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Ai a falta que a direita lhes faz

Não, não é do “velho” Bloco nem do “velho” PC que têm saudades e muito menos da sua oposição. O que os amargura e contraria são as saudades que sentem da velha política.

Andam amargurados os comentadores, os que opinam sobre a política e a economia. Falo de comentadores e não de analistas, embora alguns se julguem como tal. Não falo de jornalistas, embora alguns acumulem ou confundam comentário e jornalismo. Falo dos que se multiplicam - e desmultiplicam - nas rádios, nas televisões, nos diários, nos semanários, nas redes sociais, sempre os mesmos, opinando todos os dias ou todas as semanas, não falham um telejornal, um debate, uma mesa redonda, uma coluna ou página de opinião, não há acontecimento ou situação que lhes escape, em Portugal ou lá fora. Salvo raras exceções, todos inspiram estas linhas.

E qual é a amargura, o que os entristece e inquieta, o que lhes tira o sono? Coisa simples: queixam-se de saudades do BE e do PC. Sejamos rigorosos, usemos as suas próprias palavras: saudades do “velho” Bloco e do “velho“ PC, saudades de uma oposição a sério, sem papas na língua, dizem. Sim, leram bem, saudades daqueles que até há muito pouco tempo eram por esses mesmos comentadores considerados e tratados como gente irresponsável, extremista, radical, sem sentido de estado, antipatriotas, agentes da instabilidade política, inimigos das instituições, agitadores ultrarevolucionários e antieuropeus, forças do quanto pior melhor, partidos sem vocação de governo, enfim, gente da qual nada de bom havia a esperar mas de quem, hoje, dizem morrer de saudades.

Deambulam entre o caricato e o hipócrita. Não, não é do “velho” Bloco nem do “velho” PC que têm saudades e muito menos da sua oposição. O que os amargura e contraria são as saudades que sentem da velha política. Sim, estão saudosos, saudosos dos tempos em que Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, Paulo Portas e Assunção Cristas condenavam os portugueses e o país ao empobrecimento, em nome de uma elite endinheirada que não parou de enriquecer e cujos negócios lhes garantem agora bons empregos. Saudosos desse tempo, suspiram pelo regresso dessa elite, cada vez mais contrariados com o rumo da política portuguesa.

Contrariados com o aumento do salário mínimo nacional - os trabalhadores não merecem, não produzem para tanto salário.

Contrariados com a tarifa social de eletricidade, a nova renda apoiada ou o congelamento das rendas - quem não tem dinheiro não tem vícios.

Contrariados com a reposição dos salários e das 35 horas de trabalho – é um prémio à preguiça dos funcionários públicos.

Contrariados com o fim dos exames do 4º e 6º anos – é um incentivo à balda no ensino.

Contrariados com a dispensa de apresentação quinzenal dos desempregados – se querem emprego que se esforcem.

Contrariados com o aumento das pensões e do CSI – para estarem nos jardins a gastar no dominó e na batota não lhes falta o dinheiro.

Contrariados porque o estado não desperdiça milhões com os colégios privados – já não se respeita a liberdade de escolha dos pais.

Contrariados porque as crianças do 1º ano vão receber gratuitamente os seus manuais escolares – ao que é grátis ninguém dá valor.

Contrariados com a recapitalização pública da CGD – com tanto banco privado a precisar de dinheiro e o estado vai gastar dinheiro num banco público.

Contrariados com o fim das privatizações – não faltam angolanos e chineses prontos a ajudar o país e nós a desperdiçarmos essa ajuda.

BE e PC não são oposição a esta política e nem se perceberia que o fossem. Os comentadores sabem muito bem disso. Sem ilusões a esse respeito, apostam na trica, na intriga e no conflito, na esperança de assim conseguirem deslaçar a maioria.

A esquerda não confunde as dificuldades de um banco público com as falências fraudulentas de bancos privados. Nem compara o lento crescimento da economia, em plena crise mundial, com o colapso provocado pelas políticas da troika e do governo PSD/CDS. E sabe que é diferente discutir as exigências de Bruxelas ou cumpri-las cegamente como um bom aluno.

Falemos sem máscaras, sem disfarces, sem retórica. Estão desiludidos porque o PS desta vez entendeu-se com a esquerda. Estão inconsoláveis porque BE e PC não deixam a direita regressar ao governo. Estão desanimados porque a oposição da direita não pega, a oposição são eles e mais nada. Estão danados porque a geringonça funciona.

Artigo publicado na “Visão” de 15 de setembro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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