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"América Latina deixou de ser fundo de quintal dos EUA"

Enquanto a China e a Índia avançavam na economia, a América Latina permaneceu longo tempo à sombra. Mas na última década a região fez grandes progressos. A cotação das moedas nacionais e a inflação estabilizaram-se, em grande parte; as taxas de juros retrocederam; a procura interna e a exportação cresceram.

É verdade que nem todas as expectativas foram preenchidas - as desigualdades sociais e a pobreza permanecem uma tarefa em aberto. Porém a democratização e a boa governança na maioria dos países latino-americanos dão esperança de que o curso ascendente seja retomado após a actual crise económica global.

Participação modesta

Segundo o professor Federico Foders, integrante do directório do Instituto de Economia Mundial da Universidade de Kiel, o peso económico da América Latina no mundo reside sobretudo no seu potencial como fornecedor de matérias-primas e agroprodutos, função que tem preenchido nos últimos 200 anos.

Tal papel, no entanto, reduz as possibilidades da região de garantir uma participação no comércio mundial e de se beneficiar de forma duradoura da globalização.

"Se considerarmos a soma dos produtos internos brutos latino-americanos, o seu peso quantitativo na economia mundial fica abaixo de 1%, o que não é muito. No comércio mundial, a percentagem é também pequena, entre 2% e 3%, tanto no que concerne à expansão do comércio exterior como o próprio crescimento, ou seja, o aumento do próprio PIB", analisa Foders.

Latinos em ascensão nos EUA

Para os Estados Unidos sob a administração de George W. Bush, a América Latina era um campo secundário. Exceptuadas a integração do México no Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) e a luta contra a máfia das drogas, os norte-americanos não pareciam ter maior interesse pela região.

Mas há muito ela deixou de ser mero "fundo de quintal" dos EUA, constituindo importante fonte de matérias-primas. "E neste meio tempo, os latinos representam uma parcela muito importante da população norte-americana", acrescenta Federico Foders.

A sua integração na sociedade norte-americana tem sido extremamente bem-sucedida, com a ocupação de cargos importantes, como os de ministros ou professores. "Assim, o recrutamento de pessoas da América Latina é parte importante do desenvolvimento demográfico dos EUA."

Concorrência chinesa

Entre admiração e medo, os latino-americanos observam a crescente presença da China na sua região. Pois por um lado aquele país asiático é bem-vindo como comprador de matérias-primas e produtos agrários. Mas por outro é um duro concorrente nos mercados internacionais, além de inundar os mercados nacionais com produtos baratos.

"A China possui o mais alto índice de crescimento económico do mundo, entre 8% e 10%. Apesar da crise, o país continua crescendo e tem enorme fome de matérias-primas", comenta o professor da Universidade de Kiel. Assim, o seu interesse na América Latina é, em primeira linha, como fornecedora de matéria-prima, em segundo lugar como mercado para os produtos industriais chineses.

"A China já é membro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e contribui no financiamento de medidas para infraestrutura em toda a América Latina. Essas medidas visam levar as matérias-primas até os portos e, de lá, para a China."

Presença do Bric

Mas a China não é tudo. Um outro importante actor da economia mundial é o assim chamado grupo Bric, dos principais países emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China.

Independente do contexto latino-americano, o Brasil assume uma posição de destaque cada vez maior na política mundial, devido a suas iniciativas - a exemplo do G20 ou do "grupo do Lula" - e seu papel em fóruns internacionais.

Na opinião de Foders, o significado do Bric ainda vai crescer. "Trata-se de um grupo muito importante. Os seus integrantes dominam actualmente o comércio externo com os países em desenvolvimento, e ditarão fortemente o tom nos próximos anos."

Dificuldades multilaterais

O que parece não funcionar tão bem na América Latina é a integração regional. Inúmeras tentativas - seja com a Comunidade Andina, o Sistema de Integração Centro-Americana (Sica) ou o Mercosul - não deram muito resultado até hoje. Assim, cada vez mais nações latino-americanos procuram fechar acordos de cooperação bilateral.

O professor Foders atribui o problema à lentidão das negociações na Rodada de Doha. Enquanto esta não for concluída, "não haverá avanço no comércio multilateral", afirma. Nestas circunstâncias, ele considera a preferência pelos acertos bilaterais "perfeitamente normal". "E nisto a América Latina não está só. Os asiáticos fazem o mesmo, outros países também."

Revisão: Roselaine Wandscheer, adaptação para Portugal de Luis Leiria

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