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Um setor em crescimento acelerado

A indústria de fabrico e montagem de bicicletas tem vindo a ganhar uma importância económica significativa e neste momento já emprega 7500 pessoas, prevendo-se que este número possa vir a aumentar devido não só ao aumento registado na venda deste veículo como à intenção manifestada por vários empresários de instalarem em Portugal as suas unidades
Em 2014 foram vendidas cerca de um milhão e meio de bicicletas sem motor o que gerou uma receita de 178,3 milhões de euros

Rui Amador trabalha na Órbita e em 2013 fundou uma empresa que se dedica à conceção e comercialização de mobiliário urbano para bicicletas. A sua visão sobre as formas alternativas de transportes comporta por isso uma componente de natureza económica porque o setor de montagem e produção de componentes para os veículos de duas rodas está em franco crescimento.

A empresa de Rui Amador visa essencialmente suprir algumas lacunas existentes no mercado, relacionadas sobretudo com o mobiliário urbano para bicicletas, que considera ser ainda “escasso” e com “pouca qualidade”.

“Acima de tudo temos de pensar em que tipo de cidades queremos viver no futuro porque o modelo atual está esgotado”, afirma Rui Amador, que deteta ainda muitos estrangulamentos quando se trata de implementar, sem reservas, medidas que devolvam o espaço urbano às pessoas, retirando protagonismo aos automóveis.

“Há cada vez mais utilizadores de bicicletas e esta situação não é circunstancial porque as pessoas começam a perceber as vantagens existentes em limitar de forma significativa a utilização do carro, sobretudo nas cidades”, acrescenta.

Venda de bicicletas com aumento significativo

Se olharmos para os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), podemos verificar que o aumento de venda de bicicletas subiu mais de 30 por cento no decurso de um ano, acabando por gerar por gerar mais de 31 por cento de receitas em igual período.

Desta forma, e de acordo com o INE, foram vendidas em 2014 cerca de um milhão e meio de bicicletas sem motor, o que gerou uma receita de 178,3 milhões de euros, ou seja, o valor mais elevado dos últimos três anos.

Rui Amador está consciente deste crescimento, mas aponta falhas sobretudo no que respeita à falta de sensibilidade por parte dos poderes públicos, nomeadamente de algumas autarquias que em relação aos serviços de apoio para quem usa este meio apostam mais no design do que na funcionalidade, esquecendo assim que poderão estar a inibir muitas pessoas de começar a utilizar regularmente a bicicleta porque as estruturas existentes são pouco eficazes e seguras.

“Há muitos autarcas que revelam ainda algumas dificuldades em perceber esta realidade e, é preciso dizê-lo, compram os equipamentos a partir de conhecimentos pessoais ou peças de autor, ignorando aquilo que é mais importante, ou seja, a sua eficácia”, refere.

Para sustentar o que acaba de dizer, Rui Amador refere os estacionamentos que abundam em Portugal e que deviam dar para cinco bicicletas mas que acabam por não ser usados porque as danificam, uma vez que prendem a roda enquanto deviam prender o quadro.

Há no entanto aspectos positivos sublinhados pelo empresário como o programa levado a cabo em Loulé, no Algarve, em que as crianças vão para a escola de bicicleta acompanhadas pela polícia.

“No início esta iniciativa teve uma adesão reduzida mas aos poucos foi crescendo e hoje generalizou-se havendo por isso um número elevado de crianças que já a adotaram”, sublinha Rui Amador, acrescentando que “nos municípios da Nazaré e da Murtosa o número de utilizadores de bicicletas já ultrapassou o número daqueles que usam o automóvel”.

Por seu turno, o município de Lisboa pretende aumentar de forma significativa o número de quilómetros de ciclovia na capital para dar resposta ao aumento do número de pessoas que já passou a utilizar a bicicleta para a suas deslocações.

José Manuel Caetano, presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB) - uma organização nascida em 1987-, afirma a este propósito que até Julho de 2017, a cidade de Lisboa terá em termos de ciclovias mais do dobro do que existe atualmente.

Desta forma, o responsável da FCUPB afirma que Portugal deixou de ser um mau exemplo para a Europa e a escassez de ciclovias deixará de servir como desculpa para as pessoas não andarem de bicicleta.

“Ando nisto há 30 anos e considero que a situação presente é um paraíso, comparado com o panorama que tínhamos há 10 ou 15 anos, em que só havia uma ciclovia na zona ribeirinha, pintada pela administração do Porto de Lisboa e que nem sequer fazia respeitar aquela solução”, afirma.

Exportações e emprego

Por outro lado a Órbita, com sede em Águeda, tem vindo a diversificar os modelos de bicicletas para se posicionar num mercado cada vez mais competitivo e que já não se restringe à produção destes veículos como modelos utilizados unicamente para as deslocações em direção ao trabalho.

No catálogo desta empresa que exporta 70 por cento da sua produção, há agora uma gama variada de bicicletas destinadas a crianças, mas também com um desenho pensado para os utilizadores em meio urbano e para os adeptos da BTT. Além disso existem ainda veículos articulados, de corrida e duplas com um design vintage.

Entre os destinos de exportação da empresa estão, entre outros, Inglaterra, Moçambique, Angola, Estados Unidos, México e alguns países do Norte de África. A empresa pretende alargar o seu universo de exportação e por essa razão está a desenvolver contactos com a Argélia, Colômbia e o Qatar.

Segundo dados publicados na comunicação social,  a produção da empresa situa-se atualmente entre as 30 e as 35 mil unidades e a faturação ronda os 12 milhões de euros.

Ainda de acordo com a imprensa a nível europeu Portugal já é o terceiro exportador de bicicletas. Em breve vão abrir mais três fábricas em Portugal, o que aumentará a capacidade produtiva de exportação deste produto.

As perspetivas são asiim animadoras, uma vez que nesta dinâmica há que ter em conta que o nosso país já possui 10 empresas de montagem e 25 de produção de componentes, que são responsáveis por 7500 empregos.

“Com esta pujança e se houver empenho e diálogo entre os vários decisores políticos no sentido de suprir as falhas ainda existentes, além de iniciativas de sensibilização para uma utilização mais regular de outros meios de transporte é minha convição que esta indústria será ainda mais importante no futuro, potenciando o crescimento da economia, as exportações e o aumento do emprego”,referem fontes ligadas a este setor.

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