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O ordoliberalismo deslumbrado

Vital Moreira tem destas coisas: ele adora a “Europa”. Tudo está bem. Os Tratados são encantadores, a política económica é o que tem que ser, as instituições são respeitáveis, os políticos certos, a “Europa” vai bem.

E se lhe contestam os pergaminhos, então temos o caldo entornado e o Vital amanda-se como uma fera aos pecaminosos, muito mais se for este vosso servidor (desconsiderado pelo professor de Coimbra ao ponto de perguntar com aquela elegância prussiana “como é que há quem leve a sério políticos destes?!”). Foi o que tornou a fazer a propósito de um artigo online que comenta algumas páginas de um livro em que colaboro, “Segurança Social – Como salvar a democracia”.

Vital não leu o livro. E porque é que precisaria de o ler para o criticar? Bastam-lhe duas linhas de um jornalista sobre o coiso, ele já sabe do que a casa gasta.

Não gostando do governo atual, em que zurziu quanto podia, pois é apoiado por esquerdistas desalinhados com Berlim, Vital Moreira tem ainda razões de sobra para este ajuste de contas com as tais linhas que leu num jornal. Socorre-se para isso da doutrina.

O meu capítulo no livro argumenta, e as tais linhas resumem e repetem, que o ordoliberalismo alemão é a base doutrinária dos tratados da União Europeia. Vital concorda com isso. Mas onde eu critico o ordoliberalismo, ele deslumbra-se com ele: é o “liberalismo ordenado”, em que se presume que Vital se insere hoje em dia, ele que já foi comunista, depois socialista, depois atlantista, para agora chegar a esse cume do “ordoliberalismo ordenado”. Onde eu vejo a conjugação do neoliberalismo, ou seja do predomínio do mercado na gestão da coisa pública, com o autoritarismo, ou seja a proteção pelo Estado do interesse do mercado, ele vê a “ordenação”, o liberalismo jeitosinho, que augura a livre concorrência e que se sintoniza com a democracia dos todos iguais.

Não seria preciso Durão Barroso lembrar-nos o sucesso da Goldman Sachs, que é doravante o seu próprio sucesso, para registarmos no que deu este liberalismo jeitosinho: uma enorme concentração financeira, a servidão da política à renda, a corrupção das democracias menorizadas pelos interesses, precisamente o que requer o autoritarismo schaubeliano. Mas Vital, tão formoso mas seguro vai ele para a fonte, entende que é assim que estamos bem.

Concedo-lhe que dia a dia se verifica que a “Europa” prossegue o seu caminho e continua fiel ao seu ordoliberalismo e aos seus chefes. Mas nem todos temos o dom de aceitar este destino.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 1 de agosto de 2016

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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