financeira nas grandes praças internacionais.

A ‘Ndrangheta organiza-se a partir de unidades locais chamadas ‘ndrine, correspondentes à dimensão de bairros, que se juntam em unidades maiores, da dimensão de cidades, os locale. Cada nível tem liderança e pessoal autónomo, com estratégias flexíveis, como aquelas elogiadas pelo The Economist. Mas a estrutura é diferente: frequentemente dentro de uma ‘ndrina (singular de ‘ndrine) todos os homens (mulher não entra) pertencem à mesma linhagem familiar: irmãos, primos, tios, pais, filhos. Novos membros podem juntar-se à ‘ndrina por casamento, e não há limites para o número de membros, pelo que as famílias numerosas geram as ‘ndrinas mais numerosas e as mulheres têm de ser boas “reprodutoras” para produzir abundante prole para a ‘Ndrangheta.

A unidade individual básica são os picciotti d’onore, responsáveis por todas as tarefas básicas, que vão do transporte de pessoas ou trocas ao homicídio ou rapto. A exigência é de obediência total e após serem testadas todas as capacidades de “trabalho” dos picciotti, podem ascender a cammorista, passando a comandar o seu próprio grupo de picciotti d’onore. A hierarquia segue para santista e depois disso para vangelista, altura em que há rituais de iniciação em que se tem de jurar sobre a Bíblia dedicar a vida ao crime. Seguem-se os cinco Quintinos ou Padrinos, que reportam ao Capobastone, o CEO da ‘Ndrangheta, mas sem o poder que uma estrutura piramidal como a Camorra tinha. Em 1977, depois da Primeira Guerra da Ndrangheta, Giorgio de Stefano, Capobastone tentou pôr-se em pé e tornar-se o grande chefe da organização. Terminou assassinado e decapitado pelas várias ‘ndrinas.

A estrutura não é demasiado rígida, já que as estruturas superiores, nomeadamente os contactos entre os Quintinos e o Capobastone destinam-se principalmente a resolver conflitos entre as famílias, depois das duas guerras e milhares de mortos dentro da ‘Ndrangheta desde os anos 70. Há reuniões anuais para coordenar estratégias e resolver disputas, as crimine, mas estas aparentemente não têm poder regulatório sobre o cumprimento ou não das decisões.

A expansão do comércio livre dentro do espaço comunitário da UE, Islândia, Luxemburgo e Noruega foi uma excelente ferramenta para a expansão europeia do tráfico de cocaína da ‘Ndrangheta, que em 2006 viu uma das suas mais inovadoras ferramentas ser apreendida pela polícia: um submarino destinado a trazer a droga da Colômbia para a Europa.

Além dos seus negócios mais obviamente ilícitos, dentro da legalidade a ‘Ndrangheta exerce várias influências e está fortemente envolvida em corrupção, através da criação de empresas fictícias, usadas para lavar dinheiro mas também para ganhar concursos para grandes obras públicas ou serviços privatizados de resíduos sólidos urbanos e outros. A ‘Ndrangheta conseguiu 420 milhões de euros de financiamento europeu para construir a autoestrada entre Salerno e Reggio Calabria. Quando o governo italiano demitiu o executivo da câmara de Reggio Calabria em 2012 por ligações directas à ‘Ndrangheta, ficou-se a perceber que dos 3 mil milhões de dinheiro europeu recebidos de fundos estruturais desde 2007, fatias importantes ficavam nas mãos da ‘Ndrangheta: o imposto exigido aos cidadãos “pizzo” e a construção de parques eólicos, de centros comunitários anti-máfia, entre vários outros projectos. O porto de contentores Gioia Tauro, gerido oficiosamente pela ‘Ndrangheta e maior porta de entrada de cocaína na Europa, recebeu 40 milhões de euros de fundos da UE.

