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A segunda passadeira vermelha

O caso de Durão Barroso (e a defesa que o PSD faz da sua conduta) atira a política ao charco mas há um partido-nenúfar a navegar com o "pin" da portugalidade à superfície.

Vem antes do lobby e dá pelo nome de porta giratória. O fim do ciclo de governação ou o abandono de cargos de máxima responsabilidade tem sido o gatilho para o movimento circular de inúmeras portas de interesses. É frequente na política e legal na maioria dos casos escrutinados. Mas nem esta aparência de que tudo é normal numa terra de cegos, permite transformar um pântano movediço num contemplativo lago de águas turvas.

O caso de Durão Barroso (e a defesa que o PSD faz da sua conduta) atira a política ao charco mas há um partido-nenúfar a navegar com o "pin" da portugalidade à superfície. Jean-Claude Juncker pediu a abertura de um inquérito ao Comité de Ética da Comissão Europeia e eis que "a Terra se move" para o PSD. O facto de Durão ser português não faz com que tenhamos que o defender de coisa alguma. Quando muito, só deveria acentuar a nossa condenação veemente do seu movimento de rapina.

Após anos a fio de amor em braços, o PSD escolheu o vergonhoso caso de Durão Barroso para fazer a sua primeira crítica à União Europeia (UE). Pasme-se. Luís Montenegro, líder parlamentar, entristece-se com um "espectáculo que não abona nada em favor" das instituições europeias, sem que alguém perceba em que isto abona a favor da decência social-democrata. O partido de Passos Coelho acredita agora no seu próprio "conto de crianças" e é muito mais denso do que qualquer tragédia grega. Aos bichos. Sinal laranja, quase vermelho, na navegação de pântano: a profundidade da Oposição deste PSD combina zero propostas orçamentais com a defesa dos comportamentos de reptilário.

Jean-Claude Juncker é hábil nas manobras de diversão. Tudo fica igual na aparência da mudança. Para os políticos lobistas e para o paraíso fiscal no Luxemburgo, seu país de origem, só mudam as vírgulas. Lembremos nomes: Draghi, Prodi, Monti, Papademos ou Borges, todos eles políticos europeus que se apresentaram ao serviço da Goldman Sachs (GS). No momento em que quase 140 mil pessoas assinaram a petição lançada por funcionários das instituições europeias, exigindo medidas exemplares face à contratação de Durão Barroso pela GS, Juncker retira-lhe os privilégios protocolares da "passadeira vermelha" mas mantém o essencial: a duplicidade de rendimentos. Todos temos como certo que a passadeira vermelha de Arnaldo de Matos acabou para Durão pouco depois do PREC. Agora, pouco depois da saída da UE, perde a de Juncker. O que mais inquieta é perceber como o PSD ainda acha que Durão se importa. E à custa disso, enquanto partido que se permite defender o indefensável, vai-se dissolvendo no carácter.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 14 de setembro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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