É essa a lição que o “The Economist” esconde acerca do capitalismo: não são só as forças explosivas e abertas, como idolatra a revista quando se refere à Camorra, que dominam a economia e o mercado global, mas sim os monopólios subterrâneos e pouco conhecidos, violentos e tantas vezes familiares, conservadores e pouco espalhafatosos que prosseguem os seus crimes de forma bem organizada e muito longe do escrutínio público

A organização beneficiou-se da legislação italiana e europeia sobre a necessidade de tratamento de resíduos tóxicos e radioativos: quando passou a ser proibido despejar estes resíduos na natureza, a ‘Ndrangheta foi a porta de saída para muitas indústrias e centrais nucleares da Alemanha, França e Itália, entre outras, que pagaram à máfia calabresa para livrar-se dos resíduos, o que foi feito através do afundamento de navios com lixo tóxico e nuclear ao largo da costa de Itália e, mais tarde, devido à fiscalização, com o afundamento de navios com resíduos nucleares em países pobres como a Somália.

Nos anos 80 o cartel de Medellín escoava cocaína para a Europa através da Cosa Nostra e a ‘Ndrangheta era obrigada a comprá-la aos sicilianos, mas a expansão da ‘Ndrangheta após o fim da segunda guerra interna levou rapidamente os calabreses a estabelecer o seu próprio contacto com a Colômbia. Os colombianos rapidamente começaram a preferir fazer negócio com os calabreses: eram menos nervosos, muito mais discretos, confiáveis e não falavam. É essa a lição que o “The Economist” esconde acerca do capitalismo: não são só as forças explosivas e abertas, como idolatra a revista quando se refere à Camorra, que dominam a economia e o mercado global, mas sim os monopólios subterrâneos e pouco conhecidos, violentos e tantas vezes familiares, conservadores e pouco espalhafatosos que prosseguem os seus crimes de forma bem organizada e muito longe do escrutínio público. Que dominam o mercado porque são o mercado. Qual é a diferença entre um crimine anual da ‘Ndrangheta e a reunião do Clube Bildeberg? Qual é a diferença entre uma ‘ndrina e os Rothschild, os Walton, os Koch, os Cargill-MacMillan?

Depois do colonialismo ter garantido o saque histórico sob o qual se construiu o “Ocidente”, faz todo o sentido que a máfia mimetize os mecanismos criminosos com que o capitalismo exerce o seu roubo sobre o planeta e os povos

O capitalismo e o seus gestores têm uma natureza sempre expansionista, que precisa encontrar novos mercados e territórios para tentar satisfazer a sua voracidade pela acumulação de riqueza num crescimento sempiterno através da intensificação da exploração sobre pessoas e recursos naturais. Depois do colonialismo ter garantido o saque histórico sob o qual se construiu o “Ocidente”, faz todo o sentido que a máfia mimetize os mecanismos criminosos com que o capitalismo exerce o seu roubo sobre o planeta e os povos: mais mercados, mais violência, total desprezo pelos direitos humanos, pelo ambiente, conservadorismo e subjugação de mais de metade da população humana ao papel de parideiras e carne para tráfico humano, “empreendedorismo”, monopólio, corrupção, fraude política, subversão democrática. “Plata o plomo” dizia na série Narcos Pablo Escobar: Dinheiro ou balas era o que o traficante colombiano em ascensão tinha para oferecer aos polícias: conformação com o sistema ou morte, ou aceitavam o suborno e entravam nas mãos da máfia, ou só existiria violência para si e para as suas famílias. Que o The Economist o louve é apenas o sinal de que o ciclo se fecha: se o capitalismo é crime e é louvado, era uma questão de tempo até que louvassem abertamente a máfia que tão fielmente aplica as “leis” da economia moderna e da acumulação de capital, que longe da opressão dos Estados e das regulações, dos direitos e da igualdade, dos bens comuns e do trabalho, da sociedade e do predomínio do social, se afirma como capitalismo sem máscara.

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
(...)